Por que mataram Kayube?
No último domingo, A CRÍTICA alertou sobre a ameça que o chamado “tribunal das ruas” representa. Quando pessoas cheias de ódio e sem nenhum respeito pela vida invocam para si o direito de julgar, condenar e executar. Além de uma afronta aos direitos humanos – que não servem apenas para proteger “bandidos” – essa atitude coloca em risco a vida de todos. Ninguém está seguro. Basta ser confundido com um criminoso. Foi o que aconteceu, no final da tarde de domingo, com o estudante Kayube de Carvalho Oliveira, de 16 anos.
Aluno do Colégio da Polícia Militar, Kayube estava a caminho da igreja, como costumava fazer aos domingos, quando foi confundido com um ladrão. Foi o que bastou para que um grupo formado por populares, mototaxistas e transeuntes espancassem o jovem com pedaços de pau até a morte e jogassem seu corpo em um igarapé junto com os instrumentos do assassinato. Acreditando ter feito justiça, essas pessoas mataram um inocente.
Cada pessoa que participou do linchamento de Kayube cometeu um crime bárbaro, e o ato continuaria sendo criminoso mesmo que a vítima fosse um “bandido”. Não cabe ao cidadão “de bem” decidir quem é culpado ou não. É para isso que existem as instituições: a polícia, os tribunais. “Mas a Justiça nunca é feita ou é feita tardiamente”, dirão muitos. Nesse caso, a sociedade deve pressionar por instituições melhores, mais eficientes, por mais segurança, por uma polícia presente, por uma Justiça célere. O que não pode é tomar para si a atribuição de julgar e punir com pena de morte. Não se pode usar o desejo por “justiça” como justificativa para cometer atrocidades como a que vitimou Kayube. Vários participaram do suplício do jovem, mas nenhum pode devolver a vida que ajudou a tirar.
A sociedade amazonense não pode tolerar isso. O que ocorreu com o estudante é a demonstração que a violência nada resolve. Promover a Justiça não tem nada a ver com a promoção da violência. O discurso extremo de que “bandido bom é bandido morto”, que ganha cada vez mais popularidade, precisa dar lugar a uma reflexão profunda sobre o tipo de sociedade que queremos. Há uma distorção de valores. A população se sente acuada com a escalada da criminalidade e da sensação de insegurança, o que abre espaço para atos extremos. Se continuar essa tendência, ninguém estará a salvo, inclusive os inocentes.