Manaus dom, 18 out
A Crítica
Opinião

Presente de Papai Noel

Por Fabrício Martins, bacharel em Direito pela Ufam e mestre em Desenvolvimento Urbano pela UFPE

Publicado em 10/07/2020 às 20h37 · Atualizado em 24/03/2022 às 23h04
Presente de Papai Noel
Foto: Alex Pazuello/Semcom

A tal “maior obra de mobilidade urbana de Manaus”, o complexo viário na avenida Constantino Nery, entre as ruas Pará e avenida João Valério, tem um bom acerto para despistar os tantos erros graves. Nada de novo quando se trata de obra pública carrocentrada em Manaus.

O acerto é finalmente entender que para qualquer intervenção na malha viária deve-se contemplar o modo que mais transporta passageiros: o coletivo por ônibus.

Articular uma estação de transbordo à uma parada da faixa azul, novidade em Manaus, porém amplamente utilizada fora, é um ganho de qualidade de vida para o usuário. Segura, bem sinalizada e climatizada, a estação no São Jorge permitirá conexão entre linhas sem a infeliz e longa viagem aos terminais de integração.

Quanto ao resto… a começar pela propaganda enganosa: sequer se trata da “maior obra de mobilidade” executada na Avenida Constantino Nery, o que dirá na cidade. A edificação em si segue o “padrão Manaus”: trata o gargalo do trânsito de maneira microssegmentada, pontual.

A obra, ao custo declarado de 63 milhões de reais, tem seus evidentes limites. O tráfego engarrafado na ponte do São Jorge agora será transferido para 300 metros dali, na rua Pará. Congestionado ficava, congestionado ficará.

Quanto à Avenida Constantino Nery, o tráfego sem fluidez ocorre em toda sua extensão e deriva do fluxo acima de sua capacidade. Se não diminuir a quantidade de carros em circulação, pode gastar dinheiro com túnel que for, os alívios serão sempre temporários.

Por último, mas não menos importante, o fato de a prefeitura ter aceito construir entradas exclusivas para os clientes de uma certa loja de materiais de construção, supostamente a pedido da própria, demonstra pouco apreço dessa gestão municipal pelo caráter impessoal da Administração Pública.

Segundo uma nota enviada ao jornal A Crítica, de 6 de julho de 2020, a Prefeitura de Manaus autorizou a benfeitoria em razão da entrada ter sido construída com recursos da empresa e gerado “economia ao cofre público municipal porque reduziu a necessidade de instalação de estacas de fundação na área”.

Ora, imagine que o conceito de economia da Prefeitura é uma estrutura que garante acesso facilitado e exclusivo a um negócio privado. Imagine que tamanha oportunidade jamais será concedida a qualquer dos concorrentes de tal empreendimento comercial. Imagina-se que também o valor do IPTU do terreno favorecido pela “entrada exclusiva” não será alterado, a despeito da valorização evidente do terreno.

Quisera todos os cidadãos fossem contemplados com a mesma candura com que a Prefeitura de Manaus tratou os interesses daquele estabelecimento. Gentileza a ponto de alterar um projeto estrutural de obra viária, não alertar o público sobre o fato e descortinar a novidade apenas no seu lançamento fanfarrônico. Business as usual.

*Fabrício Martins é manauara, 33 anos, bacharel em Direito pela Ufam e mestre em Desenvolvimento Urbano pela UFPE. Coordenador da associação Amazônia pelo Transporte Ativo (Apta), trabalha como consultor legislativo em políticas pública na Alepe e diretor do Sindilegis-PE e CUT-PE.