Manaus ter, 20 out
A Crítica
Opinião

Que as mortes tenham importância

Publicado em 26/01/2021 às 10h35 · Atualizado em 13/03/2022 às 19h51
Que as mortes tenham importância

A mobilização ora feita para sistematizar os dados sobre pacientes que foram a óbito por falta de insumos e de oxigênio em Manaus e outros municípios do Amazonas é a outra iniciativa necessária. Familiares devem ser esclarecidos e buscar junto as instâncias legais, tais como Ministério Público e Ordem dos Advogados, como proceder na instauração de processos que possam, em parte, reparar danos.

Um outro aspecto fundamental é o de estabelecer, a partir da experiência danosa no Amazonas, procedimentos mais rigorosos que evitem a repetição da tragédia atual. Em todas as instâncias governamentais (federal, estadual e municipal), ocorreram falhas. Quem irá responder por esse comportamento? Se o caso de Manaus, agora se ampliando para o interior do Estado, não for tratado com a seriedade que exige, em pouco tempo o esquecimento e o abrandamento dele está sendo trabalhado sem impactar para mudanças reais.

De um lado é preciso reparar, de alguma maneira, as vítimas indiretas dos danos. De outro, revitalizar e ou instaurar procedimentos que tornem mais difícil a repetição dessa prática. Muitas pessoas morreram porque não tiveram acesso ao atendimento adequado e em tempo hábil, pior, porque faltou um dos componentes fundamentais, o oxigênio. Há repetição nas informações das autoridades a área da saúde de que a demanda pelo produto triplicou. A gestão estratégica diante dos documentos que apontavam para o agravamento da pandemia de Covid-19 em Manaus iria acionar mecanismos para criar uma rede de suporte caso fosse necessário ter mais oxigênio. Ao que parece, apenas quando o fato estava consumado, as mortes ocorrendo, é que a operação corre-corre foi iniciada.

Responsabilizar criminalmente os atores que atuaram para a consumação dessa realidade é dever dos entes do estado e da sociedade civil. Incluir nessa responsabilização ações que revisem e adequem os procedimentos significa agir para assegurar a existência de um sistema vivo, ágil e dotado de capacidade de prevenir as tragédias. Parte dos procedimentos do sistema é colocado em prática por humanos que, por sua vez, são eleitos e são contratados para atuarem de forma responsável.