Manaus seg, 26 out
A Crítica
Opinião

Reabertura das igrejas na pandemia

Publicado em 07/05/2020 às 12h21 · Atualizado em 13/03/2022 às 20h21
Reabertura das igrejas na pandemia

Ontem o Brasil viveu seu pior dia desde o início da pandemia de covid-19, com recorde no número de casos da doença, 10.503 novos casos confirmados em 24, e 615 óbitos o mesmo período. O País caminha para ocupar o doloroso posto de novo epicentro mundial da doença. Em Manaus, o dia também foi de recordes negativos, com registro de mais 1.134 casos de covid-19, e 102 óbitos causados pela doença. Os números mostram inegável agravamento da doença e urgência em medidas adicionais para conter seu avanço. Diante desse quadro, é quase incompreensível a atitude dos deputados estaduais do Amazonas, que ontem aprovaram projeto de lei permitindo a reabertura de igrejas e templos religiosos no Estado. 

Em que pesem os argumentos apresentados pelos parlamentares, de que as igrejas e templos devem ser considerados essenciais por oferecer conforto espiritual aos fiéis em tempos de extrema pressão, de que os locais adotarão medidas de distanciamento mínimo entre os frequentadores, que a lotação de cada templo será limitada a 30% e que todos usarão máscaras e de que não serão admitidas pessoas com mais de 60 anos, não resta dúvida que proposta, se sancionada, abre uma enorme oportunidade para propagação do vírus. 

Sabemos que em Manaus, a dificuldade para manter distância segura entre as pessoas é extrema. Sem fiscalização, as aglomerações são praticamente inevitáveis. Como será feito esse controle nas igrejas? Quem vai assegurar que apenas 30% dos assentos sejam ocupados, com distância de uma poltrona para os lados e para frente? Quem vai mandar para casa as pessoas com mais de 60 anos que vão deixar seus lares e se arriscar nas ruas para chegar às igrejas? 

Mais do que nunca, renovar as convicções religiosas é uma arma que pode fortalecer as pessoas e ajudá-las a superar esse período difícil. Mas expor-se a riscos não é demonstração de fé, mas de falta de bom senso e mesmo desdém pela própria segurança. Os parlamentares, certamente, estão ouvindo em suas bases os apelos pela volta dos cultos, celebrações e dízimos, mas o momento é de redobrar os cuidados diante do aumento aterrorizante de óbitos, não de fazer acenos aos eleitores. O mundo todo precisa de orações, mas elas podem ser feitas na segurança do lar, sem riscos para ninguém.