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Opinião

Refugiados: acolher, integrar, pertencer e crescer com o Brasil

Quando a pessoa encontra uma rede de apoio, os processos são mais humanos e efetivos. Essa foi a razão pela qual criei, em 2021, o Centro de Apoio para Mães Migrantes Acompañadas

Publicado em 10/06/2025 às 12h56
Refugiados: acolher, integrar, pertencer e crescer com o Brasil
Foto: Imagem gerada com IA do Google

Quando cheguei em Manaus, em 6 de julho de 2018, pensei que só viria de passagem. O plano era ficar aqui uns dois meses e depois ir para a Argentina, onde queria refazer minha vida com meus filhos. Embora a gente planeje, a vida às vezes dá uma virada e nos leva para destinos inimagináveis.

Nada foi como planejado. Em Manaus, fui roubada e despejada da casa onde morava. Nesse momento, me sentindo tão indefesa, uma família brasileira fez a diferença. Sem me conhecer, me abriu as portas de casa. Foi então que me dei conta que esse lugar, onde só queria passar dois meses, se parecia muito com a minha terra: as pessoas eram acolhedoras e criaram, em torno de mim, uma verdadeira rede de apoio. Sete anos depois posso chamá-las de família.

Minha intenção não é romantizar o refúgio ou a migração; é um processo duro, difícil – econômica, moral e mentalmente. Mas quando a pessoa encontra uma rede de apoio, os processos são mais humanos e efetivos. Essa foi a razão pela qual criei, em 2021, o Centro de Apoio para Mães Migrantes Acompañadas. Como o nome diz, é um centro não para ajudar, mas para apoiar as mulheres em seu processo de adaptação e inclusão na sociedade produtiva brasileira.

Uma pessoa refugiada perde tudo de uma vez, inclusive autoestima e autoconfiança. Inspirado em experiências pessoais e coletivas durante quatro anos de trabalho em Manaus, Acompañadas mudou seu modelo de atendimento de mães solo e se tornou um sistema de integração comunitária, possível com o apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Afinal, quando se trabalha com pessoas refugiadas é preciso ir além da atenção emergencial.

Refugiado, ao contrário do que muitos pensam, não é uma pessoa fraca; é alguém fragilizado, machucado e ferido por circunstâncias ruins. Mas cada um traz uma bagagem de vivências, saberes e experiências que podem e devem ser aproveitadas por todos. Pessoas refugiadas contribuem para o desenvolvimento de suas comunidades de acolhida.

Não basta ser misericordioso. O que realmente se mostra eficaz são modelos de atendimento que visam a integração plena do refugiado ao país, assim como as possibilidades de trazer novas contribuições para a sociedade. Para isso, é fundamental oferecer oportunidades para que aprendam e melhorem a língua portuguesa, além de criar oportunidades de trabalho e crescimento pessoal e profissional. Construir redes de apoio e garantir oportunidades de estudo para seus filhos também são passos essenciais.

Como profissional que chegou a este país e teve que se adaptar e reinventar, estou convencida de que é possível uma vida melhor para os refugiados. No entanto, isso exige um esforço conjunto do Governo Brasileiro, setor privado, organizações sociais, organismos internacionais, mídia e toda a sociedade. Não posso deixar de mencionar asas organizações lideradas por refugiados, como Acompañadas. Nós, que vivemos na pele o drama do deslocamento forçado, conhecemos as fragilidades e as fortalezas dos nossos.

Nunca vou esquecer o dia em que, Aulina, uma das brasileiras que participa do Acompañadas me disse:

“Quando chegaram os primeiros venezuelanos ao Mauazinho, eu pensei que vocês pegariam nossos trabalhos, e olhe só, vocês agora estão trabalhando com a gente e nos ensinando muitas coisas novas.”

E é assim: o refugiado merece oportunidades reais de crescer, brilhar, se integrar e contribuir com o desenvolvimento de sua comunidade, sua cidade e  do Brasil inteiro. Somos todos responsáveis por fazer disso uma realidade.


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Sobre a iniciativa: O Dia Mundial do Refugiado, 20 de junho, é uma data para homenagear a resiliência e a coragem das pessoas que foram forçadas a deixar seu país de origem em razão de conflitos, perseguições ou violações de direitos. A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) acredita no potencial transformador dessas pessoas e que não há melhor forma de marcar a data do que poder saber o que estas pessoas pensam, almejam e sonham. É por isso que convidamos a jornalista venezuelana Lis Carolina, que mora em Manaus, para escrever este artigo para o jornal A Crítica.

Também neste tão importante, o ACNUR lançará em Manaus no dia 17 de junho o Hub Amazonas do Fórum Empresas com Refugiados, composto por empresas e organizações da região que têm tido protagonismo na acolhida e integração de pessoas refugiadas no Brasil. O objetivo é promover um espaço para debater desafios e boas práticas, aprimorar a conexão entre perfis profissionais e vagas de emprego e fortalecer a atuação local em prol da população refugiada.