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A Crítica
Opinião

Sem direito à botija de gás

O monitoramento da ANP expõe um dos aspectos da profundidade da pobreza e da miséria de milhões de brasileiros

Publicado em 03/06/2022 às 08h59
Sem direito à botija de gás
Foto: Reprodução / Yahoo Notícias

A venda de botija de gás de cozinha está em queda de acordo com levantamento feito pela Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP). A redução é de 4,2% na comparação 2021/2020, os dados comprovam o que a opinião pública já informava há muitos meses: parcela da população brasileira está utilizando fogareiro para cozinhar porque não tem condições financeira de comprar o gás.

O monitoramento da ANP expõe um dos aspectos da profundidade da pobreza e da miséria de milhões de brasileiros. Outros, como a redução do banho, para economizar água e energia elétrica, também constatada em outro mapeamento, e a dificuldade em comprar alimentos formam um quadro deplorável para o qual medidas governamentais efetivas não estão sendo tomadas para reverter a situação.

A volta ao fogareiro por imposição não permite romancear. É retrocesso e testemunho da precarização da vida no País e, principalmente, de mais dificuldades para mulheres com jornadas quadriplicadas, idosos e crianças pobres. No Amazonas, vários relatos divulgados pela mídia indicavam a tomada de posição de famílias amazonenses diante do elevado preço da botija de gás, um dos mais altos nacionalmente, em usar outro meio à lenha ou a carvão para cozinhar porque não podiam adquirir o produto para fazer o fogão funcionar e, em alguns casos, nem o carvão puderam mais comprar.

Essa é a fotografia de um Brasil que nos últimos anos se tornou uma das nações mais desiguais do mundo, expandiu a violência e reduziu a presença do Estado deixando que a iniciativa privada adotasse aquilo que considerava positivo para ela. Ao mesmo tempo, instâncias fundamentais da governabilidade foram desestruturadas e hoje são como organismos fantasmas enquanto os segmentos que os acompanhavam e os assistiam estão órfãos, expostos. A institucionalidade brasileira parece apeada e faz silêncio diante desse cenário.

Não ter acesso a botija de gás de cozinha representa uma marca do nível de desenvolvimento de uma cidade, um estado, um país. É sinal de alerta e deveria ser levado a sério, repercutido, refletido, questionado. Não é uma decisão externa o fato de o Brasil, hoje, manter preços impraticáveis para o gás de cozinha, os produtos alimentícios, medicamentos, água, energia elétrica e submeter a população à fome, é sim uma política de governo que fez a opção por esse modelo de administrar os bens públicos, o orçamento e as finanças.