Sem tempo para escolher
Os números de novas infecções, internações e óbitos mostram recuo da pandemia, mas os especialistas ainda não descartam o risco de uma terceira onda, tendo em vista o avanço de certas variantes e o fato de que a vacinação segue ainda muito lentamente no Brasil. O ritmo de imunização é um ponto especialmente preocupante. A experiência internacional – a partir do que se observa em países como Chile, Uruguai, Estados Unidos e Israel – mostra que, para ser efetiva, a vacinação precisa ser rápida. Infelizmente, o ritmo de aplicações no Brasil não está relacionado apenas à oferta de vacinas, mas também à atitude de muitas pessoas que, movidas pela desinformação, preferem escolher que vacina tomar.
A postura equivocada dos “sommeliers de vacina”, além de retardar a imunização, ainda pode resultar no encalhamento de doses, obrigando o poder público a reajustar a logística da vacinação, algo já bastante complexo e que vem exibindo problemas (vacinas fora do prazo de validade, doses congeladas, falta de imunizantes em postos etc). Contribui para o equívoco a ausência de uma forte campanha de esclarecimento por parte do próprio Ministério da Saúde, no sentido de incentivar a imunização com qualquer das vacinas disponíveis, uma vez que já foram largamente testadas e aprovadas pelas autoridades competentes, mostrando resultados satisfatórios em diversos países. Não se trata de vacinas “experimentais” como chegou a ser afirmado por pessoas com intenções obscuras.
Diante da crise sanitária sem precedentes, é um grande feito que tantas vacinas tenham sido desenvolvidas em menos de um ano desde o início da pandemia. São a esperança concreta para a superação da crise, o que já se vislumbra em vários nações. Observemos o exemplo dos Estados Unidos, onde quase 70% da população adulta foi vacinada, e o número de óbitos em decorrência da covid já caiu 97%.
Um fato lamentável que não pode ser ignorado é a influência que a polarização política exerce sobre a vacinação. Algo tão sério como a saúde pública deveria ser um ponto de convergência entre os diversos direcionamentos ideológicos. Infelizmente, não é o que ocorre. A vacinação segue lenta, com pessoas acreditando que temos o luxo de escolher vacinas. Não temos, e o preço dessa demora pode ser o prolongamento da crise sanitária.