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A Crítica
Opinião

Ser amazonense é (e sempre foi) habitar a terra

A atual edição do Big Brother Brasil fez emergir debate sobre temas ligados não só a uma região: a identidade e o pertencimento

Publicado em 03/02/2024 às 18h05
Ser amazonense é (e sempre foi) habitar a terra
Foto: Junio Matos

O que significa ser amazonense? Quais os valores que nos unem ou dividem? O que nos permite ver, compreender, amar a região da qual somos herdeiros e, portanto, responsáveis por transmitir, aos que ainda não conhecem, sua importância e seu papel não apenas como memória, mas como maneira de preservar o planeta?

Passadas as ambições “antropológicas” das primeiras edições e as reivindicações relacionadas a conduzir uma experiência “fascinante”, o Big Brother, hoje, faz sua a retórica focada não no desaparecimento da privacidade como pode parecer, mas na dimensão pública que se dissemina rapidamente numa casa onde se vive o tempo todo entre “amigos”, sendo obrigados a falar apenas de si mesmos, numa “confiança coletiva” ininterrupta e redundante.

Afinal, somos como atores que se movem continuamente do palco para os bastidores, entre o público e o privado. O palco e os bastidores têm cada um seu próprio enredo: mesmo o espaço privado, mesmo na intimidade, tem regras e estruturas de significado (aparentemente) espontâneo, compostas por regras criadas para expor sentimentos. Porque isso é justamente o que a produção deseja para o “grande espetáculo”: a expressão de sentimentos e emoções.

Quando a tensão diminui, inicia-se um filme em que as emoções são incessantemente evocadas, mas nunca nomeadas. Ternura, melancolia, inquietação, alegria, fascínio, cumplicidade, ressentimento: o variado léxico de sentimentos não pertence aos concorrentes que falam do que sentem sempre de forma indistinta, indiferenciada, caótica. Mas como qualquer linguagem, a dos sentimentos também possui uma gramática própria.

A atual edição de 2024 fez emergir um tema ligado não só a uma região. A discussão sobre identidade e pertencimento, pauta frequente na Europa contemporânea em função das recentes migrações vindas dos países colonizados, aqui aparece protagonizada por três personagens do Norte do país, trazendo à tona o equacionamento de  tradicionais rivalidades entre os estados do Amazonas e do Pará, e entre as  torcidas de dois bois da cidade de Parintins – o Garantido vermelho e o Caprichoso azul.

Hoje, uma boa concepção de história, permite pensar a existência de várias histórias, nem todas com a mesma temporalidade. Há pessoas que estão no Amazonas há muito tempo, ancoradas numa cidade pequena ou numa comunidade ribeirinha. Há outras que chegaram recentemente e, da mesma forma, contribuem para a história do estado. Há outros ainda que, como eu, acabaram construindo, por buscas pessoais, uma trajetória de constantes deslocamentos.

Então aceitar histórias plurais é fundamental para criar um projeto coletivo que possa, de fato, pensar em diversas possibilidades de pertencimento. Ao embarcar neste caminho que, hipoteticamente, intervém na determinação das atitudes psicológicas e na constituição da mentalidade dos que viveram e vivem essa experiência, o problema imediato é relacionado à ambiguidade semântica do termo “história local”. O termo pode ser utilizado tanto para se referir à história de determinado lugar (portanto, a uma especificação da história, em seus processos e eventos), como para se referir a um “local da história”. Os dois significados não estão necessariamente em conflito, como a antinomia usada em demasia “história local”, não localista, parece sugerir. 

Psicólogos sociais, antropólogos, semiólogos e linguistas descreveram de várias maneiras a aptidão, especificamente humana, para organizar a experiência em forma narrativa e, assim, construir significados partilhados. Reconhecemos a predisposição irredutível do ser humano para contar histórias, gerada pela necessidade de dar forma e sentido à realidade e às suas ações, de comunicar os significados capturados na sua experiência, relacionando passado, presente e futuro, e transformando o acontecido em uma história.

Nessa dimensão hermenêutica de experiência interpretativa, a narração de cada trajetória não está tão distante daquela da arquitetura, se a entendermos como a atividade que o indivíduo realizava ao construir seu próprio abrigo: a de subtrair a indeterminação do espaço aos próprios lugares, impondo a medida das necessidades materiais do corpo e das formas que refletem um significado atribuído a este “estar no mundo”, ao gesto de habitar a terra.  

Talvez essa seja a melhor definição de ser do Amazonas: Ser amazonense é (e sempre foi) habitar a terra.

Adalberto da Silva Retto Jr é amazonense, nascido em Tefé e atua como professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e pelo Departamento de História da Arquitetura e Urbanismo do Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza (2003). Tem pós doutorado no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza e foi professor-pesquisador visitante na Universitè Panthéon Sorbonne Paris I (2011-2013).