Manaus sáb, 17 out
A Crítica
Opinião

UEA, nossa Universidade

Por Lourenço Braga / "Naquele final de manhã de sábado, início de tarde tipicamente amazônica, temperatura próxima de 35 graus, nascia a Universidade do Estado"

Publicado em 03/07/2020 às 21h17 · Atualizado em 24/03/2022 às 23h05
UEA, nossa Universidade

Vou usar este espaço para, afinal, atender a pedidos que me vinham sendo formulados há algum tempo, com insistência, e vou contar o que sei sobre como nasceu e como caminhou seus primeiros passos a nossa Universidade do Estado do Amazonas. Neste momento inicial pretendo reviver, com os leitores, o que precedeu a criação do que tenho como a maior conquista da juventude do Amazonas no início deste século e deste milênio: a universidade dos povos da floresta.

Desde seu primeiro governo, que se iniciou em 1987, Amazonino Armando Mendes já demonstrara interesse em criar no Estado estrutura que se dedicasse a estudos do âmbito universitário, voltada principalmente para o conhecimento da região amazônica. Fora líder estudantil, com destaque para a política universitária, o que, certamente, o motivava a envolver a administração nesse nível da educação, a exemplo do que já acontecia com grande parte de iguais entes da federação – todos os das regiões sul e sudeste, muitos do nordeste, o Pará, na região norte. Eram, por certo, os primeiros sinais de como o governador já se animava a enveredar por caminho que permitisse ao Estado proporcionar formação acadêmica a quantos aqui residem.

Criou, então, o Instituto Superior de Estudos da Amazônia, para ser, quem sabe, o embrião de uma futura universidade, destinado a realizar estudos e pesquisas com relevo para assuntos desta parte do Brasil. O ISEA integrava como fundação a administração indireta e devia congregar representantes dos governos de estados da região – Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima e Pará – com a presidência da instituição a ser exercida periódica e ciclicamente pelo governador de cada unidade federativa, ou por representante especialmente designado. Sua sede própria – para o que o governador destinou prédio da rua da Instalação, em Manaus, próximo à Sete  de Setembro, hoje servindo à Secretaria de Cultura –  chegou a abrigar reuniões e ciclos de palestras, por não mais de dois anos, e o ISEA teve a dirigi-lo, como executivo, Luís Maximino de Miranda Correa, que também já servira como presidente da empresa de Turismo do Estado, a EMAMTUR.

Provavelmente pelo envolvimento de outras unidades da federação, o ISEA foi progressivamente esvaziando-se no desenvolvimento e no cumprimento de sua missão e acabou desaparecendo sem deixar, em verdade, contribuições de monta para a Ciência ou para a Administração.

Em seu segundo governo, que se iniciou em 1995, Amazonino voltou a demonstrar  desejo de envolver o Estado na atividade universitária e com tal intento, seguro de que a experiência anterior não alcançara os objetivos colimados, constituiu grupo de trabalho que, com a participação de professores da Universidade do Amazonas, hoje UFAM, dentre os quais Randolpho de Souza Bittencourt e José Seráfico de Assis Carvalho, chegou a produzir anteprojeto de lei autorizando a criação do que deveria chamar-se Universidade do Trópico Úmido. A ideia era que a instituição pudesse destinar-se à formação de profissionais voltados especialmente para questões regionais, como, por exemplo, as doenças tropicais, em cujo âmbito já se desenvolvia intenso trabalho de investigação científica liderado pelos médicos Heitor Vieira Dourado e Carlos Augusto Teles de Borborema, além de engenharia de pesca, de engenharia naval, de manejo florestal, entre outras.  A proposta não chegou a ser encaminhada à apreciação do Poder Legislativo e não foi adiante, por razões que desconheço.

Em Cuba, aonde fora em companhia de Vicente Nogueira, Secretário de Educação e Qualidade do Ensino, Francisco Deodato, Secretário de Saúde, e Wilson Alecrim, Presidente da Fundação de Medicina Tropical, o governador se empolgou com uma experiência de formação do que os cubanos denominavam de médicos-de-pés-no-chão, programa de graduação que recebia estudantes pobres de diferentes lugares do mundo, inclusive do Brasil, a quem o governo concedia moradia e alimentação. É daí que se origina o programa das Casas de Saúde, da Prefeitura Municipal de Manaus. Ainda em Havana teria começado o Chefe do Executivo amazonense a cogitar de criar curso igual na área da saúde, além de outro específico que atendesse à sempre necessária formação de professores.

A experiência universitária amazonense é, de fato, das mais antigas no Brasil, sendo a nossa Faculdade de Direito, criada em 1907, havida por muitos como a primeira do país, quando aqui existiu a Universidade Livre de Manaus. Isto, entretanto, terminou ficando no âmbito federal, ainda que a faculdade tivesse sido estadualizada nos anos de 1940, mas, junto com a Faculdade de Filosofia,  a de Economia e a de Serviço Social, passou a constituir a Universidade do Amazonas, hoje Universidade Federal do Amazonas, criada em 1965, por aprovação pelo Congresso Nacional de projeto de lei de autoria do Senador Arthur Virgílio Filho e que logo se expandiu para oferecer cursos de graduação nas áreas de Letras, Educação, Engenharia, Contabilidade e Administração, entre outras. É grande formadora de lideranças de todos os níveis e de todas as áreas de conhecimento de nosso Estado. Junto a ela, e bem mais jovem, a Universidade de Tecnologia da Amazônia, nossa UTAM.

Nas duas últimas décadas dos anos de 1900 Manaus presenciou a criação de faculdades e universidades particulares que se somavam à nossa Federal e à UTAM, específica da área de tecnologia, únicas instituições públicas desse nível, então. Já próximo ao final de 2000  Amazonino incumbiu a mim, Secretário de Administração e Presidente da Comissão Estadual de Licitação,  e a outros dois secretários – o Particular, doutor Ruy Cantanhede, e o de Educação, professor Vicente Nogueira – de representar o Estado em tratativas com diretores das instituições particulares para comprar vagas que se destinariam a servidores estaduais e a seus dependentes, prática já comum em relação a alunos de 1º e de 2º grau. Foram muitas as reuniões que realizamos com representantes do Centro Universitário Nilton Lins, da Universidade Luterana, das Faculdades Objetivo, das Faculdades Martha Falcão, e o governo pretendia obter redução no valor das mensalidades mediante a garantia de pontualidade de pagamento, em contraponto à tradicional alta taxa de inadimplência comum nessas instituições. Faziam-se avanços e recuos nas negociações e o governador chegou a presidir um dos encontros, tal sua vontade de contribuir para formação de mão-de-obra em nível universitário no Estado.

Nesse tempo também, por consequência da visita a Havana,  técnicos da Secretaria de Educação  iniciaram estudo de custos com a criação de curso de formação de professores, ou de pedagogia, e outros da Secretaria de Saúde começaram a trabalhar ideias que pudessem aproximar-se da experiência cubana que  empolgara o governador, em projetos que se reportavam a medicina, odontologia, farmácia e enfermagem.

Em uma manhã de sábado de dezembro do ano 2000, estavam comigo na residência do governador: Robério Braga, Secretário de Cultura, Turismo e Desporto, José Alves Pacífico, Secretário de Governo, Vicente Nogueira, de Educação e Qualidade do Ensino, Francisco Deodato, da Saúde, Ruy Cantanhede, Secretário Particular, Tenente Gutemberg Leão Alencar, Chefe da Segurança, e José Melo de Oliveira, Secretário do Interior. Amazonino quis inteirar-se do resultado da última reunião com as faculdades particulares, quando lhe demonstrei o efeito financeiro da compra de vagas, diante do que lhe ponderamos que talvez com tais recursos fosse melhor criar a nossa Universidade. Vicente Nogueira mostrou ao Chefe do Executivo, com números lançados em programa de computador portátil, os custos com professores  do 2º grau, que se poderiam aproximar do que representaria um possível Curso Normal Superior. Robério Braga, por sua vez, contribuiu com a empolgação de instituir curso que formasse profissionais de artes para sustentar o Festival de Ópera, criado no governo de Amazonino e já considerado importante no calendário artístico brasileiro anual, com expressão além-fronteiras.  Deodato lembrou o entusiasmo de Amazonino com a experiência cubana na área de saúde e sugeriu o curso de Medicina e eu ponderei que, se assim fosse, além de curso de Administração Pública, inexistente até ali, constituiria dever nosso, por origem de formação, igual à do governador, instituir curso de Direito, em que tive a companhia de José Pacífico e do próprio Robério, principalmente porque, naquele tempo, eram reduzidas as ofertas nessa área de conhecimento, restritas à Universidade Federal e ao Centro Universitário Nilton Lins. Ruy Cantanhede, engenheiro, sugeriu a incorporação da UTAM, que oferecia cursos em sua área de conhecimento.

A tudo o governador ouvia com atenção e foi tal o entusiasmo com que todos falamos do assunto que, naquele final de manhã de sábado, início de tarde tipicamente amazônica, temperatura próxima de 35 graus, nascia a Universidade do Estado, deixando felizes os que ouviram a decisão do governador que incumbiu a mim e ao Pacífico de, na segunda-feira, a ele apresentarmos minutas dos atos necessários à criação da Instituição.