UEA, o primeiro vestibular
Por Lourenço Braga / Esperávamos que se inscrevessem 30 mil candidatos. Fomos surpreendidos e, ao final, mais de 180 mil candidatos disputaram as vagas ofertadas/ lourencodossantospereirabraga@hotmail.com
Como indiquei em artigo anterior, a Comissão de Implantação da Universidade do Estado, composta pelos secretários de Cultura, Educação, Saúde e Administração, tinha como incumbências principais cuidar do ato de criação da Instituição, em apoio ao trabalho do secretário de Governo, e elaborar proposta de regulamento para realização do primeiro concurso vestibular, tudo que se desenvolveu durante o mês de janeiro de 2001, enquanto a Assembleia discutia o projeto que acabou por se transformar em lei a 12 daquele mês, autorizando o Chefe do Executivo a instituir a Universidade e, depois, até o primeiro dia de fevereiro, quando se deu a assinatura do decreto de criação da nossa UEA.
No dia seguinte, 02 de fevereiro, portanto, o governador assinou, além do ato de nomeação do primeiro reitor, decreto que aprovou as instruções para o primeiro vestibular. Estavam alí duas grandes novidades, provavelmente jamais superadas: (i) regras para selecionar candidatos em concurso de ingresso de discentes aprovadas por ato próprio do governador do Estado e (ii) o fato de serem tais normas fixadas no dia que se seguiu à criação da Universidade. Firmaram esse decreto, com o governador, os secretários que compunham a Comissão de Implantação e o secretário de Governo.
Ao cuidar da distribuição das vagas ofertadas, o edital do primeiro vestibular indicou que seriam postas em disputa 1.130 oportunidades para cursos ministrados na Capital e 800 outras para cursos que funcionariam em Parintins e em Tefé. Mas a interiorização da novel instituição ia além: 50% das vagas dos cursos de enfermagem, medicina e odontologia foram destinadas privativamente a alunos dos 61 municípios hinterlandinos, o que equivale a dizer que o interior do Amazonas, já no momento inicial da UEA, era contemplado com 800 vagas na área de educação e 160 na área de saúde, totalizando 960 oportunidades em proporção às 970 oferecidas a alunos de Manaus e de outros lugares do Brasil.
O quadro de cursos e vagas ficou assim posto no edital: 120 para Medicina; 100 para Odontologia e 100 para Enfermagem, na área da saúde; 90 para Administração Púbica e 90 para Direito, na área de ciências sociais; 90 para Turismo, 60 para Dança e 210 para Música, na área de artes e turismo; 270 em Normal Superior, na área de educação, em Manaus. Para funcionamento no Interior, foram 80 vagas em Normal Superior e 320 em Licenciaturas Plenas em Parintins, com oferta igual em Tefé
Os cursos de ciências da saúde funcionam em regime de tempo integral, enquanto os demais foram ofertados divididos em turmas diurnas e noturnas, tanto na capital quanto no interior, com vagas em quantidades iguais. Em dança, 42 vagas destinaram-se ao bacharelado, 21 em cada turno, e 18 foram igualmente divididas para licenciatura. Bacharelado e licenciatura em música também tiveram as 210 vagas repartidas entre o turno da tarde e o da noite, compreendendo as especialidades de canto, clarineta, contrabaixo, fagote, flauta universal, oboé, percussão, piano, trompa, trombone, trompete, tuba, viola, violão, violino e violoncelo.
Na área de educação, a divisão de vagas em quantidades iguais deu-se entre os turnos matutino, vespertino e noturno, na capital, com o curso normal superior, que depois viria a ser transformado em curso de pedagogia. Em Parintins e em Tefé, dividiram-se as vagas entre o turno da manhã e o da noite, com normal superior e licenciaturas em física, matemática, química, biologia, história, geografia e letras.
Para efeito de divisão das vagas de ciências da saúde destinadas ao Interior, foram considerados polos de localização geográfica, o que resultou na seguinte distribuição:
# no polo 1, englobando os municípios de Autazes, Barcelos, Borba, Careiro Castanho, Careiro da Várzea, Iranduba, Nova Olinda do Norte, Presidente Figueiredo, Rio Preto da Eva, Santa Izabel, São Gabriel da Cachoeira, 23 vagas, sendo 9 para medicina, 7 para odontologia e 7 para enfermagem;
# no polo 2, englobando Lábrea, Boca do Acre, Canutama, Pauini, Tapauá., 09 vagas no total, com 3 para cada um dos cursos;
# o polo 3 compreendeu Eirunepé, Carauari, Envira, Guajará, Ipixuna e Itamarati e teve a mesma quantidade de vagas que o anterior, com divisão igual;
# no polo 4 estavam os municípios de Humaitá, Apuí, Manicoré e Novo Aripuanã e a ele foram destinadas 11 vagas, sendo 5 para medicina e 3 para cada um dos outros dois cursos;
# para o polo 5, que incluiu Itacoatiara, Itapiranga, São Sebastião do Uatumã, Silves, Urucará e Urucurituba, 27 vagas, sendo 11, para medicina, 8 para odontologia e 8 para enfermagem;
# no polo 6 estavam os municípios de Parintins, Barreirinha, Nhamundá, Maués e Boa Vista do Ramos e a ele foram reservadas 31 vagas, sendo 11 para medicina e 10 para cada um dos outros dois cursos;
# Manacapuru, Anamã, Beruri, Caapiranga, Manaquiri e Novo Airão compunham o polo 7 e a eles foram destinadas 15 vagas, 5 para cada curso;
# Coari, Codajás, Anori formaram o polo 8 e tiveram 11 vagas, sendo 5 de medicina, 3 de odontologia e 3 de enfermagem;
# o polo 9 constituiu-se dos municípios de Tefé, Alvarães, Japurá, Juruá, Maraã, Uarini, Jutaí e Fonte Boa e a ele destinaram-se 15 vagas, com 5 para cada curso;
# no polo 10 estavam Tabatinga, Atalaia do Norte, Benjamin Constant, Amaturá, Santo Antônio do Içá, São Paulo de Olivença e Tonantins, com 3 vagas para medicina, 3 para odontologia e 3 para enfermagem.
Considerando a divisão de vagas dos cursos de saúde, ficou estabelecido que enfermagem, medicina e odontologia comportariam duas turmas de alunos em cada curso: uma cujas aulas se iniciariam em 2001 e outra, com os alunos vindos do Interior, no segundo semestre letivo, sendo que a esses o Governo garantiu moradia, criando a Casa do Estudante em prédio de 5 andares situado na rua Quintino Bocaiuva, no centro de Manaus, além de vale transporte e auxílio alimentação, Casas que também criou em Parintins, uma para alunos, outra para alunas de outros municípios que para ali se transferiram por força de aprovação no vestibular.
Os candidatos aos cursos de dança e de música submeteram-se a provas específicas de aptidão, além do teste de múltipla escolha comum a todos os cursos, esta que versou sobre programas das três séries do ensino médio, com 6 questões de Língua Estrangeira e 8 questões de cada uma das seguintes disciplinas: Língua Portuguesa, Literatura Brasileira, História, Geografia, Física, Matemática, Química e Biologia. A demonstração de aptidão para a arte, com dança ou com música, constituiu prova eliminatória do concurso e foi realizada no Ideal Clube, situado na Avenida Eduardo Ribeiro, na esquina da rua Monsenhor Coutinho.
Para coordenar as tarefas todas de preparação, confecção, distribuição e recolhimento de material de inscrição para o Vestibular consegui a assessoria de Antônio Dias Couto, que fora meu Subsecretário na SEAD, em gestão anterior, que viria a ser Pró- Reitor de Administração e Planejamento e que se juntou a Raimundo Wanderley Lasmar, fiel escudeiro de todas as batalhas. Com eles, porque a Universidade não tivesse nenhum servidor além do próprio reitor, um grupo de jovens assessores da Secretaria de Administração e da Comissão de Licitação envolvia-se no processo de seleção, com inestimável contribuição e trabalhos que ultrapassavam em muito a jornada de oito horas, prolongando-se pela madrugada e reiniciando logo no começo da manhã. Estavam ali Edna Matheus, chefe de gabinete, Juliana Batista Braga, atualmente Oficial de Justiça do Tribunal Regional do Trabalho, Irineide Araújo, Isabela Péres Russo, hoje Procuradora do Estado, Paula Abreu, Geórgia Jucá, Wanessa Pacheco, Juliana Abreu, Rodrigo Mota, Fernando Carvalho Júnior, Agassis Rubim da Silva Reis Junior, Rodrigo Cabral Marques, Ezemar, conjunto de idealistas ao qual se juntaram Lincoln Campos, Ieda Souza e Rosa Pontes, diretores do ISAE, além de Zeina Raman Neves, com extraordinária experiência no setor e que depois viria a coordenar cinco concursos vestibulares que se seguiram, aí já em conjunto com a Fundação Getúlio Vargas.
Foi assim que uma semana depois de instituída e de aprovadas as instruções que regularam o primeiro concurso, por atos do governador, a Universidade começou a receber inscrições de candidatos no dia 8 de fevereiro de 2001, para os cursos que seriam ministrados em Manaus, com prazo que se encerraria a 16 do mesmo mês, devendo os formulários ser buscados e entregues em 23 agências dos Correios espalhadas pela Cidade.No Interior, as inscrições ocorreram no período de 1 a 6 de março.
Grande o interesse despertado pela nova Universidade em diferentes camadas da sociedade amazonense, inclusive de índios de diferente etnias, já então constituindo maioria na composição do Conselho Estadual de Educação Indígena, estes que encaminharam pedido de ingresso livre em vagas que lhes fossem reservadas, como amplamente divulgado pela imprensa escrita, matéria que, aliás, permaneceu na agenda até que em 2004 se incluiu em lei a reserva de vagas para serem disputadas exclusivamente por índios, ou por seus descendentes, e a Universidade realizou, em comunidade situada no município de Benjamin Constant, no alto Solimões, o primeiro curso de formação de professores bilíngue do Brasil, que chegou a ser objeto de matéria na mídia de rádio e televisão brasileira.
Esperávamos que se inscrevessem em torno de 30.000 candidatos em Manaus, este que era aproximadamente o número comum em concursos iguais de nossa Universidade Federal. Preparamo-nos para essa demanda, com impressão, na própria SEAD, dos Manuais e das Fichas de Inscrição e fomos surpreendidos com procura que ultrapassou essa quantidade já no primeiro dia do processo seletivo. Ao final, mais de 180.000 candidatos disputaram as vagas ofertadas, nesse que foi, até ali, o mais expressivo concurso dessa espécie no Brasil, merecendo registro o fato de não se haver cobrado taxa de inscrição, sendo os custos suportados integralmente pelo Erário.