Um tesouro de Manaus em perigo
As cidades têm personalidades próprias que são construídas ao longo de suas trajetórias, com a evolução de sua arquitetura e vidas de seus habitantes. Os prédios históricos são testemunhas do caminho percorrido, constituindo o legado específico de cada cidade, o registro de suas histórias contadas por meio de suas construções. O legado arquitetônico de Manaus é dos mais ricos e valiosos, mas também é a demonstração concreta do descaso com o patrimônio histórico. Um triste exemplo a Igreja de são Sebastião, localizada na rua 10 de Julho, no Centro Histórico de Manaus, uma edificação de 132 anos, cuja trajetória se entrelaça com as de outros símbolos de Manaus, com momentos e personagens que se confundem com a própria cidade.
Construída no século XVIII, passou por várias reformas. Parte das obras do edifício, ainda no início do século XX, por exemplo, foram contratadas por Leonardo Antônio Malcher, e aproveitaram materiais da Igreja de Nossa Senhora da Conceição e até do Teatro Amazonas. É um conjunto harmônico de conceitos, com elementos medievalistas, neoclássicos e góticos, um tesouro de valor inestimável para a cidade.
Por tudo isso, é inaceitável o estado atual em que se encontra, com sinos emudecidos por causa de rachaduras resultantes de intervenções fracassadas, vitrais danificados e uma série de problemas estruturais que se agravaram ao longo de muitas décadas sem manutenção adequada. Diante da omissão do poder público, cabe à sociedade abraçar a igreja e arcar com as obras de restauração, o que não será nada fácil, já que envolve técnicas e materiais que nem existem mais. Será necessário contratar especialistas de outros Estados e talvez de outros países. Uma empreitada que não custará menos de R$ 1,2 milhão, segundo estimativas otimistas.
Mas essa tem sido a sina dos edifícios históricos de Manaus. abandonados pelo poder público, Dependem totalmente dos esforços da sociedade civil organizada para se manter de pé. Não podemos permitir que a igreja de São Sebastião chegue ao nível de abandono que se vê na Santa Casa de Misericórdia, um dos exemplos mais tristes da falta de compromisso com o patrimônio histórico da cidade. Por outro lado, a recuperação da igreja é uma oportunidade para o povo de Manaus demonstrar seu carinho por este que também é um símbolo da cidade. Foi assim no início do século XX, quando campanhas de arrecadação e loterias populares levantaram os recursos necessários para importantes obras no edifício. O mesmo se dará na atualidade. O sino da Igreja de são Sebastião voltará a soar e o prédio há de recuperar todo o brilho desgastado pelo tempo e pelo descaso.