Uma chance à sociobioeconomia
Um novo modelo busca integrar recursos naturais regionais, beneficiados por meio de uma cadeia produtiva que valoriza os conhecimentos da população local e não agride o meio ambiente
Uma iniciativa do governo federal publicada ontem no Diário Oficial da União pode beneficiar o Amazonas. Trata-se da criação de um grupo de trabalho no âmbito do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima para estudar e propor medidas que possibilitem a aplicação do modelo de desenvolvimento sustentável conhecido como sociobioeconomia. Esse modelo busca integrar recursos naturais regionais, beneficiados por meio de uma cadeia produtiva que valoriza os conhecimentos da população local e não agride o meio ambiente. Essa dinâmica de produção tem causado amplos debates exatamente porque é uma alternativa de baixo carbono, no momento que o mundo se vê às voltas com o avanço das mudanças climáticas.
A sociobioeconomia, que o governo federal parece ter descoberto agora, já vem sendo debatida no Amazonas há alguns anos e algumas iniciativas locais apresentam enorme potencial se tiverem o apoio necessário. É o caso do manejo de pirarucu na Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá. Este é, de fato, um caso exemplar, uma vez que a técnica desenvolvida é uma combinação de conhecimentos tradicionais com ciência aplicada. O mesmo pode acontecer com a extração e beneficiamento de óleos e essências naturais, além de uma infinidade de outros produtos, com envolvimento direto de comunidades amazônicas.
Cabe ressaltar que os objetivos da sociobioeconomia também encontram similaridades no que é feito no Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA), que recentemente obteve personalidade jurídica própria para cumprir sua função institucional: desenvolver produtos de alto potencial econômico a partir da biodiversidade regional.
Alguns riscos emergem em face da iniciativa do governo federal: o primeiro deles é que o grupo recém-criado, nos 90 dias estabelecidos para apresentar relatório com propostas e recomendações, não consiga elaborar um trabalho consistente capaz de ser a base para a implementação de projetos de sociobioeconomia com apoio federal; o segundo é que, mesmo que se apresente um relatório promissor, ele acabe trancado em alguma gaveta de Brasília.
Cabe às autoridades amazonenses, diante da oportunidade, contribuir com o trabalho do grupo para que a iniciativa ganhe força e se transforme em benefícios concretos para a Amazônia.