Manaus seg, 19 out
A Crítica
Opinião

Uma quase poesia

Por Lourenco Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas

Publicado em 09/10/2020 às 22h16 · Atualizado em 24/03/2022 às 23h02
Uma quase poesia

Guardo novamente a prosa, falando de atualidades ou resgatando a histórica criação de nossa Universidade do Estado do Amazonas, como tenho feito, para trazer hoje aos leitores uma quase-poesia que escrevi observando um idoso em uma das praças de Manaus, entregue à própria solidão, talvez esquecido pelos que possa ter criado, como certamente há muitos entristecidos pelo abandono mas fiéis a quanto da vida lhes possa restar.

O semblante abatido do rosto castigado pelo tempo fez-me imaginar uma relação de intimidade entre o taciturno homem e o banco da praça, confidente de pensamentos que por certo se repetiam em todas as tardes, o sol quase em despedida, em contraste com a alegria de crianças que ali costumam brincar.

O VELHO

Numa esquina da vida,

em banco tosco da praça

que tantos encontros já viu,

o velho se dá a lembranças

do tempo ido,

apenas o que lhe resta,

quanto a memória permite.

É filme a se desenrolar

em espetáculo

que só seus olhos cansados

conseguem ver.

Infância distante

em bairro pobre,

bola de meia como brinquedo,

pais, livros, escola,

colegas, amigos

que nem mais há.

O primeiro amor faz sorriso

no rosto sempre grave

de tristeza

que não consegue esconder.

Há frutos de um amor intenso

que a vida também já partiu,

mas os sonhos que ensinou

fazem cada um ocupado

em construir seu tempo

e deixam o velho

cada vez mais só.

É retrato da nostalgia,

amiga inseparável da solidão,

o banco da praça é seu confidente

de segredos contados com o pensamento.

O pôr-do-sol nem encanta,

tantas vezes já o viu chorar

e a chegada da noite

apenas traz o dever de recolher-se

a seu mundo,

seu ontem eterno.

Será só mais uma noite

que antecede dia igual

de conta a que nem mais se dá.

Lágrimas?

só as que brotam fartas

no coração preguiçoso.

Talvez uma festa,

de calendário ou família,

promova reencontro e sorrisos,

mas também passará…

Neste hoje veio ao banco

a alegria de uma criança

que há pouco brincava na praça,

que se pôs a ler um livro

falando de sonhos,

de fada que em magia

trazia esperanças.

Impossível não ouvir!

Olhos cansados brilharam

mais que os da menina,

ela sim, fada sem saber,

e seu sorriso franco e profundo

fez corar o velho rosto

no beijo verdadeiro que lhe deu.

Como há muito não se via,

o retorno para casa

foi de alegria

e de vontade esquecida

de viver a nova aurora.