Uma quase poesia
Por Lourenco Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas
Guardo novamente a prosa, falando de atualidades ou resgatando a histórica criação de nossa Universidade do Estado do Amazonas, como tenho feito, para trazer hoje aos leitores uma quase-poesia que escrevi observando um idoso em uma das praças de Manaus, entregue à própria solidão, talvez esquecido pelos que possa ter criado, como certamente há muitos entristecidos pelo abandono mas fiéis a quanto da vida lhes possa restar.
O semblante abatido do rosto castigado pelo tempo fez-me imaginar uma relação de intimidade entre o taciturno homem e o banco da praça, confidente de pensamentos que por certo se repetiam em todas as tardes, o sol quase em despedida, em contraste com a alegria de crianças que ali costumam brincar.
O VELHO
Numa esquina da vida,
em banco tosco da praça
que tantos encontros já viu,
o velho se dá a lembranças
do tempo ido,
apenas o que lhe resta,
quanto a memória permite.
É filme a se desenrolar
em espetáculo
que só seus olhos cansados
conseguem ver.
Infância distante
em bairro pobre,
bola de meia como brinquedo,
pais, livros, escola,
colegas, amigos
que nem mais há.
O primeiro amor faz sorriso
no rosto sempre grave
de tristeza
que não consegue esconder.
Há frutos de um amor intenso
que a vida também já partiu,
mas os sonhos que ensinou
fazem cada um ocupado
em construir seu tempo
e deixam o velho
cada vez mais só.
É retrato da nostalgia,
amiga inseparável da solidão,
o banco da praça é seu confidente
de segredos contados com o pensamento.
O pôr-do-sol nem encanta,
tantas vezes já o viu chorar
e a chegada da noite
apenas traz o dever de recolher-se
a seu mundo,
seu ontem eterno.
Será só mais uma noite
que antecede dia igual
de conta a que nem mais se dá.
Lágrimas?
só as que brotam fartas
no coração preguiçoso.
Talvez uma festa,
de calendário ou família,
promova reencontro e sorrisos,
mas também passará…
Neste hoje veio ao banco
a alegria de uma criança
que há pouco brincava na praça,
que se pôs a ler um livro
falando de sonhos,
de fada que em magia
trazia esperanças.
Impossível não ouvir!
Olhos cansados brilharam
mais que os da menina,
ela sim, fada sem saber,
e seu sorriso franco e profundo
fez corar o velho rosto
no beijo verdadeiro que lhe deu.
Como há muito não se via,
o retorno para casa
foi de alegria
e de vontade esquecida
de viver a nova aurora.