Arte transforma comunidade ribeirinha em galeria a céu aberto em Parintins
Moradores da Boca da Valéria pintam fachadas com animais da floresta e celebram a valorização local
Em Parintins, um projeto de quatro artistas amazônidas está transformando as fachadas das casas ribeirinhas em murais artísticos na comunidade Boca da Valéria (a 37 quilômetros da sede do município). As pinturas são feitas para atrair um olhar mais turístico para a região e conscientizar sobre animais ameaçados de extinção, como peixe-boi, tamanduá-bandeira e algumas espécies de pássaros.

Foto: Daniel Brandão ()
O artista Sandel Xavier, 22, contou que a iniciativa foi tomada por seu colega parintinense Freyzer Andrade.
“É uma parceria do Instituto Serra da Valéria, do nosso amigo Freyzer Andrade, que tem como principal objetivo envolver a comunidade na arte”, disse.

Sandel Xavier, 22, explica que cada moradia agora tem sua identidade visual única, baseada em animais amazônicos. Foto: Daniel Brandão ()
Ele explicou que a escolha dos animais é feita pelos moradores e por eles, que estão abordando uma campanha contra a extinção de animais da região.
“Nós estamos ajudando os moradores a pintarem suas casas, e eles estão muito envolvidos no processo. Também estamos trazendo uma mensagem sobre os animais ameaçados de extinção. Aqui na Serra da Valéria é um lugar turístico, e as pessoas da região já são muito consciente dessa questão de não matar os animais e preservar.”

O artista Sandel Xavier em ação durante a pintura de uma nova fachada na comunidade ribeirinha. Foto: Daniel Brandão ()
Sandel destacou que a iniciativa está atraindo mais artistas e parcerias para o local. No dia 29 deste mês, a comunidade receberá artistas de diversos lugares pra contribuírem nas pinturas.
Um dos pintores que está trabalhando no projeto, Hiago Xavier, 19, contou que a arte tem feito os moradores sentirem orgulho de suas casas e do local onde vivem.
“É um trabalho muito diferente do que costumamos fazer na cidade. É muito importante porque não estamos apenas pintando, estamos dando vida, e é muito bacana quando a gente termina de pintar e vê os moradores tendo uma autoestima em relação à casa deles”, destacou o jovem.

“A gente não está só pintando, está dando vida”, diz Hiago Xavier sobre o impacto do projeto na autoestima dos moradores. Foto: Daniel Brandão ()
Hiago ressaltou que o projeto está além da transformação estética da comunidade, mas na criação de laços e pertencimento.
“Eu tô criando uma conexão com essas pessoas, e eles, uns com os outros. Se ajudam. Eu fico super feliz com o reconhecimento, quando eles nos agradecem e quando as pessoas começam a querer vim ver nosso trabalho”, afirmou.

Hiago Xavier trabalha nos detalhes das escamas de um pirarucu, reforçando a conexão da arte com a fauna regional. Foto: Daniel Brandão ()
O tempo de pintura dos animais regionais na parede das palafitas dura, em média, de 3 a 7 dias, dependendo da complexidade do animal escolhido.

Foto: Daniel Brandão ()
O estudante Reninaldo Siqueira, 18, elogiou o trabalho dos artistas e disse que sua casa está cada vez mais bonita.
“Eles estão melhorando o ambiente aqui e tem ficado muito bom. Acho que antes não chamava tanta atenção, agora com certeza vai. Aqui a gente já recebe turistas por épocas, mas vai aumentar”.

Reninaldo Siqueira, 18, elogia o projeto e pontua que antes ninguém reparava, mas agora as casas chamam atenção. Foto: Daniel Brandão ()
Para agilizar o processo de pintura, alguns moradores estão botando a mão na massa, ou melhor, botando a mão na tinta e acelerando a entrega. Tudo isso para um evento integrado que acontecerá no dia 12 de julho, com música ao vivo e uma programação diferenciada em um flutuante da localidade.
O morador Raimundo de Souza, 66, disse que mora no local há 50 anos e está feliz de transformar sua casa em um ambiente mais bonito.
“Se eu não soubesse pintar, já ia ter que pagar alguém, mas graças a Deus tá dando certo. O Freyzer já ajudou bastante a gente quando ele vendia artesanato aqui, sempre foi um camarada que ajudou a gente. Eu me sinto tão feliz de chegarem os pintores para fazer as artes de pintura de bicho”, afirmou.

Raimundo de Souza, 66, morador há cinco décadas, escolheu o gavião-real como símbolo da sua casa. “Agora vão lembrar que aqui é a casa do gavião-real”. Foto: Daniel Brandão ()
Raimundo explicou, ainda, a escolha do animal da fachada.
“Todo mundo já tinha escolhido um bicho e vi que ainda não tinha gavião-real, por isso, eu aproveitei e pedi pra desenharem um gavião-real. Agora a casa vai ser reconhecida como a casa do gavião-real.”

A Raimundo de Souza, com a pintura do Gavião Real. Foto: Daniel Brandão ()
Identidade única
Sandel Xavier afirmou que, nas cidades, as residências são encontradas por seu número, mas que, por ser na beira do rio e em zona rural, as casas da comunidade serão lembradas pelos animais.
“Cada um tem o seu, a casa da onça, a casa do tamanduá, e isso traz uma identidade única”, explicou o artista.
Ele informou que a entrega oficial será feita no dia 12 de julho, durante o evento cultural da comunidade.

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