Noite do Boi de Rua marca reencontro do Caprichoso com suas raízes
Com saída dos bairros Palmares e Francesa, festa azulada celebra memória, tradição e pertencimento nas ruas de Parintins
PARINTINS, AM – O relógio marcava por volta das 20h30 quando o marujeiro Bacurí anunciou, com tambor e emoção, o início do Boi de Rua no bairro do Palmares, reduto azul e branco que nesta noite de sábado (21) se transformou em um dos pontos de partida da festa. Ali, no coração da comunidade, a Marujada de Guerra deu o tom da celebração.
Logo nos primeiros minutos, a estrela da noite emocionou moradores e torcedores, que se aglomeravam nas imediações do Ginásio Seo Jovem, onde aconteceu a concentração. Do alto do trio elétrico, o apresentador Edmundo Oran conduzia a festa com entusiasmo.
A cada toque dos tambores, surgia um coro uníssono de vozes que entoavam toadas marcantes. Era o início de uma noite simbólica, que marca não só o aquecimento para o Festival de Parintins, mas também uma retomada afetiva e cultural do Caprichoso com seus territórios de origem.
Homenagem ao Seo Jovem
Pelas ruas do bairro, o azul ganhava forma nas casas ornamentadas, em bandeiras, fitas e pinturas. Cada esquina pulsava no ritmo da batida da Marujada, que arrastava a multidão em um cortejo de pertencimento e amor ao boi.
Este ano, a festa ganhou um significado ainda mais especial com a homenagem inédita a Jovenil de Oliveira Muniz, o Seo Jovem — figura emblemática do Palmares, falecido aos 92 anos. Pela primeira vez, a família se reuniu em frente à casa onde ele morava durante a celebração do Boi de Rua. “Fiquei muito feliz. Ver essa homenagem ao meu pai, bem aqui, foi a maior alegria da minha vida”, disse emocionada a filha dele, Jocimara Lázaro de Oliveira, 45.

Família do saudoso Seo Jovem encontra o Touro Negro, durante o Boi de Rua (Foto: Paulo Bindá) (Foto: Paulo Bindá)
Tradição e resistência
No coração do Palmares, o Bar Canto da Porrada se tornou ponto tradicional de encontro dos torcedores azulados, que costumam acompanhar e celebrar o Boi de Rua no local. Mais do que um bar, o espaço é um marco cultural e histórico, celebrado até nas toadas, como na composição “Palmares, uma invasão Caprichoso”, de Adriano Aguiar.
Chon, proprietário do bar, explica a origem do nome: “Nos anos 90, existiam as galeras e as brigas entre elas. O bar, que antes se chamava Bar da Juventude, nunca pegou esse nome entre o pessoal. Sempre se referiam ao Canto da Porrada. E acabou ficando assim. Hoje, é ‘porrada’ de cultura, ‘porrada’ de amigos, ‘porrada’ de títulos — e o Caprichoso tetracampeão”.

Chon, proprietário do bar Canto da Porrada, tradicional reduto do Boi Caprichoso (Foto: Paulo Bindá) (Foto: Paulo Bindá)
Abraço ao povo do Palmares
O presidente do Boi Caprichoso, Rossy Amoedo, e o governador do Amazonas, Wilson Lima, também marcaram presença no Boi de Rua, celebrando junto à comunidade esse momento de reencontro e valorização das raízes do bumbá. Rossy destacou a importância simbólica da festa no Palmares para a história do Caprichoso.
“É uma forma de a gente reaproximar das pessoas que ajudaram a construir essa história do Boi. Geralmente o Boi sai do Esconde, sai da Rio Branco, mas no Palmares também tem muitas famílias tradicionais que ajudaram a construir essa história. E hoje, de uma forma muito carinhosa, a gente abraça a família, traz eles pra perto da gente”.

Rossy Amoedo, presidente do Boi Bumbá Caprichoso (Foto: Paulo Bindá) (Foto: Paulo Bindá)
O sonho de ser item
No Boi de Rua, as crianças também ganham protagonismo. Muitos sonham em ser itens do boi, e essa festa é uma oportunidade para que eles se sintam parte da grande família azul e branca. Preto Pimental é de família tradicional do Palmares e artista responsável pela confecção dos ‘boizinhos’ de pano. Seu trabalho permite que os pequenos evoluam como tripa do boi por um momento durante a celebração.
“A gente, que é do Palmares e ex-aluno da Escola do Caprichoso, promove esse projeto de ‘boizinhos’ de pano para incentivar as crianças a brincar, sonhar e se envolver com a cultura do nosso festival. Tudo isso para manter viva a tradição da nação azul e branca no bairro onde nascemos e crescemos”, disse emocionado.

Preto Pimental, artista responsável pela confecção dos boizinhos de pano (Foto: Paulo Bindá) ()
Enquanto os pequenos evoluía cheios de encanto, o cortejo do Boi de Rua seguia pelas ruas da cidade. Partindo do Palmares e da Francesa, o trajeto passou por pontos históricos como a Rio Branco, a Catedral e a Rua Cordovil, até culminar em apoteose no Anfiteatro Sila Marçal, na Praça dos Bois.
Boi de Rua no Esconde (Rua Sá Peixoto)
Ao som de toadas antológicas, o Boi de Rua do Caprichoso saiu do “Esconde”, na rua Sá Peixoto, num cortejo marcado por toadas, tradição e festividade. O boi percorreu as ruas de Parintins até o encontro entre os bairros Francesa e Centro, onde a paixão azulada pulsou ainda mais forte com o encontro dos torcedores azulados que saíram do Seo Jovem, no Palmares.
Chegar à Ilha Tupinambarana de barco é um desafio que o Movimento Marujada enfrenta todos os anos. Mas o reencontro com o Boi Caprichoso pelas ruas de Parintins, embalado pelas toadas tradicionais e pelo calor do povo azulado, torna cada esforço não apenas necessário, mas plenamente recompensado.
“Nosso maior esforço é organizar tudo em Manaus para chegarmos exatamente hoje, no sábado que antecede o Festival. É uma festa imperdível. Para o povo azulado é como se fosse uma noite de Festival, que encontramos toda a nossa galera na rua, saímos do nosso local de origem e que toca o nosso emocional”, destacou Beto Vital, presidente do Movimento Marujada.
Pela avenida Amazonas, Edson Azevedo estava ao lado de seu primo Alexandre Azevedo, guiando o Boi Caprichoso pelas ruas de Parintins. Sobrinho e filho de Markinho Azevedo, o eterno tripa do Caprichoso, os dois não esconderam a emoção ao relembrarem da trajetória do ídolo azulado, que faleceu em dezembro de 2023.

Torcedores do Boi Caprichoso aproveitaram o Boi de Rua para provocar o Contrário (Foto: Daniel Brandão) ()
“Meu sentimento é de gratidão, de alegria e de êxtase. É um momento único na minha vida, que tanto me preparei. Acompanhei o ‘Boi de Rua’ ao lado do tio Markinho durante mais de 10 anos e pude sentir o que é ser Caprichoso. Cada sorriso, cada abraço e cada beijo no Boi nos traz o sentimento de gratidão”, frisou Edson Azevedo.
Aos 82 anos, Odinéa Andrade, madrinha do Boi Caprichoso, mostrou que a paixão azul e branca não tem idade nem limites. Vestida nas cores do bumbá de sua vida, ela foi às ruas de Parintins, reafirmando seu amor pelo Caprichoso e sendo saudada pelos torcedores que reconhecem sua importância na história do Festival.
“Me sinto como se eu fosse uma jovem, como todos os que estão aqui. Eu vou em frente pelo meu boi. Sempre que eu me lembro do presente, parece que é a primeira vez que estou vivendo isso. Esse boi canta, toca e faz pulsar meu coração. Eu amo o Caprichoso, é o boi de Parintins”, salientou a madrinha do boi.

Aos 82 anos, Odinéa Andrade encontra o Caprichoso em mais um Boi de Rua (Foto: Daniel Brandão) (Foto: Daniel Brandão)
Além de uma festividade tradicional, o Boi de Rua é marcado por fé e devoção. Ao chegar à Catedral de Nossa Senhora do Carmo, padroeira de Parintins, o Boi Caprichoso foi a frente ao templo religioso para receber as bênçãos, em um gesto que uniu tradição, espiritualidade e a força simbólica do bumbá azul, selando com emoção o reencontro entre boi, povo e território.