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Parintins

Pai Francisco e Mãe Catirina retomam protagonismo no Garantido

Intérpretes dos personagens, Mara Souza e Orlan Bertrand trazem um novo significado para o casal responsável pelo Auto do Boi e defendem que virem itens avaliativos

Publicado em 29/06/2023 às 12h36 · Atualizado em 29/06/2023 às 12h50
Pai Francisco e Mãe Catirina retomam protagonismo no Garantido
Foto: Márcio Silva/A Crítica

O que você vai ler:

  • Casal de Pai Francisco e Mãe Catirina ganham protagonismo na arena do Garantido
  • Mara Souza e Orlan Bertrand trazem a proposta de ressignificar personagens históricos

PARINTINS – Nos ensaios técnicos do Garantido realizados nos últimos dias, o casal de pai Francisco e mãe Catirina, interpretados pela estudante de licenciatura em dança Mara Souza, 28, e pelo nutricionista e palhaço profissional Orlan Bertrand, 28, tem destaque em momentos estratégicos na apresentação do boi. Esbanjando simpatia, carisma e interpretação cênica, a dupla conquista o público e ressignifica os dois personagens mais icônicos do Auto do Boi.

Historicamente, Francisco e Catirina foram negros escravizados em meados do século XVIII na região Nordeste do Brasil. Reza a lenda que Catirina estava grávida e desejou comer a língua de boi. Francisco, para atender o desejo, matou o boi mais bonito do amo. Quando o dono da fazenda notou a morte do animal, convocou curandeiros e pajés para ressuscitá-lo. O boi voltou à vida. Francisco e Catirina receberam o perdão do dono do boi.

“Antes faziam o blackface: pinta o rosto de preto, fica pulando, maquiagem bem caricata. A Catirina vinha como alguém que assusta criancinhas e o Francisco odiado por matar o boi. E a nova proposta (do Garantido) é sobre essa relação de amor entre os dois e o filho. Ele também ama o Boi Garantido. Mas, Francisco fez a escolha de atender o desejo da esposa. E também é acima de tudo a valorização da pessoa preta, não mais como algo caricato”, analisa Orland, que se tornou Pai Francisco após convite de Allan Rodrigues, coordenador da Comissão de Arte.  

A presença de Francisco e Catirina no Auto do Boi é obrigatória, mas os dois não pontuam como itens.

“A gente quer respeito e ter momentos para representar e fazer acontecer. A tradição do Auto do Boi não acompanhou o avanço do festival. Todos ali pontuam: Sinhazinha, Amo, Pajé e o Boi Garantido. E desse ato quem não pontua? Pai Francisco e Mãe Catirina… E a história começa conosco. O contexto do hoje é sobre relação de amor com o boi, não mais como negros escravizados”, analisa o nutricionista.


Casal encena o Auto do Boi durante ensaio no Bumbódromo de Parintins (Jhonny Lima/A Crítica – 27/jun/2023)

‘Eles importam, assim como os outros’

A presença de Mara e Orlan já é notada ao longo da temporada bovina em Manaus.

“A gente participou para passar a visão que esses dois personagens importam, assim como os outros. É muito legal ouvir um ‘nossa, estávamos esperando vocês entrarem’ da galera. A nossas apresentações não se limitam a arena, mas também nos eventos em Manaus já para a galera entender que o Pai Francisco e Mãe Catirina também são itens”, declarou Mara, que em 2016 foi Mulata de Ouro do Carnaval de Manaus.


Casal de personagens participa da encenação do Auto do Boi durante ensaio no Bumbódromo (Jhonny Lima/A Crítica – 27/jun/2023)

Racismo velado persiste

Orlan relata situações de racismo velado com comentários que diminuem a importância do personagem pai Francisco.

“Existe muita resistência ainda. No estereótipo antigo a Catirina tem que ser feia, descabelada e batom. E tem aquele racismo disfarçado de elogio: ‘nossa, você é tão linda e tem potencialidade de ser sinhazinha’, ‘você pode ser rainha do folclore’ ou ‘você pode ser pajé’. É como se fosse uma escada. E não, nós queremos ser pai Francisco e mãe Catirina. E quem sabe um item 22”, frisou.

Os estereótipos trazidos pela prática de blackface  nos anos 1990 e 2000 ainda são paradigmas que a dupla deseja quebrar.

“Não bastava a Catirina ser engraçada, ela tinha que ser ridicularizada para a galera. É essa ideia que queremos quebrar. E assim, nas redes sociais, a cada cinco comentários, dois são ruins”, disse Mara.

“Se eu não soubesse quem era Francisco e Catirina lá na minha graduação, na matéria de Dança e Cultura Popular, eu não teria a noção da representatividade desses personagens. O quanto eles evoluem”, complementou.

O processo de construção de Catirina teve o olhar acadêmico de Mara.

“Quando eu comecei a estudar, eu percebi que precisava tirar algo e acrescentar outras coisas. Por exemplo: a caricatura dela. Eu escutei que a ‘Mãe Catirina tem que ser engraçada’, então, eu pensei: ‘posso ser engraçada, mas não preciso ser ridicularizada’. Eu acrescentei a dança e faço isso somado ao olhar e a cênica. Para não dizerem que a Catirina apenas dança. A questão é que conseguimos participar da arena de outras formas”, disse Mara.

Expectativa é que virem itens oficiais

Sobre a possibilidade de Francisco e Catirina se tornarem itens e passaram por avaliação como os demais, Mara acredita que o casal de personagens vai contribuir bastante para uma educação antirracista.

“Pai Francisco e Mãe Catirina não contam ponto, mas, estão como item de convencimento para os jurados. Então, a gente traz essa proposta. Quando virarmos item avaliativo é uma colaboração do que estamos fazendo hoje. Além de cancelar o blackface a gente espera que os dois sejam itens obrigatórios”, disse.


Mara e Orlan defendem que os personagens sejam transformados em itens avaliativos, o que ampliaria a resistência contra o racismo (Márcio Silva/A Crítica)

Do ponto de vista de Orlan, transformar os personagens em item avaliativo significa que será pela causa antirracista.

“Se você transforma um item em avaliativo, significa investimento nele para valer o ponto. E esse investimento potencializa a mensagem que estamos transmitindo. E isso é pela causa. Outros vieram antes da gente e outros virão depois, mas temos que pensar na causa: o racismo não acaba com o festival, ele acontece o ano todo. A gente acredita nesse projeto e é o que levaremos para a arena”, finaliza Orlan.

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