Em uma semana, 12 policiais são presos em Manaus
Operações e flagrantes da Rocam e COE revelam metástase do tráfico e da pirataria fluvial
Em menos de uma semana, doze policiais, entre militares e civis, foram presos em ações relacionadas ao tráfico de drogas, posse de munições, armas de grosso calibre, estelionatos e pirataria na capital amazonense. As prisões foram realizadas durante as Operações Erga Omnes, Negócio Turvo e em flagrantes efetuados por policiais do Comando de Operações Especiais (COE) e das Rondas Ostensivas Cândido Mariano (Rocam).
De acordo com o sociólogo Lúcio Carril, o crime organizado se entranhou no Estado brasileiro. Segundo ele, esse tipo de crime não é recente e passou a integrar o serviço público explorando a fragilidade da máquina estatal no que se refere à conduta de seus agentes.
“O Estado é frágil na ética e na punição dos desvios de conduta. As escolas de formação do serviço público não funcionam. Não existe um programa consistente de formação do agente público. Isso tornou o Estado vulnerável. Não se trata apenas de questão salarial, mas da construção de indivíduos preparados para o exercício do serviço público”, afirmou Carril.
Segundo ele, a questão salarial não é central e citou o policial civil do Amazonas, que recebe um dos melhores salários do país. Ainda assim, no caso dos investigadores, há registros de envolvimento em crimes.

Arsenal de grosso calibre e munições apreendidas em operações recentes (Foto: Daniel Brandão)
“O combate ao crime organizado passa, necessariamente, pelo fortalecimento do Estado, não apenas em tamanho, mas em qualidade. Quando se fala em inteligência, não deve haver apenas um olhar voltado à investigação policial, mas também à preparação e qualificação de seus agentes. É imprescindível construir um novo projeto de Estado, que não seja marcado pela ineficiência, pela impunidade e pela incapacidade de operar como força protetora da sociedade”, completou.
SEGURANÇA
O secretário de Estado de Segurança Pública (SSP-AM), coronel Vinícius Almeida, afirmou nesta sexta-feira (27), durante coletiva de imprensa sobre a prisão de policiais militares da 19ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom), relacionada ao tráfico de drogas no bairro Tarumã, zona Oeste de Manaus, que a Polícia Militar é uma instituição centenária e não admite que qualquer integrante atue à margem da lei.
“Qualquer um que cometa crime, especialmente tráfico de drogas, sofrerá as consequências da lei, seja quem for, mas terá direito à ampla defesa”, disse o titular da SSP-AM.
Conforme o corregedor-geral da SSP-AM, coronel Franciney Bó, esse tipo de situação representa “um corte na própria carne, que sangra, mas é necessário fazer”.
“Os policiais responderão a processos administrativo e criminal, ou seja, a dois processos na Justiça. Na Corregedoria, responderão a procedimentos disciplinares que poderão resultar na exclusão deles, se for o caso”, concluiu Bó, ressaltando que as investigações contra policiais corruptos no Estado continuarão.
Casos recentes de prisões de policiais
No dia 20 de fevereiro, a policial civil Anabela Cardoso Freitas, integrante da Comissão de Licitação da Prefeitura de Manaus e ex-chefe de gabinete do prefeito da capital, David Almeida (Avante) e o policial militar Osimar Vieira Nascimento foram presos na Operação Erga Omnes. De acordo com a polícia, Anabela e Osimar integravam uma organização criminosa envolvida em tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e corrupção.
No dia 23 de fevereiro, policiais militares do Comando de Operações Especiais (COE) apreenderam uma lancha com cinco suspeitos de pirataria fluvial, sendo três policiais militares e dois civis, que seriam informantes. Os militares foram identificados como o sargento David Lennon Pop dos Santos, o cabo Gláucio Wagner Pessoa Mota e o soldado Cláudio Roberto de Miranda Andrade. Eles confessaram que pretendiam interceptar uma embarcação que vinha da fronteira para tomar a droga transportada.
No dia 24 de fevereiro, o policial militar reformado Adrião Severiano Nunes Junior, foi preso na Operação Negócio Turvo, que resultou no cumprimento de oito mandados de prisão contra integrantes de uma organização criminosa investigada pelos crimes de lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, estelionato, falsidade ideológica e falsificação de documentos.
Na quinta-feira (26), seis policiais militares e cinco civis foram presos em flagrante quando desembarcavam, de uma balsa, 2.766 quilos de droga, avaliados em R$ 53,3 milhões. Além do entorpecente, foram apreendidos dois carros, 12 celulares, seis pistolas e um fuzil. Duas viaturas da 19ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom) estavam no local, dando apoio aos tripulantes que realizavam o desembarque.
Os policiais nessa ação no bairro Tarumã foram identificados como os sargentos Joabe Vasconcelos Maia, 47 anos; David Ramires Alencar, 38; Tellson da Costa Antunes, 41; e os cabos Mariley da Silva Aparício, 42; Mabil Castro Nascimento, 41; e Thiago Torquato Herculano Viana, 37.
Ex-policial morto
O comandante de grupo de extermínio, o ex-policial militar reformado Francisco Marques dos Reis, conhecido como Max, 51, e outro homem de identidade desconhecida, foram encontrados mortos a tiros de fuzil na manhã de sexta-feira (27) em um sítio na rua Floresta, 2478, bairro Tarumã-Açu, zona Oeste.
Imagens de câmeras de segurança do imóvel mostram que pelo menos quatro homens vestidos com roupas pretas e encapuzados invadiram a casa de Max. Dois estavam armados com fuzis e dois com pistola.
Max é um criminoso conhecido da polícia foi expulso várias vezes da corporação por crimes de homicídio. Em 2022, ele foi preso suspeito de participar do assassinato de Cleiton Robert dos Santos Castilho, de 30 anos, já foi mandante de uma chacina e comandou um grupo de extermínio, em Manaus.
Policial militar ferido
Um policial militar a paisana foi baleado na tarde desta sexta-feira (27) por homens não identificados, na rua Santa Maria, bairro Cidade de Deus, zona Norte de Manaus. Apesar do ferimento, ele não corre risco de morte.
De acordo com informações preliminares, o policial teria sido perseguido e procurou abrigo em um lava-jato que há na região. Neste momento houve a troca de tiros, onde ele acabou sendo atingido assim como um veículo estacionando no local.
Entretanto, nas imagens das câmeras de vigilância internas, percebe-se que o carro modelo Volkswagen Polo pertencia aos suspeitos e que o policial já estava no local. Um homem de camiseta azul, bermuda jeans e boné vermelho, sai do carro e vai em direção ao policial e é neste momento, que há a troca de disparos. Os outros ocupantes do carro fogem, sem ser identificados.
Toda a área foi isolada pela Polícia Militar. Ele foi socorrido levado para o Hospital e Pronto-Socorro (HPS) Platão Araújo, onde recebe atendimento médico. O caso deve ser investigado pela Polícia Civil.