‘A ancestralidade tem esse poder de empoderar’, diz Shonda Buchanan
Escritora norte-americana conta que buscar seus antepassados colaborou para a sua descoberta como mulher preta, suas inspirações e impressões de problemas raciais vivenciados em todos os cantos do mundo
Professora e escritora premiada, Shonda Buchanan, vê no processo de descoberta da identidade racial, o caminho para construção de uma sociedade mais igualitária. Em visita a Manaus nessa semana, a convite da Embaixada dos Estados Unidos, ela concedeu entrevista exclusiva ao A CRÍTICA na quinta-feira.
Autora do premiado livro de memórias ‘Black Indian’ (Índio Negro, em tradução literal), um dos 20 melhores livros para aprender sobre racismo institucional, segundo a PBS NewsHour, e das obras: Equipoise: Poema do País da Deusa; Quem tem medo de índios negros?; e Vozes do Leimert Park, Shonda conta como buscar seus antepassados colaborou para a sua descoberta como mulher preta, suas inspirações e impressões de problemas raciais vivenciados em todos os lugares do mundo. Abaixo trechos da entrevista.
O que a inspirou a se tornar uma escritora? Quais foram suas primeiras experiências com a escrita?
Eu gostaria de contar a história de pessoas negras e de pessoas indígenas também. E tudo começou com esse interesse de entender questões. Quando eu era pequena, por exemplo, eu não entendia porque as pessoas estavam com raiva, porque elas estão felizes. Eu queria entender toda essa ancestralidade e de onde vinha isso. Foi um lance de realmente contar histórias e revelar para as pessoas essas histórias. Foi isso que me inspirou.
Como você define sua identidade literária e quais são suas principais influências?
A linguagem tem sido utilizada para descrever a pessoa negra de forma negativa. Então através desse processo de escrita eu tento trabalhar contra isso. Como a classe dominante e como o governo descreve a pessoa negra? Como nós, pessoas negras, nos definimos? É muito importante observar isso, especialmente na sala de aula, como a população negra e a população indígena é descrita.
Muitos de seus escritos abordam temas como diáspora africana e comunidades marginalizadas. Como esses temas impactaram e informaram sua escrita?
Uma das primeiras autoras que eu li foi Sônia Sanchez com essa perspectiva que descreveu essa dor de uma família negra e como eles superaram esse processo. Ela tentava contar a história dos africanos da sua própria perspectiva desse processo. Outra autora é Toni Morrison. Ela tem uma abordagem maior sobre a mulher negra, de todo esse processo de trazer essas histórias. Toni Morrison também aborda essas questões ‘bipoc’ (Black-Indigenous – negro e indígena em tradução livre) e pessoas de cor. Tem muitos escritores negros e eu me vejo neles. Eu nasci em 1968, a minha mãe conviveu com o racismo, a minha filha também convive com isso. A escrita é uma forma de abordar esse assunto para a comunidade em geral.
O nome do seu livro “Black Indian” [Negro indígena], chama atenção, pois por muitas vezes no Brasil a questão do negro e do indígena acabam distanciando os discursos.
As pessoas oprimidas enfrentam situações semelhantes quando se trata da mesma imposição das classes dominantes. O descaso com a saúde, pois não tem um subsídio para saúde dessa população como deveria, a desigualdade e a disparidade econômica que vem dessa situação, o genocídio. Tanto o negro, quanto o indígena têm sentido esse racismo estrutural. É preciso que eles unam forças para que haja esse empoderamento. E isso começa na imaginação. Nós devemos nos descrever como pessoas de cor porque ninguém mais vai fazer isso por nós.
As suas obras falam sobre a importância de ter uma conexão com a ancestralidade. Como as suas raízes influenciaram nesse processo de escrita e como outras pessoas também podem buscar esse elo com seus antepassados?
Eu ensino como os nossos ancestrais podem ajudar nesse processo de escrita. Esses ancestrais fazem eu me sentir mais empoderada para poder ensinar as pessoas o que nós somos dentro dessa perspectiva do negro e do indígena. A ancestralidade tem esse poder de empoderar.
Aqui no Brasil se criou uma cultura para tentar “amenizar” a pessoa preta, criando “moreno”, “moreno claro” etc. Isso colabora para o apagamento da pessoa preta?
Isso é meio sistemático. A percepção da sociedade sobre as pessoas de cor faz a gente se odiar, às vezes. Nós queremos gostar de nós mesmos sem sermos perseguidos, marginalizados, que possamos ter empregos, às vezes só queremos fazer parte da “sociedade branca mais leve” para ter uma vida mais fácil. É o racismo institucional. Quando falo institucional significa que ele “passa” pela nossa sociedade. É difícil. Às vezes não sabemos, tipo na escola, enquanto crianças, a gente só quer ler, mas o professor vem com uma perspectiva institucional já que ele faz parte da instituição.
No contexto editorial, os autores que são negros, indígenas, membros da comunidade LGBTQIA+ que ganham visibilidade, quase sempre escrevem sobre esses temas de identidade.
Você pode. Sempre, claro. Sabe, qualquer um pode fazer isso. Qualquer pessoa pode escrever sobre o que ela quiser, além de identidade, assuntos ou legados culturais. Você pode escrever sobre o que você bem entender. As pessoas vêm ao seu país e dizem: ‘vocês têm recursos que queremos. Vamos tomá-los e matar a sua gente porque eles não têm valores’. Isso acontece. É verdade na história. Talvez esse seja o motivo que alguns autores focam nesse assuntos.
Uma das situações que mais ficaram marcadas na história foi a do George Floyd que influenciou outros levantes, inclusive no Brasil, “vidas negras importam”. Como você analisa essa união de forças em todo o mundo contra o racismo?
George Floyd foi assassinado. Foi uma coisa que o mundo viu, mas que acontece o tempo todo. Então o mundo provavelmente sabia que o racismo existia, mas eles não sabiam que em 2020 um homem negro podia ser morto na TV. Então foi uma representação visual de como as pessoas de cor se sentem. Causou uma revolução no mundo todo porque eles disseram “ele é humano”, nenhuma pessoa deveria ser tratada daquele jeito, não só uma pessoa negra, qualquer uma. E o mundo soube que podíamos ser melhores que aquilo. As crianças, os idosos, os estudantes, todos os cidadãos se mobilizaram para dizer “precisamos ser seres humanos melhores”. É uma luta contínua por conta do legado da colonização e migração, escravidão, então é uma luta contínua. É por isso que eu escrevo. Precisamos lutar em todos os momentos.
O que você falaria pra um jovem negro que está em busca dessa identidade cultural e quer começar a escrever?
Fale com as pessoas mais velhas da sua família, entrevista elas, grave elas contando essas histórias, porque desse jeito você vai conseguir seu direcionamento e você pode contar aos seus filhos e passar adiante. O que eu diria é entreviste todas as pessoas mais velhas da sua família, anote tudo, saiba seus nomes, onde nasceram, se eles são indígenas, africanos, europeus, etc. E comece a visitar arquivos, bibliotecas, museus e locais onde tenham registros históricos. Comece mapeando o máximo de histórias que puder até chegar nas suas origens. Você talvez precise até sair de seu país para encontrar a informação que você precisa porque os colonizadores viajavam e levam essas informações com eles. Então às vezes você precisa deixar seu país para encontrar sua história.
Em seu website, você aborda a importância de viajar. Como essa troca de culturas pode incentivar para uma sociedade mais tolerante?
Eu viajo para escapar de tudo. Eu gosto de ver como as outras pessoas vivem. Eu quero ver o mundo. O lado crítico do meu cérebro é atiçado quando eu vejo outras culturas, porque todo mundo pensa “ah, que legal que bonito”, mas o que as pessoas negras estão fazendo aqui? É como o meu cérebro trabalha. O Egito, por exemplo, é muito lindo, mas o que está acontecendo com as pessoas? Eu escrevo sobre minhas viagens, sobre as experiências com as outras pessoas e como somos os mesmos nesse processo de inclusão. Percebemos que não somos tão diferentes, então é a inclusão mesmo. Viajar me permite respirar é onde eu posso estar em contato outras pessoas e esse é um processo de empoderamento para mim. Isso me faz feliz.