Manaus qui, 5 nov
A Crítica
Política

Bancada do Cocar quer dar voz às mulheres indígenas no Legislativo

Em todo o Brasil, 82 candidatas indígenas disputam a eleição, no Amazonas elas são nove concorrendo à ALE e à Câmara Federal

Publicado em 21/08/2022 às 08h39
Foto: Montagem/Divulgação

Sub-representadas na política, mulheres indígenas do Brasil participam de um movimento político chamado “bancada do cocar” para promover a candidatura de indígenas nas eleições deste ano. Em todo o país, são 82 mulheres pertencentes a povos tradicionais que concorrem a cargos no Executivo e no Legislativo. No Amazonas, são nove. Ainda assim, a presença de indígenas (incluindo homens) no pleito deste ano representa apenas 0,62% de todos os candidatos do país, independente da cor.  

O movimento foi construído durante a 18º Edição do Acampamento Terra Livre, a maior manifestação indígena do mundo, em abril deste ano. Com o tema “Demarcar Territórios e Aldear a Política”, o evento foi o lançamento oficial das pré-candidaturas, como a da agora candidata à deputada federal pela Rede, Vanda Witoto, do Amazonas. 

Vanda é indígena do povo Witoto e ativista pelos direitos indígenas, mas ficou mais conhecida por se tornar a primeira amazonense vacinada contra a covid-19, em janeiro de 2021. Ela, que é técnica em enfermagem, também ganhou a atenção da imprensa nacional e internacional durante a pandemia por prestar atendimentos de saúde aos parentes do bairro Parque das Tribos, em Manaus, na crise sanitária. 

“Entendemos que para que as políticas públicas desse país cheguem aos nossos povos é preciso elegermos indígenas para esses espaços de tomadas de decisões. Nesse lugar onde são constituídas leis e aprovadas emendas parlamentares, precisamos estar lá para garantir que sejam executadas em prol do nosso povo”, comenta Vanda Witoto. 

O movimento em ação neste ano já surtiu efeito nas candidaturas. Segundo dados da Justiça Eleitoral, houve um aumento de 31,34% no número de indígenas concorrendo a cargos no Legislativo e Executivo, em comparação a 2018, quando haviam sido 134 candidatos declarados indígenas. 


Protagonismo

A ativista indígena e pedagoga Cláudia Baré é uma das fundadoras do Parque das Tribos. Tem na educação uma de suas principais bandeiras de luta, inclusive, começou lecionando para crianças indígenas no Centro Municipal de Educação Escolar Indígena Wakenai Anumarehit, na mesma comunidade. 

Cláudia é iniciante na política partidária. Foi convidada pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT) para concorrer a uma vaga na Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM). Um dos motivos que lhe levou a dizer “sim” ao convite está diretamente ligado à maneira como indígenas ainda são vistos na política.

“A gente sabe que em época de eleição eles [os políticos não indígenas] vão até os indígenas, mas no decorrer do tempo, eles não estão nem aí para os nossos parentes. É só no momento da campanha, porque vale a busca pelo nosso voto. É por isso que temos que ocupar esses espaços, especialmente quando as pessoas que são desse partido nos convidam. Estou nesse espaço para que os nossos povos tenham mais oportunidade, que nossos direitos sejam ouvidos”, afirma Cláudia Baré. 

A abertura de espaço para indígenas na estrutura partidária é o que também destaca a candidata a deputada estadual Suni Kokama (PDT). “Tem uns partidos que tentamos nos filiar, vir todos os indígenas, mas eles tentam dividir em outras siglas para poder não elegermos nenhum e ficarmos sempre sendo apenas representados por eles”, critica ela.

Suni nasceu na comunidade São Recreio, mas cresceu na comunidade Santa Maria, no município de Santo Antônio do Içá (AM). Veio para Manaus com 21 anos sem saber ler e escrever, porém, estudou pelo programa de Ensino de Jovens e Adultos (EJA) e posteriormente se formou em biblioteconomia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Hoje é mestranda em antropologia social pela mesma instituição. 

“Até agora não temos nenhum representante indígena, nem homem, nem mulher na política. A única eleita foi a deputada federal Joenia Wapichana. Nós somos muitos indígenas, mas não conseguimos eleger nenhum. E apesar de muitos terem se candidato esse ano, ainda é pouco. Precisamos reivindicar esse espaço”, destaca Suni Kokama.

Representatividade

No município mais indígena do Brasil, em São Gabriel da Cachoeira (AM), é comum ter representantes de povos tradicionais na Câmara dos Vereadores e até mesmo na prefeitura, como é o caso do ex-prefeito Pedro Garcia, primeiro indígena eleito para a gestão municipal, em 2006.

Porém, para a ex-secretária de Assistência Social, Jacilene Castilho Maia (PV), a representatividade ainda é inexistente a nível estadual. Ela se refere à Assembleia Legislativa do Amazonas, estado mais indígena do Brasil, mas que possui apenas deputados não indígenas no Legislativo. 

“Quero levar representatividade, respeito, ter esse elo entre o Estado e o município. Meu objetivo é quebrar esse tabu de ter indígenas na política, de verem isso apenas como recurso eleitoral, de complemento de voto. Hoje, no Amazonas, tem vários municípios com representantes na Assembleia, e dessa vez vamos lutar para que nosso município também alcance isso”, afirma Jacilene Maia.

Jacilene nasceu na comunidade Patos, no rio Papuri, em São Gabriel da Cachoeira, e além de secretária, foi primeira dama do município quando o ex-marido, Clóvis Moreira Saldanha, assumiu a gestão municipal, em 2016. Além da própria bandeira indígena, ela diz que irá defender as mulheres caso seja eleita deputada estadual.

“Minha pauta é o protagonismo feminino. Nós somos capazes de vencer, de tudo. Quero lutar pelas mulheres indígenas, porque muitas estão no interior, tem trabalho, mas não são valorizadas”, ressalta a candidata.

Pioneira

Com 8,491 votos, Joênia Wapichana (Rede-RR) se tornou, em 2018, a primeira indígena a ser eleita deputada federal no Brasil. Antes dela, o último indígena eleito para o parlamento havia sido o cacique xavante Mário Juruna, em 1987. Ou seja, há 31 anos os indígenas não tinham nenhuma representatividade no Legislativo em Brasília.