Captura do ‘voto útil’ dá o tom na reta final do primeiro turno
Campanhas dos candidatos a presidente se mobilizam, na reta final do 1º turno, a favor e contra o voto pragmático, que pode definir a eleição
A mais recente pesquisa DataFolha, divulgada na noite de quinta-feira, que dá ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) 48% dos votos válidos, e mantém acesa a possibilidade de vitória no primeiro turno, impulsiona a caça pelo voto útil. O movimento tem provocado reações de Bolsonaro (PL), Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB). E dará o tom da campanha nas próximas duas semanas.
Em declarações recentes, o petista instigou os militantes a fortalecer a campanha para virar os votos já no primeiro turno. “Tem gente que tem vergonha [e diz] ‘ah, não vamos ganhar no primeiro turno porque parece soberba’. Não, nunca fiz eleição para ganhar no segundo turno. Toda eleição que eu participo é para ganhar no primeiro”, declarou Lula em um vídeo publicado nas redes sociais.
Em resposta a essa e outras falas do petista, Centrais Sindicais divulgaram uma carta direcionadas aos eleitores do pedetista pedindo votos para Lula na tentativa de derrotar Bolsonaro. Grupos como Central de Movimentos Populares, Movimento dos Atingidos por Barragens, Movimento Camponês Popular e União Nacional por Moradia Popular afirmaram em nota que a eventual vitória imediata de Lula seria um passo rumo ao que chamam de “nossa missão histórica”.
Irritado
Ciro, que já foi aliado de Lula tem sido duramente criticado pelos apoiadores do PT por conta das duras críticas que tem feito ao petista. O ex-ministro, inclusive, fez discursos para convencer eleitores seus a não migrarem e chegou a chamar de “autoritários” e de “covardes” aqueles que fazem “qualquer negócio para ganhar no primeiro turno”. No horário eleitoral, ele tem divulgado uma série de vídeos se posicionando contra o voto útil.
Simone Tebet em fala recente criticou a estratégia do voto útil. “É um desrespeito à população brasileira. Numa das eleições, talvez a mais importante, mais difícil desde a redemocratização. Esta é uma eleição que pode definitivamente tirar o Brasil do mapa da fome, da pobreza, da miséria, ou não, a depender da escolha do eleitor”, declarou.
Doze pontos percentuais atrás de Lula, segundo o DataFolha, Bolsonaro também tenta animar sua militância com o discurso do voto útil. Na noite de quarta-feira, durante campanha em Natal, disse que, se depender da vontade de Deus, será reeleito no primeiro turno.
“Eu quero agradecer a Deus por esse momento, pela missão que ele me deu para comandar essa nação. E se essa for a vontade dele, serei reeleito agora em primeiro turno, para que possamos continuar, cada vez mais, a fazer o Brasil melhor para todos nós”, disse.
Dados
A caça pelos votos dos candidatados da “terceira via” não é à toa. Nas mais recentes pesquisas, o cenário tem oscilado pouco. Na do DataFolha, de quinta-feira, o ex-presidente Lula tem 45% das intenções de voto no primeiro turno, seguido pelo atual presidente, Jair Bolsonaro, com 33%. Ciro Gomes tem 8% e Simone Tebet tem 5%.
Além disso, a consolidação de um antagonismo entre os líderes das pesquisas parece irreversível. A maioria dos eleitores de Bolsonaro e Lula não pretende mudar de voto. A pesquisa Genial/Quest divulgada na semana passada apresenta dados detalhados sobre a questão. 81% dos entrevistados que votam em Bolsonaro indicaram que não pretendem mudar seu voto. Entre os eleitores Lula esse número foi de 79%.
Migração
Cenário diferente dos demais candidatos, onde 54% dos eleitores indicam que podem mudar o voto até o dia 2 de outubro. Lula é favorecido principalmente entre os eleitores de Ciro Gomes (PDT). 33% dos que votam no pedetista indicam que mudariam o todo para que Lula vencesse no primeiro turno. Os de Simone Tebet seriam 19%.
Nos eleitores de Ciro em um eventual segundo turno 51% ainda indicam a preferência para o candidato do PDT colabore para a campanha de Lula e apenas 19% preferem o apoio a Bolsonaro. Configuração diferente do eleitores de Simone Tebet que têm maior tendência a se dividirem entre Lula e Bolsonaro. 35% deles preferem o apoio ao presidente da República e 27% ao petista, percentual próximo dos que esperam que emedebista não apoie nem um, nem o outro.
‘Só se ocorrer fenômeno fora da curva’
A possibilidade de resolver as eleições presidenciais no primeiro turno é pouco provável na avaliação do pesquisador e fundador do Instituto Pontual Pesquisa, EricBarbosa. Segundo ele, o histórico do Brasil – que desde a redemocratização teve apenas Fernando Henrique Cardoso eleito sem segundo turno – aponta que somente um fenômeno fora da curva tornaria tal feito uma realidade.
“Estatisticamente, o número de eleitores que utilizam esse voto útil não é suficiente para mudar o resultado de uma eleição. Ter uma eleição de somente um turno aqui no Brasil está fora de cogitação. Não tem significância estatística hoje que comprove. Se isso acontecesse, seria um fenômeno fora da curva, mas muito fora da curvamesmo”, destacou Eric.
Segundo ele, a eleição polarizada não dá margem para o crescimento muito significativo dos demais candidatos e o que ainda pode ocorrer é alguma variação entre Lula e Bolsonaro, mas nada muito significativo devido as diferenças regionais. Como exemplo, ele lembra que, no Amazonas, capital e interior têm intenções de votos distintas. Enquanto a maioria dos manauaras preferem Bolsonaro, os interioranos votam em peso em Lula.
A variação, no entanto, conforme a percepção de Eric Barbosa, pode ajudar pois, aquele que tiver o melhor desempenho no primeiro turno tende a ter o melhor desempenho no segundo turno. Esse cenário, no entanto não é definitivo, já que na nova etapa do pleito o placar volta ao zero a zero.
Voto ‘envergonhado’ altera o quadro
Outra aspecto que pode interferir no resultado da eleição é ovoto envergonhado – quando apessoa não admite que vai votar em alguém durante as sondagens de intenção de voto. A possibilidade dessa modalidade pode ser observada, por exemplo, na diferença entre os números de pesquisas presenciais e por telefone. Nesta última, segundo especialistas, o entrevistado fica mais confortável em admitir o voto.
“Essa pessoa não é um entusiasta. Normalmente o que norteia o voto envergonhado é que a pessoa não necessariamente está pensando na sociedade, está pensando mais em si ou nos seus e não vai defender o candidato para ter que debater argumentos. Ela vai ficar mais caladinha e não vai assumir que vota em um ou em outro e, se disser, vai ser de forma reservada”, explicou o analista político Afrânio Soares, da Action Pesquisas.
Ainda segundo ele, o eleitor que tem mais tendência a fazer esse movimento é o da direita, o que não necessariamente deve privilegiar apenas Jair Bolsonaro, mesmo que parte do grupo que vota no atual presidente, vota por rejeição a Lula. Mas no atual cenário de disputa entre os dois, Lula também pode obter uma parcela desse eleitorado, no entanto, por falta de aferição desse fenômeno, a questão ainda é incerta.
“Eu não tenho certeza se somente Bolsonaro se beneficiaria do voto envergonhado. Talvez o Lula também. Isso não tem parâmetros que possam garantir uma coisa ou outra, mas me parece que a característica do eleitor de direita é mais propensa”, disse Afrânio.
Personagem
Apoiador declarado de Ciro Gomes, o cantor Tico Santa Cruz anunciou esta semana que deverá votar em Lula e defendeu voto útil no petista.