Comércio antecipa campanha e dispara venda de toalhas de Lula e Bolsonaro
TRE diz que comercialização das peças não viola a lei eleitoral por não haver 'pedido expresso' de voto
A pouco mais de dois meses do primeiro turno, assim como em outras cidades do país, comerciantes de Manaus passaram a vender toalhas com estampas dos rostos dos dois candidatos mais bem colocados na corrida presidencial, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) e o atual presidente Jair Bolsonaro (PL). A Justiça Eleitoral não enxerga na comercialização desses produtos campanha antecipada. Oficialmente, a propaganda eleitoral só começa no dia 16 de agosto nas ruas e na internet.
O comerciante Danilo Lima costumava vender apenas água no sinal da rotatória do conjunto Eldorado, zona Centro-Sul de Manaus. Porém, há um mês ele começou a comercializar as toalhas e os produtos têm ajudado a melhorar a renda.
“É mais comum o pessoal nos carros passar e pedir água, mas acontece também de ver as toalhas e comprar. Eles perguntam qual tá vendendo mais, quanto custa, às vezes compram uma, duas. É assim. Outros também passam e gritam o nome do Bolsonaro ou do Lula, e também tem os que xingam”, disse Danilo Lima.
Danilo não sabe informar quantas vendeu exatamente ao longo do primeiro mês, mas no dia em que foi entrevistado por A CRÍTICA, 26 de julho, já havia vendido cinco toalhas. Como cada uma sai por R$ 70, o faturamento só desses produtos havia lhe rendido R$ 350 naquele dia.
Perguntamos a ele qual toalha tem sido mais procurada, questionamento que é feito diariamente pelos clientes. “Tá balanceado, meio a meio, tá dividido. Mas só que o Lula tá um pouco mais na frente”, comentou o vendedor.
No calendário
Sobre as eleições, Danilo ressaltou “não sou nenhum desses dois” e que está buscando se informar sobre os outros candidatos para poder decidir o voto.
Na mesma rotatória, porém do outro lado da rua, o comerciante Francisco de Souza Pinheiro também comercializa as famosas toalhas. Com dois dias em que começou a expor os produtos, conta ter vendido três do Lula e cinco do Bolsonaro. “Dá pra gente vender bem”, diz ele.
“Eu tô indeciso [sobre quem votar], mas acho que o Bolsonaro vai ganhar. Sobre a disputa mesmo eu não falo nada não, fico calado. Tem uns [motoristas] que passam aqui e falam que vão usar a toalha do Bolsonaro para colocar no chão do carro, outros que querem a do Lula”, comentou Francisco.
O vendedor ressaltou ainda como a venda das toalhas se incorporou ao calendário do comércio local e nacional. “Eu vou vender até o fim das eleições. Aí depois quando terminar as toalhas, vou [vender] para a Copa do Mundo, né”, se referindo ao evento que acontece este ano no Quatar, a partir de 21 de novembro, logo após as eleições.
Mil toalhas
A reportagem foi até a rua dos Andradas, no Centro de Manaus, onde o comércio de tecidos e artigos de cama, mesa e banho é mais comum. Por lá, encontramos uma loja que vende as toalhas por R$ 18 no atacado (a partir de 10 itens) e R$ 22 a unidade. Segundo a vendedora Nayara Cristina Martins, a loja é muito procurada por comerciantes em busca do produto, que passou a ser disponibilizado há três meses.

Vendedora Nayara Martins, que trabalha em uma loja do Centro de Manaus, disse que aumentou a procura por toalhas dos presidenciáveis, que custam R$ 22 cada (Foto: Gilson Melo)
“A gente já vendeu mais de mil toalhas. Todo dia a gente vende. No mínimo, um atacadista leva dez. E todo dia aparece uns dois, três. Essa semana deu uma amenizada, mas sai diariamente. Tem pessoas também que só compram [a unidade] mesmo porque gostam”, informou Nayara Martins.
Nayara contou que não era muito ligada à política e que está “meio balançada”, mas se considera a favor do atual presidente Bolsonaro. “Apoio como mãe, porque o projeto que ele tem para as crianças, na forma de tratar nossas crianças no estrato familiar, eu acho que ele é bem mais preparado para isso”.
Apesar do posicionamento político pessoal, ela afirmou que as toalhas mais vendidas são as do ex-presidente Lula. “No meu ver, se for em termos de gosto pessoal, o Lula está na frente. Tá tendo mais saída. Os que mais nos procuram são os revendedores e o que eles passam para a gente aqui na loja é que o Lula tem tido bastante saída”.
Símbolo
A professora Ceane Simões comprou uma toalha com o rosto do Lula em abril durante viagem a Porto Alegre (RS). Naquele período, os itens ainda não eram vendidos com tanta frequência em Manaus. Segundo ela, que também adquiriu toalhas pequenas depois no Rio de Janeiro (RJ) para dar de presente, os artigos são muito mais um símbolo.
“Eu comprei toalhas do Lula porque entendo que existe também uma disputa simbólica no processo eleitoral e no próprio projeto político de sociedade. A linguagem visual conta muito nesse caso, mesmo porque a toalha não é propriamente para se enxugar. É para espantar neofascistas mesmo”, comenta.
A ideia de a toalha ser um símbolo, como mencionou a docente, é a mesma defendida pelo sociólogo, doutor em Ciências Sociais e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Luiz Antônio Nascimento.
“Em todas as eleições nacionais você teve candidaturas que produziram, quase sempre de forma espontânea, símbolos. Elementos físicos que marcaram essas candidaturas. Por exemplo, todo mundo sabe que na campanha presidencial dos anos 60 o Jânio Quadros tinha como símbolo uma vassoura. Na eleição de 1989, o Lula tinha como símbolo uma borboleta, e posteriormente a estrela. E assim por diante”, ressalta.
O cientista social conta que no caso das toalhas, tudo começou com um banhista fotografado com uma toalha do Lula em uma praia no Rio de Janeiro. “Aquela imagem viralizou. Na semana seguinte, alguém percebeu que aquilo poderia dar liga, passou a estampar essas toalhas e elas foram ganhando as ruas do Brasil todo em uma perspectiva de associar aquele símbolo a um significado”, explicou.
Propaganda
A partir do dia 16 de agosto, segundo o calendário eleitoral 2022, será permitida a propaganda eleitoral, inclusive na internet; será permitida a realização de comícios e utilizar aparelhagem de sonorização fixa entre as 8h e as 24h; poderá haver distribuição de material gráfico, caminhada, carreata ou passeata, até as 22h do dia 1° de outubro.
Espontâneo

Sociólogo Luiz Antônio Nascimento diz que a venda de toalhas dos candidatos é um processo espontâneo que tem sido comum nas eleições (Foto: Reprodução)
“Esse processo com a toalha ganhou uma dimensão espontânea e isso é algo comum nas eleições. A gente pode lembrar que em 2018 o que ganhou escala foi uma máscara do Lula, que estava preso, e passou a ser utilizada no carnaval daquele ano. Por que não se criou uma do Haddad? Porque não dava liga, não tinha a ideia de signo e significado. Temos também a bandeira brasileira, uma caraterística da direita, em especial, da extrema-direita, que tem uma tendência a se associar a elementos nacionais. Se olharmos mais longe na história, veremos que Hitler também fez isso, assim como Mussolini. Trump também fez isso”, avalia o sociólogo Luiz Antônio Nascimento.
Sem ‘pedido expresso’
A reportagem procurou o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) para saber como a Justiça acompanha a popularização das toalhas, já que há uma dúvida sobre se as vendas representam algum tipo de propaganda eleitoral antecipada. O supervisor geral da Comissão de Propaganda, Ruy Melo de Oliveira, diz que o assuntou chegou a ser debatido internamente.
“Entendemos que não tem elementos suficientes para se caracterizar como uma propaganda antecipada. A lei diz que precisa haver o pedido expresso de voto, então é uma linha muito tênue dizer que essas toalhas têm, embutido, um pedido explícito de voto. Se tivesse alguma inscrição de ‘preciso do seu voto’, mas não existe nenhuma legenda, é simplesmente a fotografia”, disse Ruy Melo.
A advogada especialista em direito eleitoral Maria Benigno ressalta que a Justiça Eleitoral tem “buscado uma atuação minimalista, deixando ao eleitor a possibilidade de conhecer os concorrentes e decidir”. Como alguém que estuda e acompanha a corrida eleitoral, acredita que há chance de as toalhas influenciarem nos votos.
“Comerciantes estão produzindo essas toalhas que vêm sendo adquiridas pelos eleitores de acordo com as suas preferências. Sabendo que uma candidatura está sendo maior na procura, não se descarta a possibilidade de isso influenciar eleitores indecisos”, reflete.