Eleições: urnas avaliam duas visões de Amazônia
País decidirá neste domingo entre duas propostas diferentes para a Amazônia, do meio ambiente à economia
O futuro da Amazônia será definido neste domingo, quando os brasileiros vão às urnas para escolher o presidente do país para os próximos quatro anos. A visão de Flávio Bolsonaro (PL) é marcada pela flexibilização da fiscalização, permissão para exploração de áreas protegidas e cooperação de países vizinhos para combater o narcotráfico na região. Com Lula (PT), a promessa é fortalecer o combate aos crimes ambientais e investir na economia da biodiversidade.
Essas são algumas das propostas entregues pelos candidatos à Justiça Eleitoral. Pelo resultado do primeiro turno, dos nove estados da Amazônia Legal, cinco deram vitória a Flávio (Acre, Roraima, Rondônia, Mato Grosso e Tocantins) e quatro para Lula (Amazonas, Pará, Maranhão e Amapá).
Flexibilização e exploração
O diferencial de um eventual governo Flávio Bolsonaro na Amazônia é o afrouxamento das medidas de comando e controle na região. O candidato fala em seu plano, por exemplo, que “o rigor da fiscalização será dirigido a quem comanda o crime organizado, não a quem vive na floresta. O morador da Amazônia, o ribeirinho, o pequeno produtor, o extrativista, não será tratado como criminoso”.
A campanha também promete dar “autonomia aos povos indígenas e quilombolas para decidir sobre atividades produtivas em suas terras”, uma sinalização para exploração econômica dessas áreas, como a mineração, uma política que seu pai, Jair Bolsonaro, tentou fazer avançar em seu governo, sem sucesso.
Coordenador da campanha de Flávio no estado, o deputado federal Alberto Neto (PL) diz que os crimes ambientais na região, como o desmatamento e queimadas, são fruto de ausências de políticas públicas, o que seria trabalhado em um eventual governo Bolsonaro.
“Não tenha dúvida de que quando nós levarmos a educação, uma economia forte, mostrando a importância de proteger a floresta, tendo um diálogo com o nosso produtor rural, com regularização fundiária, levando tecnologia para o homem do campo, vamos reduzir isso. Muitas dessas queimadas acontecem porque o PT, durante 20 anos, abandonou o nosso produtor rural”, disse ele.
Combate a crimes e escuta em projetos
Em seu plano, o petista destaca que o governo alcançou o menor nível de desmatamento da história da Amazônia. Além disso, se compromete a fortalecer as ações de segurança, inclusive patrulhamento aéreo e fluvial, com aquisição de drones, radares e sensores, para monitorar a região e combater os crimes ambientais, entre eles, a mineração ilegal.
O coordenador da campanha de Lula no Amazonas, Marcelo Ramos, diz que Lula dá atenção ao combate para os crimes ambientais, mas sem deixar de discutir o desenvolvimento da região.
“A fiscalização é uma coisa super importante, mas você dialogar sobre alternativas econômicas para essa população tradicional também está no nosso radar”, comenta.
Por outro lado, o governo Lula já foi alvo de críticas de entidades ambientalistas e do movimento indígena por avançar em projetos de grande impacto socioambiental, como a rodovia BR-319 e a concessão dos rios Madeira, Tapajós e Tocantins à iniciativa privada para construção de hidrovias.

Marcelo diz que o presidente nunca enxergou nas questões ambientais um empecilho para o desenvolvimento e, ao mesmo tempo, se mostrou aberto a discutir a redução dos impactos dessas obras. “O presidente sempre teve a sensibilidade de garantir desenvolvimento adequando os mecanismos de proteção, de mitigação e de compensação de qualquer dano ambiental que porventura aconteça em decorrência de ações de infraestrutura”.
Lula vê ZFM como trunfo
Em relação à pauta econômica, o principal trunfo de Lula no Amazonas é a inclusão da Zona Franca de Manaus na Constituição, por meio da reforma tributária aprovada em seu governo. Marcelo Ramos diz que o presidente, em um novo mandato, quer avançar na discussão sobre matrizes complementares ao modelo econômico que sustenta o estado.
“A visão do presidente parte da premissa de que a manutenção da Zona Franca é a base econômica capaz de gerar riqueza para que a gente possa desenvolver outras potencialidades”, destaca, e acrescenta, “por isso é tão temerária a visão do Flávio para a economia do Amazonas, principalmente quando ele parte da premissa de suspender por um ano os efeitos da reforma”.
Marcelo diz ainda que o petista enxerga na bioeconomia um caminho para ampliar as matrizes da região e cita a independência jurídica garantida pelo governo ao Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA), que trabalha em Manaus esta pauta. No plano de Lula, a Amazônia é apontada como “eixo estratégico” para desenvolver os negócios a partir da matéria-prima da floresta.
O presidente também tem defendido a exploração das terras raras em uma indústria nacional, o que passa pela Amazônia, considerando as reservas comprovadas na região. Atualmente, a empresa BBX do Brasil está em processo de licenciamento para explorar os elementos raros em Apuí, no sul do Amazonas.
Flávio defende a bioeconomia
Quando veio a Manaus durante a campanha eleitoral, Flávio apareceu com uma camiseta cuja estampa dizia “100% Zona Franca”. O objetivo era sinalizar um apoio ao modelo após não somente ter criticado os benefícios garantidos à Zona Franca na reforma tributária, em 2024, mas também pelo histórico do pai, Jair Bolsonaro, de medidas efetivas para enterrar o modelo, como a redução de incentivos tributários.

Alberto Neto lembra que Flávio esteve duas vezes em Manaus durante a campanha, ao contrário de Lula, que não veio nenhuma, e diz que o candidato do PL firmou compromissos de defesa da Zona Franca ao visitar a fábrica da Moto Honda, maior empregadora do Polo Industrial. “É um modelo exitoso que protege a floresta e traz desenvolvimento para a região”, disse, buscando amenizar o histórico da família Bolsonaro contra o Polo Industrial.
Para além da indústria, Alberto Neto diz que Flávio enxerga um potencial forte na bioeconomia para a Amazônia e o Amazonas. Entre as propostas, está o desenvolvimento de cadeias produtivas, inclusive associadas à Zona Franca, para gerar renda na capital e no interior do estado. “A nossa floresta tem a maior biodiversidade do planeta. Não transformar isso em uma economia forte é um desperdício muito grande”, defendeu.
Em relação às terras raras, Flávio tem defendido a exploração com foco no desenvolvimento nacional, mas já deixou claro que sua visão está atrelada aos interesses dos Estados Unidos. Em março, durante congresso no país norte-americano, o candidato afirmou que “o Brasil é a solução para os EUA terem minerais de terras raras”, reduzindo a dependência dos americanos com a China.