Indígenas do Javari relatam falta de assistência para votar no 2º turno
Eleitores viajaram dias até Atalaia do Norte e cobram combustível, alimentação e água para retornar às comunidades
Indígenas do Vale do Javari que viajaram mais de cinco dias para votar neste segundo turno em Atalaia do Norte (AM) estão sem combustível para retornar às aldeias. O grupo, que inclui crianças e idosos, também não tem garantia de água e alimentação, apesar de a Justiça Eleitoral ter decidido nesta semana que prefeituras, juízes e associações atuassem para assegurar esse suporte.
Um dos grupos, de pelo menos 30 indígenas das etnias Kanamari e Kulina, está abrigado em uma balsa cedida pela prefeitura no porto da cidade.
“Não tem água, não tem gás para fazer comida, não tem alimento e não tem logística de retorno para as aldeias. É muito preocupante”, afirmou uma liderança indígena que pediu anonimato por temer represálias.
Outra liderança que não será identificada afirmou que pelo menos 500 indígenas da região deixaram de votar no primeiro turno, e que essa dificuldade de exercer o direito constitucional ao voto é algo histórico da região. Além disso, o problema também existe para quem faz o caminho inverso para votar.
“Temos parentes que se mudaram para a cidade em busca de melhores condições de vida, de estudo para os seus filhos, mas não transferiram seu local de votação. Algumas aldeias têm urna. Agora eles também não têm condições de voltar lá para poder votar”, conta.
Promessa
A falta de apoio aos indígenas da região ganhou repercussão nacional após a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) pedir à Justiça Eleitoral transporte gratuito, água e alimentação, mas ter a solicitação negada, sob alegação de falta de orçamento, prazo e viabilidade logística.
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Depois, em reunião com a Justiça Eleitoral, a Prefeitura de Atalaia do Norte, a Univaja e órgãos indígenas, ficou acertado que o município forneceria apoio logístico e combustível para o deslocamento dos eleitores. A prefeitura confirmou a mobilização, e a Univaja afirmou que o apoio estava garantido.
Neste domingo (25), o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), recuou de uma decisão anterior e autorizou o uso de embarcações e veículos de órgãos federais para transporte de indígenas, desde que cada trajeto seja comunicado à Justiça Eleitoral.
A reportagem procurou o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) e aguarda retorno.
‘Fake News’
À reportagem, o prefeito de Atalaia do Norte, Denis Paiva, chamou de “fake news” a denúncia de falta de assistência aos indígenas. Segundo ele, a prefeitura construiu balsas para que os grupos tenham onde se abrigar, além de ter doado combustível para que os indígenas chegassem à cidade.
“Não tem município no Amazonas que tenha a estrutura que nós temos para atender os indígenas. Essas denúncias são desencontro de informações que um grupo aproveita pra fazer críticas por questões políticas à nossa gestão”, argumentou.
Questionado sobre quantos litros de combustível foram doados, além do quantitativo de água e alimentação, o gestor municipal disse que a prefeitura fará o levantamento dos dados para informar à reportagem. Quando houver retorno, este material será atualizado.