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A Crítica
Política

‘Prejuízos na seca são como a economia na pandemia’

Co-fundador do Impact Hub Manaus avalia que os prejuízos da estiagem histórica no Amazonas são similares aos vistos durante a pandemia de Covid-19

Publicado em 03/11/2024 às 10h20 · Atualizado em 04/11/2024 às 12h30
‘Prejuízos na seca são como a economia na pandemia’
Foto: Daniel Brandão/A Crítica

Co-fundador do Impact Hub Manaus e atual presidente do Impact Hub Brasil, iniciativa que busca acelerar negócios promover o impacto positivo na Amazônia, o gestor de negócios Marcus Bessa compara o isolamento provocado pela estiagem ao período de pandemia de Covid-19 no que diz respeito aos negócios na região. Segundo ele, o tempo parado para quem trabalha com produtos no interior do estado precisa de um intenso planejamento. Confira a entrevista completa.

O que faz o Impact Hub?

Nós somos um centro de empreendedorismo e inovação social. Somos uma associação global, então a gente está presente em mais de 100 cidades no mundo afora, e aqui no Brasil nós somos 12, mas não somos franquia. Cada Impact Hub é independente um do outro. E o foco principal da gente é trabalhar em empreendedorismo e inovação social, e aí cada Impact Hub vai decidir como que isso vai para a prática, diretamente ligado ao seu território, a cidade que está presente. 

Em todo Impact Hub você vai encontrar três pilares, que são aqueles que a gente desenvolve o nosso negócio. O pilar número um é o espaço. Então a gente se entende muito como um espaço, como um hub de inovação, onde as pessoas vão se conectar, vão testar, prototipar, vão aprender algo, então é muito desse lugar. As pessoas falam “é um coworking?” e a gente fala “não”. A gente é um hub de inovação, porque para a gente o espaço é o meio e não o fim. É a casa do saber e o ponto de encontro. Dessa forma que a gente entende esse pilar de espaço. 

O segundo pilar é de comunidade vibrante, que a gente chama, que são as pessoas que fazem parte dessa rede. Hoje a gente tem mais de 400 membros na rede daqui de Manaus, que estão ou fisicamente aqui no espaço ou estão ligadas de alguma forma por projetos ou por conteúdos. E o último pilar que a gente chama de conteúdo significativo, que é desde uma roda de conversa sobre temas que não são falados em qualquer lugar a grandes eventos como a gente realizou na semana passada o Finsa, que é para mobilizar uma massa e vários atores desse ecossistema de impacto.

Mas ainda dentro desse pilar de conteúdo a gente trabalha com aceleração, incubação, mobilização comunitária e algumas outras ações de educação. 

Como cada um desses pontos é trabalhado?

O nosso foco hoje está muito nesse último que é o de conteúdo significativo. Porque é através dele que a gente trabalha a nossa estratégia de desenvolvimento de projetos e ações dentro da região amazônica. Então dentro desse pilar de conteúdo a gente criou dois eixos estratégicos. O primeiro deles é desenvolvimento de negócios que é muito ligado à essência do Impact Hub. Como a gente trabalha negócios desde a ideação, fazer com que uma ideia saia do papel e ganhe prática, como a gente trabalha a busca de soluções para algumas demandas de algumas empresas ou governo.

Uma das iniciativas é o Lab de Impacto. Como ele funciona exatamente?

O Lab de Impacto é o nosso programa de aceleração para negócios em estágio inicial da região da Amazônia Legal. A gente, em 2020 e 2021, no período da pandemia, decidiu que ia começar a investir nos negócios. Além de acelerar, porque a gente já realizava aceleração. 

Só que a gente queria entender onde que o nosso recurso ia ser mais efetivo. Então a gente fez um estudo e entendeu que boa parte dos negócios da nossa região estão em estágio inicial. A linha MVP e Piloto, e que eles precisavam de um investimento pequeno, nada na casa dos milhões, coisa de R$ 50 mil a R$ 100 mil. Na verdade, as acelerações mais continuadas, mais longas, elas mais atrapalhavam do que ajudavam. Então a gente criou o Lab bem customizado. Ele é um programa de aceleração que faz um investimento de R$ 30 mil a R$ 100 mil para negócios em estágio inicial que já estejam operando, que já estejam faturando, mas que estejam no estágio inicial.

Em 2023, foram mais de 100 pessoas inscritas. Alguns negócios foram selecionados. Agora em 2024, quantas pessoas já entraram? 

Neste ano ainda irá ocorrer. A gente sempre abre edital no final do ano corrente para selecionar no início do ano seguinte. Mas, por exemplo, nessas cidades que a gente fez, a gente já selecionou três negócios por cidade. Porque isso aí é um pocket do Lab. Esse outro que foi de 117, a gente fez para toda a Amazônia Legal. 

Esse que a gente fez agora, ele é direto na própria cidade. Então só para os negócios da cidade. Esse a gente teve mais de 50 inscritos por cidade e selecionamos três, que a gente deve anunciar na próxima semana esses três negócios. Tem negócio ligado a mel, tem negócio ligado a farinha, a pirarucu, a turismo de base comunitária, a nanotecnologia ligada à bioeconomia.

Além do Lab de impacto, quais outras iniciativas diretas vocês têm para esses negócios?

Além do Lab, a gente tem outro programa chamado Teçume, que é uma rede de investidoras mulheres para a gente destravar investimento local. Por que a gente também caminhou para esse lado? Desses 14 negócios que a gente selecionou em 2023 do Lab, 12 deles eram liderados por mulheres. Então isso é um dado bem interessante, porque sempre falam que não tem tantos negócios liderados por mulheres, mas é porque elas sempre estão ali no estágio inicial.

A gente também pensou, como que a gente pode trazer mais recurso financeiro para esses negócios? Assim a gente criou, e aí é liderado pela Juliana, minha sócia, a Teçume, que é essa rede de investidoras mulheres, onde a gente conecta essas investidoras com negócios pequenos também liderados por mulheres. E a gente está fazendo um primeiro teste lá em Paricatuba. Já que a gente estava lá interagindo muito com a cidade, com a vila, a gente pensou, talvez o Teçume tenha que trabalhar com os negócios das mulheres de Paricatuba. Assim a gente selecionou 12 mulheres de todas as áreas. Tem de gastronomia, de artesanato, de turismo, de moda, e a gente vai investir até R$ 50 mil nessas mulheres e fazer aceleração também.
Marcus Bessa ressaltou que o tempo parado para quem trabalha com produtos no interior do estado precisa de um intenso planejamento. (Foto: Daniel Brandão/A Crítica)

 

Esse modelo de negócios, de startups, de financiamento de apoio, não nasceu aqui. Funciona bem para a realidade da cultura econômica daqui da região? 

Algumas coisas sim, outras não. Eu acho que a gente tem que fazer, e a gente faz, muitas adaptações. Desde nomenclaturas a processos. Então, por exemplo, há um processo que é ABCD. Vai ter um território que o D vai vir primeiro, porque senão não vai funcionar. Senão a gente não vai chegar nos resultados interessantes. E a gente sempre fala que tem que juntar esses dois mundos, porque não adianta só a gente entender a realidade local, mas a gente também tem que entender o que o mundo está falando e fazendo. E fazer essas adaptações. É quase que um encaixe ali.

Porque o mundo está em toda essa ebulição, desenvolvendo negócios, tecnologia, acessando investimento. E a gente, que tem esse grande ativo da sociobiodiversidade, não está fazendo parte desse processo aqui. Então, como que a gente entra? Então, acho que tem que ter dois movimentos. Um encaixe daqui e outro daqui. E outra coisa que a gente sempre fala, “vamos diminuir a régua para que a realidade amazônica faça parte disso?”. Acho que não é esse o lugar de diminuir a régua. É como que a gente adapta essa régua para que essa realidade aqui consiga acessar e trazer todos os conhecimentos que a gente tem aqui. 

Tem quem critique esse tipo de iniciativa, geralmente com o argumento de que está se transformando a floresta em produto. Como o Impact Hub lida com esse tipo de visão?

A gente acredita que não pode colocar tudo no mesmo cesto. Então, por exemplo, no Lab, a gente tem, mesmo nesse estágio, que é aqui no iniciozinho, a gente tem vários tipos de negócios diferentes. Então, a gente tem um negócio que é de biojóia. Esse negócio não vai ser escalável, não vai produzir mil colares por hora, não vai chegar nesse lugar, mas tem um impacto em profundidade.

Porque toda a cadeia que ela está movimentando ali, na comunidade que ela mora, está empregando mulheres, fazendo com que alguns produtos que são jogados na floresta sejam reaproveitados e se transformem em uma biojóia. Isso é um impacto. Um impacto local em profundidade. E ela está em estágio inicial. Ao mesmo tempo, a gente tem um outro negócio que criou uma tecnologia para alimentação de peixe, que é uma ampola. Ao invés de usar uma saca de ração pesada, em uma ampola, ele alimenta a mesma quantidade de tanques. Ou até mais que uma saca. Ele tem super possibilidade de escalar e ir para vários lugares, para vários momentos e vários territórios.

A gente teve algumas situações nesse ano de queimadas, de fumaça. Esse tipo de problema que não foi solucionado tanto pelo governo estadual quanto federal impacta na imagem dos negócios aqui da região? 

Não só impacta na imagem, mas impacta principalmente no caixa deles. Por exemplo, vamos falar da seca, nem vou falar das queimadas. Tem negócio nosso que vai ficar quatro meses sem operar porque não tem nem como chegar lá. Não tem como as pessoas se hospedarem lá. Não tem como as pessoas irem até lá. Não tem como eles escoarem a produção deles. Então, o que eles conseguiram produzir, eles trouxeram e deixaram aqui.

Tem lugares que estão ilhados. Se você pega 12 meses de trabalho, desses 12 meses, eu só tenho 8 meses de trabalho. Então, esses 8 meses, eles têm que pagar 12 no final das contas. Isso impacta drasticamente. Outro problema, quando a gente fala dos nossos programas de formação, tem formação que a gente deixou de fazer. Por exemplo, tem Fonte Boa, que é lá próximo a Tefé. A gente segurou e vai voltar em janeiro porque não tinha como chegar lá. Não tem como levar as pessoas que estão executando essa formação para lá. Então, impacta de tantas formas, não só em acesso, como em faturamento. O que a gente faz aqui do nosso lado, é com a nossa visão de planejamento, de entendimento. Como que a gente traz tudo para o início e segura um pouco para depois. É muita gestão, governança, fluxo de caixa. Negociação com fornecedor e com cliente.

É quase como que a gente tivesse que reviver aquele período da pandemia todos os anos. Tipo, vai fechar por tanto tempo. Como que a gente se estrutura para o negócio não fechar. Só para as portas pararem aqui por um tempo.

Perfil

Marcus Bessa

Estudos: Graduado em Educação Física (Ufam) e Língua Portuguesa (UEA). MBA em Gestão Estratégica e Econômicas de Negócios (FGV).

Experiência:  É co-fundador do Impact Hub Manaus e presidente do Impact Hub Brasil. Atuou como consultor de negócios, gestor de projetos e captador de recursos, dentre outras funções.