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A Crítica
Política

Uma década: o que mudou desde os atos de junho de 2013?

Especialistas consideram momento único na consolidação de movimentos conservadores, mas também de esquerda

Publicado em 03/06/2023 às 11h32 · Atualizado em 03/06/2023 às 11h42
Uma década: o que mudou desde os atos de junho de 2013?
Foto: Arquivo/A Crítica

Há dez anos, o então estudante Ageu Pontes, de 15 anos, saía de casa pela primeira vez para participar de um protesto de rua. Ele, que já tinha algum interesse pela política, foi motivado por amigos da escola e por publicações nas redes sociais que chamavam para atos contra a ex-presidente Dilma Rousseff (PT). 

“Em 2013, eu participei só de uma manifestação, que foi aquela grande. Lembro que fui andando da Praça da Polícia até o Sambódromo. De lá, eu desci e fui participar na avenida Brasil. Nessa última, alguns manifestantes vandalizaram comércios, tacaram fogos em um ônibus”, lembra ele, hoje com 27 anos.

Os protestos, que começaram após o aumento das passagens de ônibus em diferentes cidades do Brasil, logo se tornaram campo de diversas bandeiras: pela saúde, educação, contra a corrupção e pela redução dos preços dos combustíveis – só para dar alguns exemplos.

Ageu, que já se interessava por política, passou a acompanhar cada vez mais os acontecimentos nacionais e se tornou membro do Movimento Brasil Livre (MBL), um dos grupos que surgiram naquele contexto. No período, conheceu o então deputado federal Jair Bolsonaro e se tornou um dos seus seguidores, criando o Movimento Conservador Amazonas. 


Multidão tomou conta das ruas do centro de Manaus em junho de 2013 (Arquivo/A Crítica)

 

“A política mudou bastante de 2013 para cá. Alavancou outros protestos, como apoio ao Bolsonaro, à operação Lava Jato, contra o Lula, que teve bastante também. Mudou bastante [a política], porque começou aquela briga de lados entre direita e esquerda”, comenta.

Difusos

O caminho feito por Ageu é apenas um dentre outros percorridos pela população no período, seja mais à esquerda ou mais à direita. O mestre em Sociologia (Ufam), Alex Sander Pereira Regis, autor do artigo ‘Multidão nas Ruas: Notas sobre um Debate’ (2013), descreve o período.

“Uma multidão de pessoas em diferentes partes do país se mobilizou em torno de insatisfações muito objetivas, apresentando pautas muito difusas, mas que representavam uma indignação muito concreta em torno da agenda urbana, do direito à cidade, por mais qualidade vida”, pontua.

Memória

Diferentes municípios do Amazonas registraram uma série de protestos em 2013, mas o de maior participação popular aconteceu no dia 20 de junho, em Manaus: mais de 100 mil pessoas tomaram as ruas em diferentes pontos da cidade.

Um dos grupos foi até a avenida Brasil, onde comércios e veículos foram depredados, um ônibus incendiado e tentou-se invadir o prédio da Prefeitura de Manaus. A Polícia Militar chegou a entrar em confronto com os manifestantes e usar balas de borracha, spray de pimenta e bombas de efeito moral.    

Reflexos

Segundo o professor, “junho de 2013” continua em movimento. Não apenas pelos reflexos gerados na política até hoje, mas também por diferentes interpretações a respeito do que aconteceu.


Protestos de junho de 2013 acumularam as mais diferentes pautas: redução do preço da passagem de ônibus até a defesa da educação, saúde e crítica a partidos políticos e parlamentares (Arquivo/A Crítica)

 

Há quem associe, por exemplo, a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e a tentativa de golpe de Estado, em janeiro deste ano, aos protestos de 2013. 

“Não dá para dizer que foi um reflexo, mas é uma variável que serve para explicar a conjuntura atual. Relações simplistas não são aceitas pela sociologia. É sempre uma constelação de elementos”, diz.

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‘Não é só pelos R$ 0,20 centavos’

Assim como  em São Paulo, onde o aumento da passagem foi de R$ 0,20, a tarifa do ônibus em Manaus foi ajustada de R$ 2,75 para R$ 3. Prefeito à época, Arthur chegou a reduzir o preço em R$ 0,10, mas não foi o suficiente para impedir os atos de rua.

À época com 14 anos, Lucas dos Santos Teixeira passou a acompanhar a política em razão dos protestos de 2013. Ele não chegou a ir para a rua, mas ajudava em ‘protestos virtuais’ que consistiam em combinar uma série de comentários nas publicações de parlamentares para fazer cobranças. Um dos principais a coordenar esses atos era o MBL.

“Comecei a acompanhar no segundo momento, não era mais pelo passe livre, mas pela insatisfação geral com a política, porque todo dia na televisão era um escândalo diferente. A Lava Jato estava começando, mas já existia essa insatisfação. Como a maioria das pessoas, comecei a me engajar pelas redes sociais”, diz ele, agora com 24 anos.

Com o tempo, Lucas diz que passou a se conhecer mais “enquanto agente político” e entender “o que realmente significava o movimento”.

“Entendi que as pessoas que eu estava do lado nunca estiveram do meu, então, virei a chave e fui para a esquerda. Por causa disso, entendi junho de 2013 como uma movimentação espontânea de início, mas por falta de uma figura centralizadora, acabou tendo suas pautas sequestradas por uma movimentação orquestrada contra o governo do PT”, afirma.

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Alex Sander Pereira,  mestre em Sociologia (Ufam)

“Não é verdade  que  apenas se consolidaram forças conservadoras.  Junho de 2013 também fortaleceu a emergência de forças mais à esquerda. Só para dar um exemplo, tivemos a criação do partido Unidade Popular pelo Socialismo, que conseguiu mais de um milhão de assinaturas e se estabeleceu como um partido mais à esquerda. Teve o fortalecimento de greves e uma  ampliação da chamada questão social, incorporando questões de maneira mais ampla e contundente, como as raciais, feministas, dos sem-teto, LGBT, ou seja, questões pertinentes  mais à esquerda. Outra leitura reduz 2013 do ponto de vista do povo, que estaria sendo lesado, porque uma elite política estaria capturando o Estado, a democracia estaria em crise e seria necessário fazer uma limpeza. Na esteira dessa interpretação, se consolida a Lava Jato e cria as condições, junto com a  mídia hegemônica, para a ascensão posterior de um partido mais à direita.

Comentário

Thiago Lima mestre em sociologia (Ufam)

‘O peso das redes sociais’

As redes sociais sempre apareciam como um veículo de comunicação desde o Movimento Passe Livre até essa dinâmica de cooptação que houve pelo MBL e por outros movimentos políticos, na esquerda e na direita. E isso não está desassociado do que chamamos de grande mídia. Não é que as redes surgiram como contraponto, mas sim como um novo meio de comunicação que influenciava nessa dinâmica toda. O uso dessas redes também não foi uma coisa nova em 2013, mas só ganhou uma dimensão maior. O  Movimento Passe Livre, por exemplo, muitas convocatórias já eram feitas muito antes, tinha um histórico de articulação por meio das mídias. O impacto das redes nessa articulação só cresceu desde 2013, mas não iniciou nesse ano. E o governo Bolsonaro foi talvez o grande herdeiro disso tudo, mas é importante salientar que não foi o único. Em certas narrativas se ouve que a esquerda não soube usar as redes, mas a questão é muito mais complexa que isso.