União Brasil ‘engole’ Progressistas em federação no Amazonas
Federação formada pelos dois partidos nesta terça-feira (29) tem, no Amazonas, o partido com a maior quantidade de cargos eletivos e outra sigla com baixa expressão
O União Brasil e o Partido Progressistas (PP) oficializaram nesta terça-feira a sua ‘fusão’ na federação União Progressista. A bancada, com 123 parlamentares, será a maior do Congresso brasileiro. O movimento está diretamente ligado às eleições de 2026 e a um novo contexto de inelegibilidade de lideranças da extrema-direita, como o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
No Amazonas, a junção representa a soma do partido com a maior quantidade de cargos eletivos, incluindo prefeitos, deputados e parte dos vereadores — União Brasil — com uma sigla que tem pouca expressão nessas vagas — o PP, presidido pelo vereador de Manaus Rodrigo Sá, no estado.
Um levantamento de A CRÍTICA aponta que 24 dos 62 prefeitos do Amazonas eleitos em 2024 foram às urnas pelo União Brasil, partido que hoje é comandado pelo governador do Estado, Wilson Lima. A nova federação também será presidida por ele ao nível estadual.
Embora a sigla tenha, hoje, mais de um terço das prefeituras amazonenses, esse cenário pode mudar até a eleição do próximo ano, quando o senador Omar Aziz (PSD) pretende disputar o governo. Em um evento na semana passada, ele e o senador Eduardo Braga (MDB) conseguiram reunir todos os 62 prefeitos do Amazonas, incluindo David Almeida (Avante), de Manaus.
O PP, por sua vez, possui somente uma prefeitura no estado. É o município de Autazes, de Thomé Neto (PP). Depois do União Brasil, os partidos com mais prefeituras no Amazonas são MDB (15), do senador Eduardo Braga; Republicanos (9), do deputado federal Silas Câmara; e PSD (5), de Omar Aziz.
“Houve um entendimento entre as lideranças do partido e também com os seus membros sobre o caminho que se deveria seguir nesse momento. Isso é importante não só para a União e para o PP, mas também para o Brasil, porque aqui está reunida a maior concentração de força política do Brasil”, afirmou o governador Wilson Lima.
“São seis governadores, mais de 100 deputados federais e 14 senadores. É a maior quantidade de prefeitos do Brasil, a maior quantidade de vereadores no Brasil. Então, tudo isso vai ser importante para apontar os caminhos que o Brasil deve seguir para os próximos anos”, acrescentou.
Casas Legislativas
Na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), o cenário é similar. O partido com a maior quantidade de cadeiras é o União Brasil, que também tem a presidência da casa por meio do deputado Roberto Cidade. O político também é o presidente municipal da sigla, e deve se manter no cargo na federação a ser criada.
Já o PP não elegeu nenhum deputado estadual nas eleições de 2022. Depois do União Brasil, os partidos com as maiores bancadas são o Avante (4), do prefeito David Almeida; e PL (3), do ex-senador Alfredo Nascimento.
A Câmara Municipal de Manaus (CMM) é a única onde o União Brasil não tem maioria. O partido do governador ocupa a segunda maior bancada, com seis vereadores eleitos, contra sete parlamentares do Avante, partido do prefeito, que possui a maior expressão na Casa. O terceiro partido com mais vereadores é o PL, com quatro membros.
Em relação aos deputados federais, o União Brasil elegeu dois em 2022 — Saullo Vianna e Fausto Júnior — empatado com PSD (2) e Republicanos (2). Atualmente, Saullo Vianna está licenciado do cargo e ocupa a Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania (Semasc) de Manaus. No lugar dele, está o deputado federal Pauderney Avelino, suplente do União.
Fusão com vistas a 2026
O casamento de dois partidos que representam o chamado ‘Centrão’, o União Brasil e o PP, é um movimento que mira diretamente a eleição presidencial de 2026. Atualmente, ambas as siglas possuem ministérios no governo Lula — logo, fazem parte dele em alguma medida. No entanto, há pressão interna e de nomes da direita para que os dois partidos desembarquem da gestão petista.
“Esse movimento da fusão entre o União Brasil e o PP está diretamente ligado à eleição de 2026. Resta saber agora, a partir do anúncio dos dirigentes, se a federação continuará no governo Lula ou se vai informar a sua retirada”, afirma o deputado federal licenciado do União, Saullo Vianna.
Vale lembrar que o União Brasil já é a fusão de outros dois partidos de direita: o então Democratas (DEM) com o Partido Social Liberal (PSL), que era ‘nanico’ antes de eleger o ex-presidente Jair Bolsonaro em 2018.
Para o sociólogo Marcelo Seráfico, professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a fusão deve produzir ao menos duas consequências centrais. “Provavelmente, as duas maiores mudanças decorrentes do ajuntamento desses dois partidos são o surgimento de uma nova sigla e uma nova correlação de forças em termos de quem serão seus principais líderes, logo, os que representarão a bancada nas negociações com o Executivo, particularmente, mas também no que diz respeito às pautas a serem priorizadas”, afirma.
Seráfico pondera, contudo, que ainda é cedo para uma análise conclusiva. “É preciso aguardar para ver o significado objetivo desse processo. Mas essas movimentações têm a ver com as mudanças em curso no jogo partidário-eleitoral, mudanças essas que incluem a inelegibilidade de Jair Bolsonaro e de Pablo Marçal, nomes da extrema-direita cuja presença na cena política definia muitas das decisões estratégicas dos conservadores e reacionários”, analisa.
“Logo, esse ajuntamento desloca o PL para uma posição secundária. Mas se esse deslocamento significará um aprofundamento do extremismo de direita ou do puro e simples fisiologismo, como é mais comum, é preciso aguardar para saber”, completa o sociólogo.
Federação
As conversas entre União Brasil e PP sobre a criação de uma federação partidária já vinham ocorrendo há meses, mas enfrentavam obstáculos, como divergências entre membros das duas siglas em alguns estados e o papel central exercido pelo deputado Arthur Lira (PP-AL) nas negociações.
Na federação, os partidos se comprometem a atuar como uma única legenda por um período mínimo de quatro anos, unificando estratégias e votações no Congresso. Ficou definido que a presidência da nova federação será alternada entre representantes das duas siglas. Inicialmente, a liderança será compartilhada entre Ciro Nogueira (PP) e Antonio Rueda (União Brasil) até dezembro. Após esse período, a federação passará a ter somente um presidente, escolhido entre os dois grupos.