Alimentação como autocuidado
Mais do que uma dieta, o mindful eating propõe reconexão com o ato de se alimentar, ajudando a reduzir a ansiedade e a melhorar a digestão
Em um mundo de refeições apressadas e distrações constantes, surge uma proposta que vai além das dietas tradicionais: o mindful eating – ou alimentação consciente. A prática, que convida a comer com atenção plena, transforma o simples ato de se alimentar em um exercício de autoconsciência, capaz de reduzir a ansiedade, melhorar a digestão e resgatar uma relação mais equilibrada e saudável com a comida.
Conforme a médica especializada em medicina do esporte e emagrecimento, Amanda Alcântara, o mindful eating busca promover a união entre nutrição, alimentação e atenção plena.
“O objetivo é resgatar realmente a conexão entre corpo, mente e comida. O objetivo é, realmente, estar presente durante a última refeição. Você vai perceber as cores, o cheiro, a textura e os sabores. Quantas vezes você já não comeu um alimento e só engoliu, não percebendo nada disso?”, questionou a médica.
Ouvir os sinais internos de fome e saciedade, comer com consciência, devagar e sem julgamento – percebendo o impacto do alimento no corpo e valorizando aquele momento como uma parte de autocuidado.
“Realizar essa prática é muito importante, porque você vai desenvolvendo um autoconhecimento alimentar que é extremamente essencial, tanto para quem quer emagrecer quanto para quem quer ter uma qualidade de vida, uma vida menos ansiosa e mais presente”, acrescentou Amanda.
De acordo com ela, algumas pessoas “comem as emoções”, por estarem mais ansiosas, estressadas, tristes ou, até mesmo, mais alegres.
“Se você começa a praticar e a comer com mais atenção, isso pode realmente diminuir a ansiedade e o seu estresse, diminuindo os gatilhos de fome emocional, porque você vai começar a aprender a estar presente no ato de comer, irrompendo daquele ciclo de alimentação completamente automática, que é guiado pela pressa, pelo celular e pela televisão”, destacou.
“Sabe quando você está comendo e não presta atenção nem no que está ingerindo [porque você está rolando a tela do celular]? Se você parar de fazer isso, estiver presente realmente, isso reduz a ansiedade, vai diminuir os seus episódios de compulsão, porque o teu cérebro vai ter tempo de processar essa saciedade. Isso favorece escolhas mais equilibradas, porque evita a culpa, o estresse e transforma a refeição em um momento de pausa, de autoconhecimento e cuidado”, acrescentou a médica.

Conforme a médica especializada em medicina do esporte e emagrecimento, Amanda Alcântara, o mindful eating busca promover a união entre nutrição, alimentação e atenção plena (Divulgação)
Impacto
Amanda Alcântara explica que o mindful eating impacta positivamente não apenas a digestão, mas também a assimilação de nutrientes.
“O nosso sistema de digestão dos alimentos começa na boca, ele não começa no estômago. Então, a mastigação é muito importante, porque vai iniciando toda nossa digestão, que vai ser feita de uma forma mais eficiente, principalmente, se o alimento for bastante mastigado. Se a gente come devagar e come no estado de atenção plena, observando os alimentos, o corpo ativa um sistema nosso, que é chamado de parassimpático, responsável pela nossa digestão. Então, isso melhora muito a produção de enzimas, facilitando, assim, a absorção dos nutrientes”.
Ao fazer isso, o paciente diminui sintomas como a azia, estufamento e má digestão, que, muitas vezes, estão ligados à pressa de comer.
“Tem um detalhe: a disbiose intestinal, que é uma alteração das bactérias do intestino, pode ser causada simplesmente pelo fato que você não mastiga, você simplesmente engole os alimentos. Então, o ideal é mastigar bastante os alimentos até eles serem bem triturados”, completou a médica.
Técnicas
Para incorporar o mindful eating na rotina, existem algumas técnicas. É um hábito que o paciente desenvole – logo, como tudo na vida, é necessário treino.
“Existem algumas técnicas como, por exemplo, respirar antes de comer, fazer uma respiração consciente, profunda, utilizando o diafragma. Uma pausa para acalmar a sua mente. Desligar as distrações, que são celular, TV e computador. Se você vai comer, reservar o momento do teu dia para fazer aquela alimentação”, listou Amanda Alcântara.
Além disso, como adianta a médica, é importante sempre se questinar se aquela fome que estamos sentindo é física ou emocional, é desejo de comer algo.
“É fundamental, também, praticar a gratidão. É reconhecer o alimento e o cuidado envolvido até ele chegar no prato, porque, afinal de contas, apesar de a gente viver em uma sociedade onde tudo é muito rápido, você encontra alimento em diversos locais fáceis. Mas praticar gratidão por aquele alimento é um ato de autocuidado pelo teu corpo”.
Comunidade
Hoje em dia, existem cursos, formações e comunidades online voltadas para a prática e o aprendizado do mindful eating – como o Centro Brasileiro de Mindful Eating, uma organização que promove a prática no Brasil.
“Além disso, existem alguns livros que são interessantes, como o ‘Mindful Eating’, do Jan Chozen Bays, e o ‘O peso das dietas’, da Sophie Deram, que não fala somente sobre o mindful eating, ele aborda também uma relação mais saudável com os alimentos. Já o do Jan Chozen fala bastante sobre essa questão de meditação, de atenção plena”, indicou a médica.