Cobertura vacinal em Manaus volta a crescer em 2023
Gerente do setor de imunização da Semsa, Isabel Hernandes, aponta o aumento da cobertura vacinal neste ano, principalmente de crianças com menos de 1 ano de idade e alerta: a responsabilidade é dos pais
Após a capital amazonense ultrapassar a meta definida pelo Ministério da Saúde (MS) para imunização de bebês com um ano, A CRÍTICA entrevistou a gerente de Imunização da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), Isabel Hernandes, para entender os impactos e responsabilidades do aumento da cobertura vacinal em Manaus.
Os números apontam que vacinas como febre amarela, a pneumocócica e a do rotavírus são as coberturas vacinais que mais cresceram entre 2022 e 2023.
A vacina de febre amarela saltou de 66,51% para 74,36%, assim como a pneumocócica, saindo de 91,11% no ano passado para 95,27% em outubro de 2023, superando a meta de 95%. A do rotavírus passou de 80,08% para 86,07%, tambem até outubro de 2023.
Quais foram as estratégias adotadas pela Semsa pra atingir esses resultados?
A Secretaria Municipal de Saúde realiza a busca ativa, através dos agentes de saúde, de crianças, principalmente as menores de ano. [Mas com um grande diferencial] Também ofertamos as vacinas naquelas ‘casinhas pequenininhas’, aquelas Unidades de Saúde Básica (UBS) de 32 m², que antigamente não tinham vacinas. Agora, apesar delas não terem uma sala de vacina, pois não têm estrutura física para isso, fizemos umas adaptações e começamos a implantar este ano, pelo menos um dia da semana, como um ‘Dia D’ para pra que as vacinas fiquem mais perto da população. Assim, a pessoa não precisa gastar com ônibus ou com condução até chegar a unidade maior.

A coordenadora do setor de imunização da prefeitura é a entrevistada deste fim de semana (Paulo Bindá/A Crítica)
Em quais regiões da cidade essa iniciativa foi implementada? Alguma área em específico?
Essa ação ocorreu de forma indistinta em todas as zonas da cidade que tem a essas ‘casinhas’.
Desde a implantação dessa estratégia, o aumento percentual foi monitorado?
O percentual não é avaliado dessa forma. A gente avaliaria se fosse só ali [em uma região], mas não é assim. Nós a avaliamos todas as salas de vacina e além disso, fizemos duas campanhas de vacinação esse ano. Uma ministério da Saúde, mais outra que nós resolvemos fazer agora nesse período do ano, junto com a campanha da Influenza e com isso, a gente capta muito mais crianças. Também trabalhamos o microplanejamento, algo que é feito através da realidade local da UBS, para alcançar as melhores coberturas vacinais.
Como é feito esse microplanejamento?
Esse microplanejamento avalia e monitora os índices de cobertura das vacinas toda semana. Se eles não estão conseguindo atingir o número de criança imunizadas, eles precisam e mudam a estratégia pra buscar mais crianças, de acordo com cada realidade local.
Como é feita a escolha de mudança de estratégia?
Temos por exemplo a aplicação da vacina no dia certo. ‘Ah, todo sábado a gente vai ter vacinas aqui na Unidade’. Avisamos a comunidade e ofertamos todas as vacinas nesse dia, tanto para criança, adolescente, para adulto e para idosos. Para nós, conta muito todo mundo ter vacina.
Nessa campanha das vacinas infantis, quais mais cresceram?
Notamos que quase todas vacinas apresentaram um avanço, mas o destaque maior fica para a poliomielite, também a pneumocócica e aquela que protege contra cinco doenças, a chamada pentavalente
Quanto à idade dessas crianças, qual foi a faixa etária que mais se destacou?
A que mais se destacou foi a faixa de crianças menores de 1 ano, porque essa é a faixa etária fundamental de vacinar. Essa que o pai tem que ter a responsabilidade de levar, porque o primeiro ano de vida da criança é fundamental para imunização dela para o resto da vida. Então, é preciso que a gente pegue essas crianças menores de ano para imunizar. Essa busca é maior e realmente temos o foco nessas crianças.
O que acontece quando a criança perde alguma vacina desse primeiro ciclo durante o primeiro ano de vida?
Ela perde a oportunidade de por exemplo, de receber a vacina da Rotavírus. Se ela não for vacinada até os três meses de idade, ela já perdeu a oportunidade já não tem mais como fazer vacina e a criança vai ficar o resto da vida exposta. Isso ocorre por que toda a vacina tem um círculo, se ela perde a idade ela já vai ser prejudicada. Outro exemplo, na vacina do HPV, que vai de nove a 14 anos, se a adolescente perdeu a idade de receber o imunizante, ela perdeu a oportunidade de ficar protegida.
Existe alguma ‘vacina-chave’, uma imunização essencial, que se a criança não tomar ela vai ter algum tipo de consequência permanente?
Todas as vacinas são assim. Se não receber a imunização, isso é permanente, porque ela está exposta todas as doenças, mas a gente chama atenção para uma vacina, a da Poliomielite, se o pai ou mãe deixar de vacinar, mas ainda sim, ela tem um período longo da vida que a gente pode vacinar, até seis anos. A criança que não vacina contra poliomielite, uma doença grave, pode ter sequelas ou ser levada a óbito. Então a gente chama muita atenção, todas as vacinas são importantes, todas.
Esse trabalho de conscientização dos pais, tem tido algum tipo de problema? Por exemplo, existe um problema de imunização feito no pré-natal? Existe alguma razão para que os pais não estejam imunizando os filhos?
Desde o pré-natal é fundamental que a gestante faça todas as consultas. A gente chama atenção que o ciclo vacinal da criança começa ainda no pré-natal, quando a mãe toma aquela vacina antitetânica. A Vacina tríplice bacteriana acelular do tipo adulto – dTpa é para proteger a criança nos primeiros meses de vida contra a coqueluche. Isso ocorre por que a criança só vai completar o ciclo contra coqueluche quando fizer seis meses de idade. Então ela precisa vir com essa proteção através da mãe, do cordão umbilical, que repassa os anticorpos para a criança.
Como é feita a abordagem com os pais sobre essa conscientização de manter o ciclo vacinal em dia?
Atuamos em conjunto com todo a equipe de comunicação, que tem feito todo o a trabalho de levar a conscientização em as mídias sociais, que são voltadas para importância da vacinação. Mas eu deixo alerta para os pais, porque dentro do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é responsabilidade do pai e mãe, manter a saúde da criança. Ele pode ser responsabilizado sim, por não levar a criança para vacinar.
O que é feito quando a criança chega para fazer o ciclo vacinal se já tem uma vacina atrasada? O responsável leva alguma advertência?
De maneira nenhuma, até por que isso afasta o pai e a mãe, isso não é estratégia. A gente deixa uma mensagem de conscientização para que ele volte e faça as próximas vacinas com a idade certa. Toda a vacina, a gente faz uma ‘Data lápis’ no cartão, então aquilo fica bem prático para o pai saber quando deve volta certo a próxima data.
Existe alguma vacina que merece um destaque ou que precise melhorar de percentual de cobertura?
A vacina da febre amarela é uma delas, pois é uma imunização que a criança recebe aos nove meses. Ela ainda tem um percentual muito baixo e nós não podemos esquecer que moramos em uma região endêmica. Essa criança precisa estar vacinada, pois todo final de semana vemos as crianças em banhos de cachoeira, igarapé, até mesmo criança em sítio e se não tiver vacinado está exposto à febre amarela.
Qual sua visão sobre as coberturas vacinais ao longo dos anos?
Só na Semsa eu tenho 11 anos de atuação, mas trabalho pelo menos há 23 anos com imunização e podemos observar a perda de medo dos pais em relação às doenças. Tanto é que nós tivemos um surto muito grande de sarampo em 2018, porque a doença segue circulado, apesar de estarmos imunizados. Com a pandemia de Covid-19 e tudo que foi vivido, parece que os pais desacreditaram de vacina mas esquecem que estão aqui hoje sadios e tendo filhos, porque foram vacinados pelos pais. Então a gente sempre tem que deixar esse alerta, hoje nós estamos aqui, com saúde e sem sequelas, ou ainda não tivemos uma possível morte, foi porque fomos vacinados.
Todo esse alcance das vacinas começou com as campanhas mais antigas, o que você pode falar a respeito?
Hoje estamos aqui, retomando o trabalho, não é fácil, por que trabalhei nessa construção [da constância da imunização] lá no início, no combate à poliomielite, nas campanhas da gotinha, não foi fácil chegar ao patamar. Hoje a gente deixa bem claro o alerta para os pais, pois eles reagem para buscar vacinas apenas quando algum tipo de fiança surge na mídia, nao. Somos nós que precisamos estar vacinado antes, porque toda a vacina demora de dez a 15 dias para o imunizante fazer uma soroconversão dentro do organismo e ainda temos as vacinas que têm três doses. As crianças precisam estar vacinadas antes, por isso a importância de se vacinar na idade.
A imigração de indígenas venezuelanos ou de outros migrantes causou algum impacto em relação à imunização?
Nós não podemos culpar o migrante. Devemos culpar mesmo o brasileiro que deixa de se vacinar, a gente não tem a certeza por onde entrou o Sarampo, mas nós recebemos turistas do mundo inteiro, todos os dias. E ao redor do mundo existem doenças endêmicas, como exemplo, a poliomielite, que não está erradicada mundialmente. Existe o Paquistão que tem a doença. Nós tivemos recentemente casos no Peru. Quando nós estamos vacinados não corremos risco e se deixamos de nos vacinar, sim.
Existe algum plano de vacinação específico para esses imigrantes?
Toda pessoa que entra no Brasil tem direito a todos os serviços do Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo as vacinas, como brasileiro, isso é maravilhoso.
Sobre os cartões de vacina, existe alguma forma de fazer deles documentos mais presentes na vida do brasileiro?
Quero exatamente destacar que cartão de vacina é um documento, que pode ser usado tanto o cartão físico de vacina ou no aplicativo. O cartão físico da criança é tão válido até para quando você tiver mais velho, porque a gente só vai dar sequência em reforço de vacinas que foram tomadas na infância. A gente vai aquele cartãozinho, que você pode trazer e só fazer atualização. Hoje o temos o serviço de informação atualizado e qual é orientação a gente dá: que a pessoa venha até uma unidade que tem um fluxo mais tranquilo para fazer a transcrição de todas as vacinas para o informação. Temos uma base de dados com backup de segurança que garante manter os dados físicos em mãos, quanto no sistema.