Cuidados necessários para a saúde mental hoje e no pós-pandemia
Retorno à ‘normalidade’ da vida poderá ser tão impactante quanto está sendo vivenciar o isolamento social
O isolamento social causado pela pandemia do novo coronavírus desencadeou diversos problemas à saúde mental, entre eles ansiedade, angústia, frustração, medo e outros males. Para especialistas da área de psicologia, psicanálise e psiquiatria, o afrouxamento de medidas restritivas de distanciamento e a retomada gradual de atividades econômicas também poderá impactar de forma negativa no emocional das pessoas.
Entre os problemas psicológicos que podem ser detectados após a pandemia estão o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), além da Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional.
De acordo com o psicólogo e psicanalista Francisco Nogueira, membro do Departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo, a retomada das atividades pós-pandemia será tão complexa quanto o início da quarentena causada pelo novo coronavírus em termos de saúde mental.
“Tudo indica que teremos problemas pós-confinamento. Em 2002 ou 2003, tivemos a SARS (Síndrome Respiratória Aguda) e, conforme pesquisas, 42% das pessoas que passaram por aquele período precisaram de tratamento psicológico porque elas desenvolveram depressão, pânico e transtorno de estresse pós-traumático”, disse ele, abordando sobre o histórico de doenças psicológicas pós-pandemia.
Segundo Nogueira, o acúmulo de atividades em casa, como o home office e afazeres domésticos, implica de alguma forma no desenvolvimento profissional, o que acarreta em problemas como a Síndrome de Burnout, que é um distúrbio caracterizado pelo estado de tensão emocional e estresse provocados por condições de trabalho desgastantes.
“Eu tenho observado muitos casos de Burnout entre pessoas que trabalham em empresas e que estão fazendo home office porque acumulou o trabalho profissional ao doméstico”, destacou. “Então, tem o trauma de quem enfrentou a doença ou de quem perdeu alguém por um lado e há questão da capacidade produtiva das pessoas que acaba prejudicada pela falta de boas condições de trabalho e de uma adaptação adequada ao home office”, disse.
Para o psicólogo e especialista emocional Geisyng Azevedo, a retomada gradual de atividades, o que significa a possibilidade de voltar a vida normal, acarretará em um “boom” de felicidade seguido por um considerável número de casos de transtorno depressivo.
“É provável que a gente vá começar a ver alguns reflexos disso, biologicamente e psicologicamente, depois que a pandemia passar, até porque será um processo gradativo. Com base nisso, eu acho que nós teremos um boom de depressão logo em seguida da felicidade, muito pela questão financeira e muito pela perda de pessoas devido à Covid-19”, explicou.
O especialista afirma que a pandemia trouxe um sentimento de raiva latente pela falta de anestesias sociais como o lazer e outros prazeres, que possibilitavam a fuga de olhar para dentro de si.
A pós-pandemia, diz ele, pode causar, além da depressão, uma alta dos casos de ansiedade. “Eu acredito que a ansiedade vai aumentar bastante também, principalmente porque não saberemos como será o depois do depois. O fato é que a vida como ela era antes não vai mais existir e isso vai gerar insatisfação em algumas pessoas. Uma parcela da população vai ter dificuldades de enfrentar isso e é aí que entra a questão da depressão e ansiedade”.
Serviço de escuta especializada grátis
Residente na capital paulista, o psicólogo Francisco Nogueira também coordena um serviço gratuito de escuta especializada durante período de pandemia. De modo voluntário, o grupo é formado por 60 psicólogos e/ou psicanalistas que se disponibilizaram a oferecer assistência a pessoas que passam por algum dos males da mente humana neste período de quarentena.
Os serviços de escuta à distância têm a duração de 30 minutos, podem ser acessados via internet, por qualquer pessoa do Brasil, por meio do site http://www.relacoessimplifica das.com.br/escuta.
Para ter acesso ao serviço de escuta, basta a pessoa conectar-se ao endereço eletrônico, escolher um dos profissionais disponíveis para atendimento, preencher um simples cadastro, e agendar o dia e o horário de seu atendimento. Na hora e dia marcados, o profissional entrará em contato, por chamada telefônica ou ainda chamada de vídeo, de acordo com a escolha da pessoa.
“O objetivo é ter um espaço com uma escuta especializada para que as pessoas possam falar, desabafar, elaborar as questões que vão surgindo a partir de toda a dor vivida por causa da pandemia”, explicou o psicólogo.
“E a participação dos manauaras tem sido intensa. Percebo muitas pessoas de Manaus entrando em contato, o que nos chamou muito a atenção. É tocante que as pessoas estejam conseguindo identificar a importância de se cuidarem”, disse Nogueira, acrescentando que até agora mais de duas mil pessoas de todo o País já foram atendidas pelo serviço.
Onda de TEPT exige atenção
A angústia emocional é compreensível e aceitável diante do contexto atual, porém é necessário que saber lidar com ela para evitar complicações na saúde mental, dizem os especialistas.
De acordo com a médica psiquiatra Alessandra Pereira, o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) será a segunda onda de doença psicológicas prevista entre a população em geral e profissionais de saúde após o período da pandemia.
Entre as dicas para passar por esta fase, a médica psiquiatra cita as mesmas recomendadas para médicos e pacientes em publicações do Centro para o Estudo do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (CTEPT), da Universidade de Serviços Uniformados de Bethesda.
“A aquisição de novos hábitos e comportamentos, como lavar as mãos com frequência, usar máscara, manter distanciamento físico, dieta balanceada e exercícios físicos saudáveis para melhorar imunidade, conversar com amigos e familiares queridos sobre suas preocupações sem se julgar fraco e buscar passatempos agradáveis, certamente, são atitudes que irão colaborar bastante para manter uma boa saúde mental”, disse ela, com base na recomendação internacional.
“O suporte emocional é fundamental. Na vida, sempre temos pessoas para nos orientar diante das dificuldades. Por que não buscar ajuda com psicólogo ou psiquiatra? Vamos abandonar o preconceito e escolher uma vida de qualidade e plenitude emocional”, finaliza.