Distância dos netos é o que mais machuca os idosos durante o isolamento
Pandemia de Covid-19 impõe o afastamento de avós, no grupo de risco, dos pequenos, que são possíveis transmissores
O período de isolamento social não tem sido nada fácil para as vovós e os vovôs que têm como fonte de alegria a companhia dos netos. No grupo de risco da Covid-19, os idosos precisam se resguardar ao máximo para evitar infecções causadas pelo novo coronavírus.
Por conta disso, eles estão condicionados a restrições como a visita de parentes, o contato físico e consequentemente as trocas de afeto.
O dia-a-dia da aposentada Maria Hercília Andrade Ribeiro, 60, que mora com a mãe, não é o mesmo sem o carinho corpo-a-corpo do único neto, de três anos.
“Nesse momento, a gente tem que está longe deles e não é fácil. O que nos conforta são as fotos, vídeos, e eu sempre que posso falo com o meu neto pelo telefone, mas não sei se fico melhor ou pior por que é muita saudade”, comentou.
Quem faz as compras de casa, segundo Hercília, são os dois filhos dela, porém seguindo todas as recomendações de distanciamento.
“Eu nunca pensei que a gente necessitasse tanto de um abraço, de estar perto das pessoas. Os meus filhos fazem as minhas compras, mas a gente não se toca e é muito ruim porque sou uma mãe de aconchegar, de beijar, de acarinhar”.
No caso da aposentada, o isolamento é mais que necessário já que ela é filha de uma idosa de 92 anos. Ela conta que toma todos os cuidados com a saúde da mãe.
“Eu não posso deixar que ninguém se aproxime dela. A limpeza do quarto dela é comigo, a alimentação e cuidados. Apenas eu entro no quarto. Isso me deixa cansada e ao mesmo tempo me deixa mais vulnerável e mais suscetível à falta do meu neto, à falta dos meus filhos, da nora e genro”.
Ao falar novamente do neto, Hercília se emociona ao lembrar do café nas manhãs de domingo, por exemplo, ou durante a semana, quando precisava tomar conta dele para a filha quando ela vai trabalhar.
“Ele é uma criança muito esperta que passou muito tempo comigo por que a mãe tinha que trabalhar. Então, nesse momento de isolamento, é o que mais me dói. Parece que o tempo está passando e é como se eu estivesse perdendo a melhor fase da vida dele, que é crescendo e progredindo. O amor de vó é extravagante”.
Outra avó ansiosa em rever os netos é a jornalista Joana Queiroz, de 62 anos, que mora sozinha em seu apartamento em Manaus.
Há vinte dias sem ter o contato pessoal com a filha, mãe das duas meninas, ela lembra os momentos vividos com as crianças.
“Nos dias normais, durante o que final de semana que folgo, eu durmo com as minhas netas. E quando estou com elas, a gente brinca muito, fazemos casinha de lençol, levamos as bonecas ao médico e, quando eu vou para casa delas, elas fazem festa. E essa ausência é o que tem me torturado”.
Joana e as netas
Para amenizar a saudade, Joana tira um tempo para fazer ligações por vídeo para os filhos e netas.
“Eu converso com a minha neta mais velha e vejo a mais nova brincar, também falo com a minha filha. Já o meu filho, é ele quem faz as minhas compras, pagas as minhas contas e me levou essa semana para vacinar. Porém eu passo a maior parte do tempo só. O trabalho é o que ainda tem me distraído”, ressaltou a jornalista.
Se inundar de barulho
Em suas redes sociais, somando mais de duas mil compartilhamentos, o advogado e escritor Félix Valois, 77, publicou as angústias vividas, principalmente aos domingos, dia o qual chama de “melancólico, cinzento, chuvoso e mudo” e anseia que o cenário da pandemia mude para que possa inundar-se de barulho.
“Vou querer rir e rolar com elas. Vou ser o gigante e anão. Vou ser o príncipe e o vilão. Vou ser a historinha e o desenho. Vou voltar a ser avô”, escreveu Valois.
Não existe nada tão melancólico como um fim de domingo. Este de agora está pior. Cinzento, chuvoso. E mudo. Desligaram…
Publicado por Félix Valois em Domingo, 29 de março de 2020
#FiqueEmCasa
Os idosos estão na faixa etária de atenção diante da Covid-19. A diretora presidente da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM), Rosemary Pinto, apela para que a terceira idade permaneça em casa e destacou o perigo que pessoas acima de 60 anos correm caso sejam infectados com a doença. “Vejo diversos idosos andando pelas ruas. Esses idosos, se eles contraírem a Covid-19, vão agravar, vão precisar ir para a UTI e talvez, alguns deles, vão morrer. Então, fiquem em casa!”, alertou.
Tecnologia aproxima
Para o psicólogo clínico Thiago Filgueiras, é fundamental que a terceira idade encontre alternativas para se distrair diante da pandemia do novo coronavírus, que está só no início do Amazonas. O profissional destaca ainda o poder das redes sociais, que podem conectar as pessoas em distanciamento e, assim, amenizar a dor da falta.
“Nesse período de quarentena, vale ressaltar que o cuidado com a saúde dos idosos é prioridade. Também existe, a saúde mental, que é afetada pela distância dos entes familiares, principalmente dos netos, nos quais os idosos depositam um carinho significativo”, comentou.
“Uma das formas de amenizar o sentimento de falta é utilizando os recursos tecnológicos como aplicativos e até mesmo a tradicional ligação, pois o ato de ouvir a voz do outro libera o quarteto da felicidade: endorfina, dopamina, serotonina e ocitocina”, destacou o especialista.
Além do ambiente digital e o contato com os familiares, ele sugere outras atividades como um planejamento de rotina, como a leitura de um livro, entre outros recursos que fazem com os idosos possam ser úteis. “Sugiro que utilizem a rede social para criarem grupos de WhatsApp e compartilhar dicas do que sabem fazer tipo: crochê, receitas, dicas de experiência de vida e outros. Isso faz com que o idoso se sinta valorizado através dos seus conhecimentos”.