Doença autoimune e rara, a Neuromielite Óptica afeta 50 manauaras
A NMOSD é caracterizada por atingir e destruir os nervos ópticos e da medula espinhal
Março está em alerta verde para o diagnóstico precoce e conscientização da Neuromielite Óptica (NMOSD), doença autoimune inflamatória do Sistema Nervoso Central (SNC) e caracterizada por atingir e destruir os nervos ópticos e da medula espinhal. A estimativa é de 10 mil brasileiros diagnosticados com a doença. Em Manaus, 50 pessoas convivem com NMOSD e fazem acompanhamento no Ambulatório Araújo Lima da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
O Dia Nacional de Conscientização da NMOSD é em 27 de março e a comunidade médica dedica esse mês para conscientizar a sociedade sobre a importância de se reconhecer sintomas e garantir que os pacientes tenham acesso ao melhor cuidado.
A NMOSD afeta nove vezes mais as mulheres do que os homens, além da prevalência duas a três vezes maior nas populações negras e asiáticas. A doença caracteriza-se por surtos graves e recorrentes que podem deixar sequelas irreversíveis.
A neurologista e supervisora da residência médica da Ufam, Nise de Carvalho, explicou que a NMOSD, pode ocorrer após quadro infeccioso. “Além da predisposição genética, essas doenças inflamatórias sistêmicas têm um gatilho. As vezes um quadro muito grave de infecção, que leva a um desequilíbrio imunológico, e entre esses anticorpos pode ter o aquaporina-4, que vai levar à NMOSD, deflagrada por uma infecção que desequilibrou meu sistema imunológico”, explicou.
Segundo a médica, NMOSD afeta pacientes jovens em uma faixa etária de 20 a 40 anos e a doença surge de maneira geral em forma de surto.
“Como é uma doença muito grave, quanto mais rápido e precoce o diagnóstico é melhor. A gente tem que evitar esses surtos. Não é uma doença progressiva. Se não tratar, melhora a inflamação, mas deixa sequelas. A doença causa uma inflamação tão grande que se destrói a área que acomete”, detalhou a neurologista.
No dia 5 abril, no Auditório do Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV), situado na rua Tomas de Vila Nova, número 300, bairro Centro, zona Centro-Sul da cpital, a partir das 13h, será realizada uma reunião com pacientes com NMSOD. O evento tem por objetivo mostrar que com o diagnóstico precoce e tratamento é possível driblar as possíveis sequelas, assim como chamar a atenção para importância do março verde.
Sintomas
NMOSD, também pode ser chamada de Desordem do Espectro de NMOSD, que por muito tempo foi chama de Doença de Devic, nome do cientista e neurologista francês Eugène Devic (1858 – 1930) que descobriu a patologia em meados de 1894, incialmente descrita como mielite subaguda. Na época, o cientista observou o comprometimento do nervo óptico e da medula. A neurologista Nise de Carvalho detalhou que a doença pode ter vários sintomas, além desses dois principais.
“Além da cegueira e paralisia, pode acometer outras áreas do cérebro, como a encefálica, que é responsável por manter a pessoa acordada, e acaba com narcolepsia. Pode afetar também o tronco cerebral, que a pessoa fica com soluços e vômitos que não melhoram. São outras caras dessa doença. Os sintomas mais comuns são os pacientes que perdem a visão bilateral ou unilateral de forma subagudo. Pode ter dor ou não nos olhos”, explicou a neurologista.
É preciso ficar atento aos sintomas em pacientes jovens. “Uma perda visual subaguda em um idoso, as causas são diferentes, pode ser um AVC (Acidente Vascular Cerebral). Mas em um paciente jovem que não tem colesterol, diabetes, hipertensão e de repente perde a visão, pode ser um processo inflamatório, que são mais comuns nesse grupo. Outro sintoma é a fraqueza nas pernas. Perde o controle da urina e das fezes”, acrescentou a médica.
Conscientização
Para a neurologista, a comunidade médica também precisa se aprofundar mais sobre a doença, e assim contribuírem para o diagnóstico precoce da doença, que contribui para a melhora do paciente e diminui os riscos de sequelas graves. A médica relata a situação de uma paciente que após perder a visão e o movimento das pernas, um residente começou a trata-la para NMSOD e conseguiu reverter o quadro.
“Na primeira gravidez ela perdeu a visão. Na segunda, perdeu o movimento das pernas. E ninguém sabia o que era. Em um terceiro surto, foi ao pronto-Socorro, foi atendida por um residente que passou pelo ambulatório, lembrou da doença e começou a tratar de maneira adequada. E ela não perdeu o movimento dos braços. Se tivesse sido diagnosticada no primeiro surto talvez teria perdido apenas um lado da visão” relembrou.
A médica afirma que para a NMOSD não existe protocolo de tratamento. “O tratamento é feito com corticoterapia na veia em doses altas. E também a plasmaferise, que é uma hemodiálise que fazemos no sangue para retirar os anticorpos (aquaporina-4), que levam a doença. O médico diminui a inflamação e também a destruição dos nervos. Depois refaz alguns exames e a dosagem do anticorpo”, disse a neurologista.
Março Verde
A Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) aprovou no dia 7 de outubro de 2021o Projeto de Lei (PL) 487/2021 que institui o Dia da Conscientização da Neuromielite Óptica, a ser celebrado em 27 de março. Na justificativa, a celebração da data contribuirá para que os profissionais e instituições de saúde de todo o país tenham condições de identificar com maior celeridade e eficiência as ocorrências da doença, possibilitando o tratamento adequado e precoce.
“O Março Verde é importante porque podemos divulgar os sintomas, sinais clínicos da doença, em que paciente podem aparecer, faixa etária e perfil. É predominante em mulheres por terem mais quadros de inflamação. As pessoas se conscientizando que existe essa doença, o diagnóstico precoce é mais fácil assim como o início do tratamento. A qualidade de vida depende o diagnóstico precoce, tratamento e o prognóstico”, finalizou a neurologista.