Especialista alerta para ‘pandemia da solidão’ que atinge idosos
Durante Fórum da Longevidade, gerontologista destacou a necessidade viver mais e com qualidade em todos os aspectos
O gerontologista Alexandre Kalache alertou para a existência de uma “pandemia da solidão que afeta, sobretudo, as pessoas mais idosas” e para a importância de se ter uma vida longa com qualidade em um país que caminha para se tornar uma nação de pessoas mais velhas. A fala ocorreu durante o XVIII Fórum da Longevidade, em São Paulo, nessa terça-feira (21).
Kalache destacou a necessidade de tratar do tema da saúde mental e buscar por uma sociedade mais humanizada diante do envelhecimento da população, que ainda não se recuperou do impacto psicológico provocado por eventos recentes, como a pandemia de Covid-19.
“Não só pela Covid longa, mas por essa ansiedade toda. Eu confesso para você que eu próprio sofro até hoje, porque eu esperava que a gente sairia daquele assalto à nossa integridade que foi a pandemia de uma forma mais solidária, mais humanizada, menos individualista, e eu não estou vendo isso”, disse.
A busca por uma vida mais longa com qualidade esbarra, segundo o especialista, em uma geração que está crescendo “hiper medicada”, tomando remédios controlados e abusando das chamadas drogas ilícitas.
“É preocupante, porque você vai formando cortes, gerações, que estão abusando de drogas, e eu incluo aqui os médicos, que têm facilidade para fazer uma prescrição, sem que a gente tenha uma noção exata do que isso vai significar. Eu não estou falando a longo prazo, estou falando já quase de imediato”, destaca.
Além da saúde mental, Alexandre Kalache aponta como problemas para a longevidade da atual geração a falta de planejamento financeiro dos jovens entre 19 a 30 anos, dos quais 30% não estudam e nem trabalham, e a falta de habilidades em pessoas mais velhas, mas ainda não idosas, o que as leva a perder seus empregos.
“Ainda não são velhos o suficiente para terem uma renda de pensão que, aliás, é pouca e não vai assegurar uma qualidade de vida. Eles têm 48, 50, 52 anos, vão fazer bico, ter algum tipo de trabalho precário. Nós estamos ‘uberizando’ o trabalho desses que poderiam ser muito mais produtivos, porque esse país é rico”, completou.
Viver mais e melhor
A médica e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Margareth Dalcomo, palestrante no Fórum da Longevidade, ressaltou que o Brasil já possui boas políticas públicas para garantir a longevidade da população dentro do eixo da saúde, a exemplo das vacinas incluídas no Sistema Único de Saúde (SUS), mas existentes desde antes dele.
“Até 40 anos atrás, a nossa expectativa de vida ao nascer era de 54 anos. Hoje, é de 78 anos. Tem uma pergunta se fazer: isso se deu por que? Foi porque nós tivemos algumas políticas públicas, foi porque nós vacinamos as pessoas. Nós criamos uma coisa chamada Programa Nacional de Imunização, que tem 50 anos, é anterior ao SUS. Nós começamos a vacinar as crianças e nossa mortalidade infantil declinou vertiginosamente”, lembra.
No entanto, ela aponta ainda para a necessidade de mudança de hábitos da própria população para ter qualidade de vida e demonstrou tristeza com o aumento do número de pessoas jovens que declararam ser fumantes, em especial dos novos cigarros eletrônicos, os famosos vapes.
“O Brasil tem ainda, a despeito de uma população que envelhece, uma população de gente jovem, milhões e milhões, que são um mercado altamente atrativo para a indústria que produz cigarros, dispositivos eletrônicos de fumar. […] Isso faz muito mal para a saúde, vai comprometer as gerações que, na verdade, precisam viver muito no Brasil para dar conta desse balanço demográfico”, disse.
Fórum
Realizado pela Bradesco Seguros, o Fórum da Longevidade chegou à sua 18ª edição neste ano e contou com a participação de figuras ilustres como a apresentadora Cissa Guimarães, as atrizes Zezé Motta e Beth Goulart e a médica americana Ashton Applewhite, escritora e ativista contra o idadismo (preconceito por conta da idade).
*O repórter viajou a São Paulo para cobrir o evento a convite da Bradesco Seguros na última semana.