Poliomielite no Peru acende ‘alerta vermelho’ do risco da doença no Amazonas
Amazonas está em um cenário de muito alto risco devido à baixa cobertura vacinal contra a doença e por fazer fronteira com o país
A confirmação do primeiro caso de poliomielite aguda (paralisia infantil) em 32 anos no Peru acendeu um alerta do risco da reintrodução da doença no Amazonas, devido ao baixo nível de cobertura vacinal. Nesta quarta-feira (29), as autoridades de saúde do estado emitiram uma nota técnica conjunta com o objetivo de intensificar a vacinação e o monitoramento epidemiológico contra a doença em todo o estado.
O documento contém orientações técnicas às Secretarias Municipais de Saúde dos 62 municípios do Amazonas, com o objetivo de fortalecer a investigação de casos de Paralisia Flácida Aguda (PFA), um sintoma sugestivo para poliomielite, uma doença erradicada no Brasil (o último caso ocorreu em 1989).
A nota técnica emitida pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP) e Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) considera que o Amazonas vem apresentando índices de cobertura vacinal abaixo do preconizado pelo Ministério da Saúde, 95%.
Segundo a diretora-presidente da FVS-RCP, Tatyana Amorim, a cobertura vacinal contra poliomielite no Amazonas é de 76,9%, que é o dado mais atualizado referente a 2022. Com isso, o Amazonas apresenta um cenário de “muito alto risco” para a reintrodução da poliomielite, conforme descreve a nota técnica.
“A poliomielite é uma doença grave que pode causar paralisia permanente e até mesmo levar à morte. Por isso, é fundamental que todas as crianças sejam vacinadas e que os casos suspeitos sejam investigados com rapidez e eficiência”, afirmou Tatyana.
Ao A CRÍTICA, o médico infectologista João Hugo Abdalla Santos explicou que, devido ao caso de poliomielite reportado no Peru, é importante se atentar para a taxa de vacinação no Amazonas e principalmente nas cidades fronteiriças. “Com a média de vacinação abaixo de 50%, há um grande risco da disseminação da doença em nosso estado e daí para o país”, disse o infectologista.
O infectologista ressalta que, por se tratar de uma doença de transmissão fecal/oral e oral/oral, ou seja, por alimentos, água e de pessoa para pessoa, o alerta é ainda maior. “Faz-se necessário uma vigilância sanitária na fronteira, pois o tempo de incubação e transmissão são muito longos”, explica.
O médico sugere ainda duas medidas preventivas imediatas: exigir o cartão vacinal atualizado para sair do país para o Peru e uma campanha imediata de vacinação na região fronteiriça com a vacina oral para obter o máximo de cobertura no menor tempo possível.
“Além disso, seria interessante realizar uma fiscalização nas pessoas que vêm do Peru também. Exigência do cartão vacinal, medida essa até termos um índice de acima de 85% de pessoas vacinadas na região fronteiriça”, completou o infectologista.
Na nota técnica, as autoridades de saúde do Amazonas destacam o risco de reintrodução do poliovírus selvagem (vírus da Poliomielite) e orientam a intensificação das ações de imunização contra a poliomielite (paralisia infantil) e do monitoramento epidemiológico da doença no estado. O documento ressalta que a imunização deve ser intensificada em todo o estado com o objetivo de alcançar a meta de 95% de cobertura vacinal.
“Por não ter muitos casos de poliomielite nas últimas décadas, as pessoas vão relaxando. Não é incomum ter carteirinhas de crianças incompletas. Então, é muito importante que a gente faça um trabalho muito grande de comunicação, capacitação e oferecer ajuda junto aos municípios para que eles efetivem o ato de vacinar”, destacou o secretário de Saúde do Amazonas, Anoar Samad.
Caso no Peru
Na última quarta-feira (22), o Ministério da Saúde do Peru informou sobre o caso de poliomielite no país, que também havia erradicado a doença há 32 anos. Segundo as autoridades de saúde, a vítima é um bebê indígena de um ano que vive em uma comunidade na região de Loreto, em Iquitos, no norte do país. A cidade de Iquitos fica a 371 quilômetros de Tabatinga, no Amazonas.
O bebê apresentou febre e fraqueza nas pernas, sintomas que motivaram a suspeita de paralisia flácida aguda, quadro que sugeria infecção pelo poliovírus. Uma amostra de fezes do paciente foi analisada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Brasil, e o resultado mostrou que se tratava de um vírus derivado da vacina oral contra a poliomielite.
Segundo a FVS, o poliovírus derivado vacinal é um tipo de vírus surgido diante das baixas coberturas vacinais.
Baixa cobertura vacinal no AM
Além de apresentar atualmente uma cobertura vacinal baixa de 76,9% (2022), esses índices reduzidos de vacinação contra poliomielite no Amazonas seguem em anos anteriores: 67,7% (2021), 68,2% (2020) e 83,2% (2019). Entretanto, ao analisar a cobertura vacinal em cada município do Amazonas, o cenário é ainda mais preocupante. Os dados foram consolidados pela FVS-RCP com base no Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunização (SI-PNI) do Ministério da Saúde.
Em Tabatinga, município amazonense localizado na tríplice fronteira entre o Brasil, Colômbia e Peru, a cobertura vacinal contra a poliomielite é de 27,82%, sendo que a cidade fica a 371 quilômetros de Iquitos, no Peru, onde surgiu o primeiro caso da doença em 32 anos. Nos municípios limítrofes como São Paulo de Olivença, Santo Antônio do Içá e Benjamin Constant, os índices de vacinação são semelhantes.
Segundo dados da FVS de 2022, o município de São Paulo de Olivença apresenta uma cobertura vacinal contra a poliomielite de 43,18%; Santo Antônio do Içá, 45,80%; e Benjamin Constant somente 20,85% de cobertura vacinal contra a doença.
Dos 62 municípios do Amazonas, apenas um apresenta a cobertura vacinal acima de 95%, preconizado pelo Ministério da Saúde, que é o município de Iranduba, com 99,16%. Próximo a esse índice está o município de Urucará, com 92,07%.
Ainda segundo os dados da FVS, o Amazonas possui seis municípios com menos de 10% de cobertura vacinal contra a poliomielite. Tapauá, por exemplo, apresenta uma cobertura vacinal de apenas 2,25%, seguido por municípios como Pauini (2,51%), Boca do Acre (6,73%), São Gabriel da Cachoeira (7,84%), Nova Olinda do Norte (8,21%) e Juruá (9,17%).
Prevenção
De acordo com as autoridades de Saúde do Amazonas, a vacinação é a principal medida de prevenção da poliomielite. O esquema vacinal consiste em três doses da vacina inativada poliomielite (VIP), aos 2, 4 e 6 meses de idade, com intervalo de 60 dias entre as doses. O intervalo mínimo entre as doses é de 30 dias. Devem ainda ser administradas duas doses de reforço, a primeira aos 15 meses e a segunda aos 4 anos de idade.
Caso ainda não tenham recebido a vacina contra poliomielite, as crianças que estiverem incluídas no público-alvo da vacinação para a doença devem ser levadas, por pais ou responsáveis, para receber a dose do imunizante em postos de saúde coordenados pelas Secretarias Municipais de Saúde.