Prefeitura de Manaus deve responder se foi pressionada a usar ‘Kit Covid’
Tribunal de Contas estabeleceu prazo de 10 dias para manifestação da prefeitura. Remédios propagandeados por Eduardo Pazuello e Bolsonaro não tem eficácia comprovada contra Covid-19
O ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Benjamin Zymler determinou que a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) responda em 10 dias se foi pressionada pelo Ministério da Saúde a usar cloroquina, ivermectina e azitromicina em pacientes acometidos pela covid-19, conhecido como ‘Kit Covid’
Apesar de não terem eficácia comprovada contra o novo coronavírus, os medicamentos foram indicados pelo ministério no tratamento da doença ao longo de toda a pandemia, desde que o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, assumiu a pasta, atendendo a demandas do presidente Jair Bolsonaro.
No despacho, assinado na última sexta-feira (5), Zymler menciona a visita da força-tarefa da pasta a Manaus, no início de janeiro, quando a capital já registrava alta nos casos de coronavírus. Dias depois, em 14 de janeiro, o sistema de saúde entrou em colapso, e houve falta de oxigênio.
“Informe se houve algum tipo de pressão por parte dos membros da força-tarefa do Ministério da Saúde quando da visita feita no dia 11/1/2021, para que essa unidade de saúde difundisse a utilização de medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina e/ou ivermectina no tratamento precoce dos pacientes com covid-19 neste município”, pediu o ministro.
No dia 4 de janeiro, a Secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Mayara Pinheiro, incentivou o uso da cloroquina como tratamento contra Covid-19, durante entrevista coletiva, ao lado do governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC). Ela também criticou o trabalho da imprensa, que segundo ela, presta “desinformação”.
“Hoje a gente já tem evidências científicas suficientes, inclusive avaliadas pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Amazonas, fazendo com que a gente possa ter muita tranquilidade de que você possa receber medicamentos que vocês aqui no Amazonas que já usam há muito tempo para tratamento da malária”, disse Mayara em visita à Manaus.
O ministro não acatou parte do pedido do MPTCU por entender que, no momento, não há comprovação de que a pasta esteja obrigando o uso dos medicamentos sem eficácia. Zymler solicitou à Semsa que descreva como se deu a visita mencionada e qual é o posicionamento da secretaria quanto ao uso da cloroquina, hidroxicloroquina ou ivermectina no tratamento precoce dos pacientes com covid-19.
Tanto o ministro da Saúde, general da ativa, Eduardo Pazuello, e o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), são alvos de investigação preliminar da Procuradoria Geral da República (PGR) para apurar se houve negligência do governo federal na falta de oxigênio no Amazonas.
Augusto Aras, encabeça a PGR, foi nomeado por Bolsonaro, fora da lista tríplice, só abriu as investigações depois de pressão de procuradores do Ministério Público e de partidos políticos.
Na última quinta-feira (4), o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, prestou depoimento à Polícia Federal (PF) sobre o colapso da saúde em Manaus. No depoimento de 4 horas, Pazuello mostrou documentos à PF e uma cronologia das ações do órgão na crise do Amazonas.
Saiba mais
Procurada, a Secretaria Municipal de Saúde se limitou a declarar que ainda não foi notificada oficialmente e que só vai se manifestar após conhecer o teor do documento. Em 11 de janeiro, a secretaria respondeu, ao ser questionada pela reportagem sobre a oferta de medicamento sem comprovação científica contra a covid-19, que segue os protocolos orientados pelo Ministério da Saúde, estabelecidos com base nas normas técnicas do órgão.