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A Crítica
Saúde

‘Quem mais agrava e interna com dengue são as crianças e pré-adolescentes’

Presidente da FVS fala sobre o público com maior potencial para agravar o estado de saúde a razão pela qual a vacinação contra a dengue é dirigida a este segmento

Publicado em 25/02/2024 às 11h11
‘Quem mais agrava e interna  com dengue são as  crianças e pré-adolescentes’
Foto: Junio Matos/A Crítica

 Amazonas enfrenta uma tripla ameaça à saúde pública, causada pelo aumento de casos de dengue e da febre Oropouche em meio a um pico de Covid-19. Em entrevista para A CRÍTICA, a diretora-Presidente da  Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Drª Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), Tatyana Amorim, fala sobre o desafio de combater as arboviroses e afastar os riscos de complicação da Covid-19 aos pacientes da rede pública do Estado. 

Quando a FVS realmente teve a confirmação de que realmente acontecia um surto de dengue no Amazonas?

Na verdade, a dengue é uma doença comum, da nossa sazonalidade. Não enfrentamos um pico, por que normalmente temos casos de dengue ao longo de todos os anos, mas monitoramos de forma mais assertiva no período de dezembro até maio. 

Então nesse período não teve nenhuma oscilação preocupante?

Nós já esperamos esse aumento de casos da dengue porque aqui é diferente do tipo que está acontecendo no restante do país. Isso porque a dengue é endêmica e a gente já se prepara todo o ano para enfrentar esse possíveis aumentos de casos.

Quais foram as iniciativas que destacam o Amazonas em comparação com os outros estados?

Apesar do que esta acontecendo no Brasil, nós também estamos enfrentando a dengue e não podemos negligenciar jamais, porque a dengue é uma arbovirose com potencial de agravar o estado do paciente, maior do que as outras arboviroses. Então, como a gente já trabalha há bastante tempo na nossa região, a gente já atuou  com as vigilâncias de saúde de todos os 62 municípios para que se organizassem. Já distribuímos insumos, equipamentos e inseticidas, que são o importante para o enfrentamento do vetor, o mosquito Aedes. 

Por que a Febre Oropuche tem essa maior incidência aqui? 

Em anos anteriores, poucos casos apareciam, mas a partir de dezembro, nós detectamos um aumento de casos inesperado. Ou seja, fugiu do padrão da normalidade. Então hoje nós temos duas arboviroses competindo, dengue e oropouche. Lógico que a gente tem a zika, chikungunya e tem febre mayaro, mas em uma proporção menor. Hoje nós temos mais positividade do Oropuche do que da Dengue.

Como a FVS tem atuado para compreender esse cenário e prevenir a febre Oropuche?

A gente tem que entender esse cenário melhor. Por isso, as parcerias foram instituídas. Nós estamos com o Ministério da Saúde (MS) envolvido, por meio da Secretaria de vigilância em Saúde e Ambiente, estamos com Fundação de Medicina Tropical e também com a Fiocruz, em todos os eixos importantes para melhor estudar e detalhar às estratégias para a combater a febre oropouche.

Qual é o principal diferença de sintomas entre a febre oropuche e a dengue?

Não tem muitos. O que acontece é que a dengue tem um poder agravante muito maior e tem sangramento, como no caso mais grave, a dengue hemorrágica. Mas os sintomas eles são muito semelhantes. É febre, dor de cabeça, dor nas articulações, um mal-estar geral. 


Criança indígena do Parque das Tribos sendo vacinada contra a dengue na quinta-feira passada. (Foto: Márcio Silva/A Crítica)

 

Quem tem sintomas de qualquer arbovirose deve procurar qual tipo de assistência médica?

É importante que a qualquer sintoma, a pessoa deve procurar um serviço de atendimento para fazer um diagnóstico diferencial, de laboratório. Porque hoje só o que permite diferenciar se é o Dengue, Febre Oropuche ou outra arbovirose é, sem sombra de dúvida, o diagnóstico do laboratório, não aquele teste rápido, tem que coletar amostra e enviar para o Laboratório de Saúde Pública (Lacem) para fazer o diagnóstico por meio da biologia molecular, que aí nós testamos o sangue. Às vezes, a suspeita inicial é dengue e ela negativa. Então, aí se testa outras doenças e se tem o diagnóstico mais complexo.

Como tem sido, o enfrentamento em relação à febre oropuche e a dengue, misturadas com a Covid-19?

Em todos os municípios, os gestores de saúde e as vigilâncias epidemiológicas, além dos núcleos de vigilância hospitalar são capacitados e treinados. Além disso, emitimos notas técnicas com orientações, todas disponíveis no site. Nós temos equipes que fazem esse corpo a corpo, além de nós fazermos visitas técnicas locais. 

Como deve se tratar a covid, dengue e da febre Oropuche? 

Se existe suspeitas sobre alguma síndrome respiratória, é importante procurar o serviço de saúde para fazer o diagnóstico, assim como a Covid-19 ou qualquer outra doença respiratória. O cuidado é o mesmo que a gente tem que fazer. É usar a máscara, ficar em casa até desaparecer os sintomas. Se sentir uma dificuldade maior de respirar, procure um serviço de saúde. Agora, com relação às arboviroses, um dos cuidados é usar repelente, se puder. Mas ainda assim fazer isso, não é a medida mais eficaz para combater os mosquitos. O ideal é evitar lixo acumulado, evitar água parada, fazer uma inspeção em casa e ver se não tem um vaso com aquela água parada, justamente para que o mosquito não fique ali, pois o vetor é o mosquito. Então todos nós, enquanto autoridade sanitária, enquanto saúde, temos que fazer a nossa parte, mas a sociedade também por meio das suas medidas de prevenção”.

Como evitar contrair Covid-19 e outras arborvirores?

Lembrando que a Covid-19 tem vacina, então quem está com esquema vacinal atrasado deve procurar atualizar para evitar um agravamento pela doença.

Se uma pessoa estiver com Covid-19 ou febre oropuche, dengue ou uma das doenças de forma combinada tem algum hospital de referência para buscar atendimento?

Não se tem por que não precisa, todos os serviços de saúde estão preparados para atender. Então se alguém tem sintoma de dengue, vai ser manejada da forma como tem que ser, e se for sintoma respiratório da mesma maneira. Então é procurar serviço de pronto atendimento ou a unidade mais próxima da sua casa, se casos mais leves.

Já temos disponível algum lote de vacinas para a dengue?

Recebemos uma remessa de 78.760 mil doses para serem distribuídas em 12 municípios, sendo Manaus, Iranduba, Presidente Figueiredo, Rio Preto da Eva, Barcelos, São Gabriel da Cachoeira, Careiro, Nova Olinda do Norte, Manaquiri, Santa Isabel do Rio Negro, Autazes e Careiro da Várzea. Até hoje (21/2), Careiro ainda não tinha retirado as doses de vacina e Santa Isabel do Rio Negro deve retirar até dia 23, por conta da logística.

Essas doses são direcionadas a qual grupo?

Inicialmente essas doses são para crianças e adolescentes, de 10 e 14 anos. É importantíssimo ser dito isso, por que todos somos suscetíveis a ter alguma arbovirose, mas essa limitação a essa faixa etária ocorre primeiro, porque o laboratório tem essa limitação em fabricar em larga escala, então ele não consegue, mesmo que eu queira comprar, ele não vai conseguir me entregar. O Ministério da Saúde adquiriu e mapeou os municípios de que tem maior incidência e distribuiu essas vacinas. Os municípios precisam se organizar para fazer a vacinação para este público, nessa vacina que tem um esquema de duas doses, você faz a primeira e depois aguarda três meses para fazer a segunda.

Por que essa vacina não foi focada primeiramente nos adultos?

Quem tem o potencial maior de agravar por dengue são as crianças. Quando se faz um estudo sobre a dengue, quem mais agrava e interna, são crianças e pré-adolescentes de 10 a 14 anos. Não se trata de quem mais  adoece, no caso dos adultos, mas sim quem tem maiores chances de desenvolver piora no quadro clínico em caso de internação. 

Já existe alguma previsão de ampliação das doses de vacinação?

Em 2024, o foco é na faixa etária de 10 a 14 anos, a partir de 2025, estaremos com outro fabricante de vacina, que agora está em fase de estudo e produção e deve entregar a partir do ano que vem.

Pontos

Casos de dengue, oropouche e covid 

Febre oropouche: Manaus registrou 672 casos em 2024, comparados a 217 no ano anterior. 

Dengue: Foram 1.024 casos confirmados até o dia 9 de fevereiro de 2024, enquanto no mesmo período de 2023 foram 995 casos confirmados. 

Covid-19: Entre 10 de dezembro de 2023 e 10 de fevereiro deste ano, foram registrados 2.751 casos.

Saiba mais

Currículo

Natural da cidade de São Paulo, Tatyana é enfermeira formada pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR), com especialização em Gestão da Clínica nas Redes Metropolitana de Atenção; Estomaterapia, Administração Hospitalar e Gestão; Enfermagem em Médico Cirúrgica; e Terapia Intensiva, MBA em Gestão e controle de infecção, Gestão da Qualidade e Segurança do Paciente e possui também Mestrado e Doutorado em Saúde Pública. Além disso, a diretora é servidora pública e atua no Sistema Único de Saúde (SUS) há mais de 20 anos.