Silencioso, mas prevenível
Grande parte dos casos de diabetes no País está associada à condição conhecida como pé diabético; subdiagnosticado e silencioso, ele atinge 13 milhões de pessoas e pode ser evitado com cuidados simples
Com mais de 20 milhões de brasileiros diagnosticados com diabetes, segundo o IBGE, o País enfrenta um cenário preocupante: o avanço das complicações associadas à doença, especialmente o pé diabético, condição que atinge cerca de 13 milhões de pessoas e é responsável por 50 amputações por dia no Brasil.
Apesar da gravidade, o problema ainda é subdiagnosticado e pouco discutido. Para entender melhor esse quadro, o VIDA deste sába-do (8) conversou com o médico intervencionista da dor Raimundo Prado, que explica por que a condição evolui de forma silenciosa – e como pode ser evitada com cuidados simples.
Para o especialista, a falta de diagnóstico precoce é um dos principais fatores que levam o pé diabético a evoluir sem que o paciente perceba. “Muitos pacientes não fazem o acompanhamento regular da saúde dos seus pés, e tanto a neuropatia quanto os problemas de microcirculação reduzem a sensibilidade, mascarando os sintomas iniciais”, afirmou.

Para Raimundo Prado, a falta de diagnóstico precoce é um dos principais fatores que levam o pé diabético a evoluir sem que o paciente perceba. (Foto: Divulgação)
Isso significa que pequenas lesões podem se transformar em úlceras profundas sem dor ou incômodo. “O paciente, às vezes, tem um pequeno ferimento e não sente. Quando vai perceber, já está em estágio avançado”, completou.
Açúcar elevado
A neuropatia diabética, principal causa do pé diabético, ocorre pela lesão progressiva dos nervos após longos períodos de açúcar elevado no sangue. “Essa corrosão dos nervos reduz a sensibilidade e dificulta perceber feridas. Com o tempo, a perda de sensibilidade pode ser substituída por dor intensa, como se fosse uma queimação em bota, que piora à noite”, explicou Prado. Entre os sinais de alerta, ele destaca: formigamentos, dormência, alterações de temperatura e mudança de coloração nos pés.
A demora em buscar atendimento é outro fator decisivo. Sem sensibilidade e com circulação reduzida, ferimentos simples têm dificuldade para cicatrizar. “Essas pequenas lesões podem evoluir para infecções profundas e necrose. Muitas vezes, a amputação é necessária para salvar a vida do paciente”, alertou.
Prevenção
Apesar do risco elevado, grande parte dos casos pode ser evitada com medidas básicas. A primeira delas, segundo o médico, é o controle rigoroso da glicemia. “Quando você reduz o nível de açúcar no sangue, a tendência é que os sintomas apareçam de forma mais branda”.
Além disso, ele reforça cuidados diários com os pés: inspeção visual, hidratação da pele, corte cuidadoso das unhas, uso de sapatos adequados e atenção ao interior do calçado antes de usar. “Evitar andar descalço é fundamental”, destacou.
Identificar alterações rapidamente também salva vidas. “O paciente deve procurar um especialista assim que perceber dormência, dor, feridas ou mudança na cor dos pés”, orientou.
A avaliação clínica é essencial, mas pode ser complementada por testes de sensibilidade, avaliação da circulação e exames como o Doppler, que identifica o fluxo sanguíneo no membro afetado.
Check-ups regulares
O médico também chama atenção para outro problema alarmante: muitos pacientes não sabem que têm diabetes. “É importante fazer exames e check-ups regulares. Muita gente só descobre a doença quando as complicações já estão avançadas”, disse.
Prado lembra que hábitos alimentares inadequados, como o consumo excessivo de bebidas açucaradas, contribuem para o agravamento do quadro.
Para reduzir o número de amputações no País, ele defende um esforço conjunto entre informação e estrutura de atendimento. “Falta tanta informação quanto acesso especializado. Campanhas educativas, triagens regulares e ambulatórios de pé diabético são fundamentais para reduzir esse número exagerado de amputações”.
Por fim, o médico reforça que prevenção e responsabilidade pessoal são pilares essenciais na luta contra o pé diabético: “O primeiro responsável pela sua saúde é você mesmo. Com informação, cuidado diário e controle da glicemia, grande parte dessas complicações pode ser evitada”.