Vacinação de 140 indígenas é interrompida em aldeia no Amazonas
Conflito envolvendo agentes de saúde indígena, policiais federais e lideranças indígenas no Tarumã-Açu, prejudicou calendário de vacinação contra Covid-19
Ao menos 140 pessoas estão sem poder ser vacinadas para covid-19 em cinco aldeias localizadas no Tarumã-Açú, região metropolitana de Manaus. A interrupção da imunização ocorreu na terça-feira após um conflito entre indígenas da aldeia Gavião e uma equipe de saúde do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei).
Segundo Januário Neto, coordenador do Dsei, o conflito iniciou na semana passada, quando uma equipe de saúde foi até a comunidade para vacinar os jovens contra a covid-19. Ele diz que a equipe foi hostilizada (o que indígenas negam) pela liderança da aldeia, a cacica Terezinha de Souza, do povo Sataré-Mawé.
Com o conflito, o Dsei suspendeu a ida a todas as comunidades da região, mas no dia 4 a equipe de saúde voltou à aldeia Gavião para buscar insumos na casinha de medicamentos da comunidade. Ainda no porto, foram recebidos pela cacica Terezinha, que atirou o que parecia ser uma lança (ou um pedaço de madeira) contra a lancha da equipe. Um vídeo registra o fato.
À reportagem, a liderança Terezinha disse que tomou a atitude pois “eles vieram insultando, nos gravando. E já estavam proibidos [pelo Dsei] de entrar. O que iam fazer aqui?”, questiona.
Segundo ela, a crise com a equipe de saúde teve início ainda em setembro de 2021, quando o marido dela, Eliomar Martins, foi retirado do cargo de piloto da equipe de saúde. Ele perdeu a função por uma decisão do Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi), formado por parentes de aldeias vizinhas (entenda abaixo).
Ela considera a perda do cargo como “perseguição política”, por se colocar como uma liderança indígena da região. Além disso, critica a equipe de saúde do Dsei e diz que há muitas reclamações sobre desrespeito aos parentes.
“Queremos recuperar o que perdemos, nossas reivindicações são de anos. Botes, uma casinha de saúde. Essa equipe está aí desde 2012 e eles estão maltratando os indígenas. Alguém precisa falar e eu estou fazendo isso”, afirma a cacica da aldeia.
Ação da federal
Por conta do que o Dsei considerou tentativa de homicídio, o coordenador Januário Neto orientou a equipe de saúde a realizar um boletim de ocorrência. Eles pediram o reforço da Polícia Federal, que retornou na aldeia no dia 5 para realizar a busca dos medicamentos.
“Estive na ação para evitar que houvesse excessos, e nós fizemos a retirada desse patrimônio [os remédios] e a equipe só volta a atender a região quando houver garantia de segurança da integridade física deles [da equipe de saúde] e o problema definitivamente resolvido com os indígenas”, afirma o coordenador do Dsei.
No entanto, os indígenas da comunidade denunciam que a ação da Polícia Federal foi “truculenta” e deixou os moradores assustados, em especial crianças que assistiram à ação.
“A Polícia Federal disse que ia verificar a casinha de remédios, mas invadiram o terreno da minha casa e ficaram ao redor. Eles vieram me prender, mas eu não estava lá, a minha irmã que me contou. Ainda ficaram apontando as armas para as pessoas”, comenta Terezinha.
O episódio gerou uma nota de repúdio assinada por uma série de organizações indígenas e liderada pela Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime).
“A equipe de saúde disse que sofreu violência na comunidade, que ouviu tiro, então entraram lá com a polícia, vasculharam e não acharam nada. E foi traumático para todo mundo. Eram vários policiais e tinha muita criança assistindo. Foi uma violação dos direitos humanos e eu me solidarizo com a cacica Terezinha”, diz Marcivana Sateré, coordenadora da Copime.
Crise interna
Marcivana afirma que, além das reclamações contra a equipe de saúde, uma das principais razões do conflito é a demissão do esposo da cacica Terezinha, Eliomar Martins, do cargo de piloto. Ela critica o processo que originou essa destituição da função.
“O Conselho Distrital realizou essa reunião em setembro e eles estavam sem quorum mínimo. Para que se libere qualquer matéria lá, é necessário ter três representantes dessa comunidade [Gavião], mas só estavam dois. Isso é do regimento interno do conselho”, explica a indígena.
O mesmo processo é citado por Januário Neto, coordenador do Dsei Manaus. Ele afirma que o conselheiro distrital é Pedro Ramal, tuxaua da aldeia Inhambé e parente de Terezinha.
“Eles têm um problema ancestral e as decisões do conselho desagradaram. Agora não é porque você está chateado que tem o direito de bater ou tentar matar alguém. Os problemas particulares não podem afetar o coletivo, e a saúde indígena é coletiva”, diz o coordenador.
A Copime informa, em nota, que irá enviar toda a documentação referente ao caso para o Ministério Público Federal (MPF) e Fundação Nacional do Índio (Funai), inclusive a reunião do Conselho que destituiu Eliomar do cargo de piloto.
“Solicitamos a ata da reunião sobre o piloto, a lista de presença e enviamos pedindo providências para o MPF e a Funai. A nossa questão é essa destituição irregular e a invasão dos policiais à aldeia”, explica Marcivana.