Vivendo com HIV, amazonense Eduardo trava luta diária contra o preconceito
O jovem de 27 anos é um dos propagadores da conscientização sobre o HIV e o tratamento adequado
Eduardo Barbosa Vinente, de 27 anos, natural de Urucurituba (município distante 208 quilômetros de Manaus), é um exemplo de que é possível viver plenamente após o diagnóstico de HIV. Ele vive com a condição há 6 anos e há um, decidiu tornar pública a sorologia. O motivo? Lutar contra o preconceito e o estigma que o vírus ainda carrega, e inspirar outras pessoas que acham que a vida acabou depois do diagnóstico.
Vinente nasceu e cresceu no interior do Amazonas, onde concluiu o ensino Médio e formou-se em técnico em Administração. Como muitos jovens interioranos, resolveu tentar novas oportunidades na capital, onde vive há cerca de 8 anos. O diagnóstico de HIV veio em 2018 como um grande impacto em sua vida, abalando planos e sonhos.
“Foi um impacto horrível. A primeira sensação/pensamento é que vamos morrer. Mas, acho que isso é pelo medo do estigma e preconceito. Neste mesmo dia, tentei tirar minha vida, mas uma pessoa em situação de rua me encontrou e me deu um sermão”, contou Eduardo, ao recordar da situação com um sorriso.

Eduardo conversou com A CRÍTICA sobre como é possível viver plenamente após o diagnóstico de HIV (Foto: Paulo Bindá/A CRÍTICA)
A falta de informação sobre a própria condição fez com que Eduardo fosse “inundado” pelo medo e a vergonha, em um turbilhão de sentimentos e emoções. Logo vieram também a ansiedade e a depressão. Mesmo assim, ele resolveu iniciar o tratamento, que para ele tiveram seus altos e baixos, durante o processo de aceitação do diagnóstico.
“O pior foi passar pela separação de talheres, horrível! Houve uma vez, no café da manhã, cortei um dos dedos e meu ente querido se desesperou: -“limpa, limpa, limpa”. Eu ainda debilitado da depressão, peguei minha mala e arrumei minhas coisas e voltei a capital, e disse que nunca mais voltaria àquela casa”, relata Eduardo, que chegou a voltar para a sua cidade natal durante o tratamento.
Apesar dos desafios inimagináveis, ao aderir o tratamento com os remédios antirretrovirais, dois meses depois do diagnóstico Eduardo já estava indetectável, ou seja, a carga viral era tão baixa que não transmitia mais o vírus. “Foi uma surpresa pro médico. Na ocasião eu não entendia o que significava ou fazia questão”, disse.
Medo da aceitação

(Foto: Paulo Bindá/A CRÍTICA)
O processo de aceitação e superação ainda estava começando. Por conta do estigma social, Eduardo ainda tinha medo e vergonha do diagnóstico, e vivia em constante alerta, escondendo até mesmo os medicamentos antirretrovirais que, hoje, ele faz questão de mostrar e incentivar recém-diagnosticados a aderir ao tratamento. Mas, nem sempre foi assim. Ele também passou por uma fase em que resolveu abandonar o tratamento.
“Não foi fácil. Pra mim, eu estava escondendo algo de todo mundo – apesar de não ser obrigado a contar – e isso me sufocava. Daí percebi que eu já estava em depressão novamente. Abandonei o tratamento por mais ou menos 4 meses, raspei a cabeça, bebia muito, vendia minhas coisas pra beber. Me importava muito com a opinião das pessoas e não tinha minhas concepções”, conta.
Foi então que ele conheceu a “Rede de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids do Amazonas”, onde encontrou acolhimento e informações compartilhados por pessoas que vivem e convivem com o HIV. No movimento, ele se dedicou a aprender cada vez mais sobre a condição e a enfrentar o preconceito, tornando-se um grande propagador da conscientização sobre o HIV e o tratamento adequado.
Ocupação
Hoje, Eduardo trabalha como atendente e repositor em uma rede de supermercados, e dedica sua vida a acolher e orientar recém-diagnosticados, mostrando que existe vida após o diagnóstico de HIV. E os sonhos que foram abalados com o choque inicial do diagnóstico? Continuam vivos, e Eduardo destaca um deles: “Ano que vem, se tudo der certo, vou quitar minha casa”.