Cenas de longas filas e pessoas acampadas chamaram atenção recentemente em Ciudad del Este, na fronteira com o Brasil. Centenas de brasileiros passaram horas — e, em alguns casos, mais de um dia — aguardando atendimento em mutirões organizados pelo governo paraguaio para regularização migratória. A mobilização evidencia um fenômeno crescente: o aumento do número de brasileiros interessados em viver no país vizinho.
A iniciativa faz parte de uma estratégia do Paraguai para agilizar a emissão de documentos de residência. Durante os atendimentos, senhas são distribuídas ainda nas primeiras horas da manhã, o que leva muitos interessados a chegarem com antecedência e improvisarem estruturas para enfrentar o calor, a chuva e o cansaço.
Dados recentes indicam que o fluxo migratório tem se intensificado. Em 2025, mais de 23 mil brasileiros obtiveram autorização de residência no Paraguai, número que supera com folga outras nacionalidades. A expectativa das autoridades locais é de que esse volume continue crescendo nos próximos anos.
A cidade de Ciudad del Este se consolidou como principal porta de entrada, tanto pela proximidade geográfica quanto pela tradição comercial. Para lidar com a demanda, o governo tem ampliado os mutirões itinerantes, levando serviços de imigração a diferentes regiões do país.
Perfil dos interessados mudou nos últimos anos
Se antes a maior parte dos brasileiros que buscavam o Paraguai era formada por estudantes — especialmente de cursos de Medicina —, o cenário atual mostra uma diversificação. Hoje, empresários, trabalhadores autônomos, aposentados e famílias inteiras figuram entre os principais interessados.
Muitos relatam insatisfação com o ambiente econômico brasileiro e apontam o desejo de empreender ou reduzir custos como fatores decisivos para a mudança. Além disso, há quem busque uma rotina considerada mais tranquila ou alinhada a valores pessoais.

Entre os principais atrativos do Paraguai está o sistema tributário simplificado, conhecido como modelo “10-10-10”, que estabelece alíquotas reduzidas para impostos sobre consumo, renda e empresas. Em comparação com o Brasil, onde a carga tributária é significativamente maior, o país vizinho surge como uma alternativa para quem deseja abrir negócios ou reduzir despesas.
Outro fator frequentemente citado é o custo de vida mais baixo, especialmente em áreas como energia elétrica, alimentação e moradia. O modelo de produção industrial conhecido como “maquila” também contribui para atrair empresas, ao permitir a importação de insumos com baixa tributação e exportação com incentivos fiscais.
Desafios estruturais ainda preocupam
Apesar das vantagens econômicas, especialistas alertam para limitações importantes. O sistema de saúde paraguaio, por exemplo, é considerado menos estruturado que o brasileiro, o que leva alguns imigrantes a recorrerem a serviços no Brasil, especialmente em cidades de fronteira.
Além disso, o mercado de trabalho apresenta alta taxa de informalidade, e benefícios trabalhistas são mais restritos. A menor arrecadação de impostos também impacta a capacidade do Estado de investir em infraestrutura, educação e serviços públicos.
Outro elemento relevante nesse processo é o papel das redes sociais. Vídeos e relatos que destacam vantagens de viver no Paraguai têm se multiplicado na internet, muitas vezes acompanhados de serviços de assessoria para imigração. No entanto, especialistas recomendam cautela, já que nem sempre as informações refletem a realidade completa.
Nem todos permanecem no país
Embora o número de interessados seja alto, nem todos os brasileiros que se mudam para o Paraguai permanecem de forma definitiva. Dados indicam que a maioria solicita residência temporária, enquanto uma parcela menor opta pela permanência.
A proximidade geográfica facilita o retorno ao Brasil, o que contribui para esse comportamento. Há relatos de imigrantes que, após a mudança, não percebem grandes diferenças ou enfrentam dificuldades de adaptação.
O aumento da migração brasileira para o Paraguai revela mais do que uma busca individual por melhores condições de vida. Trata-se de um reflexo de transformações econômicas, sociais e até culturais que influenciam decisões de mobilidade na América do Sul.







