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É preciso conversar sobre violência sexual com as crianças, afirma neuropsicopedagoga

Em entrevista à A CRÍTICA, a profissional ressalta que a conversa pode ocorrer desde cedo, conforme o entendimento da criança

Publicado em 01/06/2024 às 11h34
É preciso conversar sobre violência sexual com as crianças, afirma neuropsicopedagoga
Foto: Divulgação

A violência sexual é um tema delicado e é imprescindível que pais e educadores estejam preparados para abordar esse assunto com as crianças de forma adequada. A intervenção de uma neuropsicopedagoga pode ser fundamental nesse processo, visto que essa profissional compreende a relação entre o funcionamento do cérebro e o processo de aprendizagem, podendo oferecer estratégias eficazes para abordar o tema de forma assertiva.

É importante ressaltar que a violência sexual contra crianças e adolescentes é uma realidade que preocupa e que precisa ser combatida de forma intensiva. Só neste, segundo o Painel de Dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, quase 12 mil denúncias relacionadas a violência sexual de criança e adolescentes foram registradas.

A ocorrência frequente de casos de abusos tem levado cada vez mais pais e educadores a se questionarem sobre a melhor maneira de abordar o assunto com as crianças.

Uma questão comum que surge nesse contexto é a partir de qual idade os pais devem introduzir o tema da violência sexual com os filhos.

Em entrevista à reportagem de A CRÍTICA, a neuropsicopedagoga amazonense Jessica Jacquiminouth Aires indica que a conversa pode e deve ocorrer desde cedo, adaptando-se à capacidade de compreensão da criança. Sendo essencial abordar o assunto de forma natural e tranquila, sem detalhes explícitos que possam assustar a criança.

“É importante orientar a criança desde pequena sobre o próprio corpo e ouvi-la com atenção, validando os seus sentimentos e respeitar também quando ela não gosta de alguém. Isso é muito importante, porque a gente tem aquele hábito de quando a criança fala com o fulano, abraça o fulano, a gente vai lá e força um pouco. Isso não é muito recomendável, porque ela precisa saber os limites ali. Quando você for conversar sobre assuntos difíceis e delicados como abuso sexual, a gente sabe que é um grande desafio para os pais, mas os pais precisam assumir uma postura proativa, sendo um bom ouvinte e tendo muito cuidado com a linguagem que será utilizada. Utilizar uma linguagem apropriada para cada idade, assim você vai poder conseguir fazer com que ela se sinta”, explicou a profissional especialista em neurociência do desenvolvimento humano.

Como abordar a criança

Um dos principais obstáculos dos pais e educadores é a forma de abordagem sem assustar a criança com o tema. A profissional orienta que é possível utilizar métodos simples que ajudam a criança a se sentir confortável para falar sobre o assunto. Utilizando histórias, canções e jogos lúdicos, como por exemplo o “jogo do semáforo”.


Jessica Aires, neuropsicopedagoga (Foto: Acervo Pessoal)

“Falar com a criança sobre esse assunto, é importante que essa conversa não seja uma conversa assustadora. O pai pode criar uma história, uma fábula, uma canção, usando uma linguagem adequada para cada idade. Nós temos jogos, por exemplo, o jogo do semáforo, que tem ali as cores vermelha, amarela e verde, que pode desenhar, por exemplo, o corpo da criança e colocando essas cores nos lugares e explicando de um por um a um onde eu não pode tocar e assim a gente vai adentrando nesse tema”, orientou Jacquiminouth Aires.

A neuropsicopedagoga acrescenta que o olhar atento sobre a criança e com ela interage com as pessoas ao redor também pode ser um bom indicador.

“E para os pais, é importante observar, tenha cuidado, observe os sinais, verifique quem são essas pessoas que estão ali perto dessa criança, o jeito que eles olham para a sua criança, direcione a criança para que também ela consiga ter em você um porto seguro e um diálogo aberto para lhe falar tudo o que for necessário sem medo”, acrescentou.

É preciso combater

O mês do combate à violência sexual infantil, que ocorre em maio, é uma oportunidade para intensificar a conscientização sobre o tema e promover ações de prevenção. Mas, segundo a pedagoga Jessica Natasha é crucial que a discussão seja constante ao longo do ano, para que crianças e adolescentes se sintam seguros em compartilhar qualquer situação de abuso.

“Infelizmente, nós estamos observando aí o crescente índice de abuso infantil. Nós vemos diariamente essas notícias. É um cenário muito difícil. E essas instruções não impedirão absolutamente o abuso sexual, mas as crianças correm um risco muito maior sem essas informações. Então, o conhecimento é uma força poderosa para reverter esse cenário de abuso sexual na infância, especialmente com aquelas crianças pequenas que são alvo mais fácil devido à sua inocência e até à ignorância nessa área”, pontua.

A profissional ressalta que a conversa diária com os pequenas é a chave para entender o que acontece com a criança e descobrir se ela foi vítima de algum abuso. 

“É muito importante ter conversas frequentemente, uma vez não é o suficiente e esse tópico ele deve ser revisitado sempre, sempre na hora do banho, na hora de se divertir. Então é muito importante que os pais criem esse elo de confiança com as crianças. A maioria dos abusadores, ele é um parente, é um amigo, que a gente tem visto aí, ou alguém de confiança da família, então é importante que a criança saiba que ela deve estar segura, como ela está segura, seja com quem for”, ressalta.

Políticas de assistência

É essencial que políticas públicas sejam implementadas para combater e reverter esse cenário trágico, como afirma a neuropsicopedagoga que também é servidora pública. Além disso, a educação e a conscientização são peças-chave nesse processo.

“Para que haja uma conscientização maior e ação de combate esta prática criminosa, é importante que sejam criadas ações pedagógicas, principalmente nas escolas onde nós temos profissionais capacitados para lidar com esse assunto de maneira lúdica, trazendo ali falas em pontos importantes para as crianças, ensinando os limites do corpo, demonstrando que as partes do corpo são íntimas, falar sobre o corpo também, dizer que segredos eles são ruins, falando sobre fotografia, que hoje é muito comum, todo mundo hoje tem um celular, é importante dizer que não deve se permitir ou você também não deve fotografar partes íntimas, ensinar sobre essas situações assustadoras ou até mesmo desconfortáveis, dizer que ela, para a criança, que ela nunca vai se dar mal lhe contando sobre o segredo do corpo”, descreve Aires.

Segundo a profissional especialista em neuropsicopedagogia, os pais e educadores desempenham um papel fundamental na prevenção da violência sexual, ao promoverem um ambiente de diálogo aberto e acolhedor, e ao ensinarem às crianças noções de autocuidado e respeito ao próprio corpo.

“É muito importante que a criança se sinta segura para ela falar, trazer ali estratégias para dizer que a criança, e mesmo em um local que ela conheça todo mundo, as regras relacionadas ao seu corpo são as mesmas, seja para pai, mãe, tio, vizinho, parente, amigo, as regras que serão ensinadas, tudo que será ensinado ali deve ser para todos”, concluiu.

Diante desse contexto, a neuropsicopedagoga destaca que é fundamental que os pais e educadores buscam orientações que ajudam a contribuir para que as crianças estejam mais preparadas para lidar com situações de violência sexual. “A prevenção é a melhor forma de proteger as crianças e garantir um futuro mais seguro e saudável para todos”.

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