Faces do massacre
Princípios norteadores da humanidade estão sendo lançados no esgoto, lá e cá, enquanto a versão mais perversa dos políticos dança diante de nós
O massacre no Oriente Médio eleva ao grau máximo o confronto de poderes no mundo e desnuda a posição de governantes em favor da chacina. Reapresenta a lógica hegemônica de que as vidas de alguns humanos valem mais – seriam humanos superiores – e, por isso, devem ser defendidas a todo custo. Governantes de muitas nações apressaram-se a oferecer e legitimar mais uma licença para matar. A matança está sendo feita em nome da ampliação do poder e da tomada de terras.
Por aqui, no Amazonas, um tipo de massacre permanece em realização. Ora com a aparição dos corpos, ora na revelação das formas de sujeição de pessoas, grupos e povos numa proposta de aniquilamento, em ritmo mais brando, se é que é possível assim designar. Os eventos climáticos extremos em conexão com os crimes ambientais destroem vidas de humanos e não humanos (153 botos mortos, milhares de peixes e de outras espécies da fauna e da flora asfixiadas, pessoas doentes), obrigam a deslocamento de famílias e aprofundam a pobreza de muitos.
O rio Negro, belo, fundamental, um gigantesco território pluriverso, o sétimo maior rio do mundo, em volume de água, grita à humanidade ao atingir o nível de 13,49 metros na terça-feira, uma cena que há 121 anos não era registrada e o foi, na segunda-feira, quando a cota de medição oficial registrou 13,59 metros. O rio está secando, as vidas estão sendo mortas. Princípios norteadores da humanidade estão sendo lançados no esgoto, lá e cá, enquanto a versão mais perversa dos políticos dança diante de nós.
Que as fotografias espalhadas pelo mundo, os vídeos e os relatos em outras plataformas possam se fazer presente quando a chuva voltar, o rio Negro voltar e o fogo for abrandado para nunca esquecermos destes dias de sofrimento. Temos hoje, mais uma vez, nos relatos históricos, o tamanho da medida de banalização da vida, do quanto o projeto de poder investe para promover a destruição de humanos percebidos como obstáculos a serem retirados, encurralados, mortos.
Reside na memória que escuta, sente e age a possibilidade de construir um não coletivo a esse modelo de existência na terra. O Amazonas, sob o controle dos propagadores do retrocesso, da exploração e dos que festejam o aprofundamento da desigualdade, dos que ainda triunfam diante do flagelo humano e da destruição de bens da natureza, clama pelo memoriar para que a versão da história única, feita pela publicidade que agride, não prevaleça sobre nós, assujeitando-nos cada vez mais.