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A Crítica
Meio Ambiente

Floresta garante proteína amazônica

Estudo revela que áreas preservadas mantêm diversidade de animais silvestres essenciais à alimentação

Publicado em 07/12/2025 às 14h21 · Atualizado em 07/12/2025 às 16h24
Floresta garante proteína amazônica
Foto: André Antunes/RedeFauna

Florestas preservadas são fundamentais para garantir o acesso à carne de animais silvestres consumida por povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos agricultores em toda a Amazônia. Um artigo publicado

na Nature, com participação de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), mostra que áreas desmatadas em mais de 70% sofreram redução de 67% na quantidade de animais e na produtividade da carne, afetando diretamente a segurança alimentar desses povos.

O estudo, conduzido por 59 pesquisadores de instituições nacionais e internacionais, analisou quase 60 anos de dados sobre caça na região — de 1965 a 2024 — em 625 localidades da Amazônia. A pesquisa identificou 490 espécies consumidas, com predominância de 20 grupos responsáveis por 72% dos animais caçados. Entre eles, destacam-se queixada, anta e paca, sendo esta última a espécie mais capturada no bioma.


Participação de pesquisadores indígenas foi essencial para mapear práticas de caça e revelar a importância da floresta (Foto: André Antunes/RedeFauna)

Os pesquisadores estimam que a carne de tetrápodes selvagens — mamíferos, aves, répteis e anfíbios — produzida na Amazônia é suficiente para suprir quase metade da necessidade diária de proteína e ferro dos 11 milhões de habitantes de áreas rurais, além de fornecer boa parte das vitaminas do complexo B e do zinco.

O desmatamento, no entanto, compromete essa fonte essencial de nutrientes. Em áreas severamente degradadas, a fauna passa a ser composta sobretudo por espécies generalistas, como tatus, capivaras e pombas, mais tolerantes à fragmentação da floresta e à presença humana. Nas proximidades de centros urbanos, onde a demanda por proteína animal é maior, essas espécies tornam-se ainda mais predominantes.

Para o ecólogo de fauna André Antunes, primeiro autor do artigo e pesquisador da RedeFauna, a caça tradicional na Amazônia é regulada por saberes que existem há milênios.

“Proteger a Amazônia é vital não apenas para conservar a biodiversidade, mas para garantir a saúde, o bem-estar e a segurança alimentar e nutricional de milhões de habitantes rurais”, afirma.


Pesquisadores registram espécies consumidas por comunidade rural, povos indígenas e tradicionais da Amazônia (Foto: André Antunes/RedeFauna)

O trabalho também contou com a coparticipação de pesquisadores indígenas de dez povos, incluindo Surui, Paumari, Katukina, Baniwa, Waurá, Apurinã, Tikuna, Kaxinawá, Kuikuro e Kaixana. Do Inpa, são coautores os pesquisadores Bruce Nelson, Miguel Aparício e George Rebêlo, além de egressos dos programas de pós-graduação.

Segundo os autores, uma “riqueza invisível” sustenta a segurança nutricional dos povos amazônicos. Eles estimam que mais de meio milhão de toneladas de biomassa animal são extraídas anualmente, resultando em cerca de 0,37 milhão de toneladas de carne efetivamente comestível. Em valores equivalentes à carne bovina, essa produção teria valor aproximado de US$ 2,2 bilhões por ano.

Na Amazônia, existem mais de 2 milhões de caçadores indígenas e tradicionais, que dependem de sistemas alimentares baseados na caça, pesca, agricultura itinerante e coleta. As 490 espécies caçadas representam cerca de 10% dos tetrápodes conhecidos na região.

O estudo enfatiza que iniciativas que tentam substituir
a carne silvestre por carne de animais domésticos desconsideram o contexto sociocultural e ambiental da Amazônia. Segundo os autores, produzir a mesma quantidade de carne bovina exigiria a conversão de até 64 mil km² de floresta, com a emissão potencial de 1,16 bilhão de toneladas de CO₂, além de oferecer menor valor nutricional em micronutrientes essenciais.

Custo ambiental da substituição

Os autores alertam que substituir a carne silvestre por carne doméstica não é uma alternativa sustentável. Para produzir o equivalente à caça amazônica, seria necessário converter grandes extensões de floresta em pastagens, além de liberar emissões significativas de carbono.


(Foto: André Antunes/RedeFauna)

Nutrientes essenciais presentes na carne silvestre — como ferro, zinco e vitaminas do complexo B — também são mais escassos na carne de frango, o que poderia agravar deficiências nutricionais entre populações rurais.

Conhecimento intercultural

O conjunto de dados utilizado na pesquisa — chamado Marupiara, termo tupi que significa “caçador virtuoso” — reúne informações produzidas por pesquisadores indígenas e não indígenas em 342 comunidades do Brasil, Peru e Guiana. Além disso, foram analisadas fontes secundárias de 203 estudos acadêmicos, totalizando 447.438 registros de caça individual.

A pesquisa foi endossada pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS). Para o pesquisador e líder indígena Dzoodzo Baniwa, a participação dos povos indígenas no artigo marca um avanço na democratização da ciência. “É uma reparação histórica que valoriza nosso protagonismo e garante presença ativa na produção científica”, afirma.

Ele destaca que a integração de conhecimentos tradicionais e científicos fortalece a justiça epistêmica. “A riqueza do conhecimento está na diversidade dos povos e dos ecossistemas. Essa diversidade precisa ser reconhecida como avanço científico também”, completa.