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A Crítica
Meio Ambiente

Turismo comunitário no Rio Negro é uma iniciativa dos próprios ribeirinhos

Proposta para o projeto partiu dos comunitários, que buscaram auxílio técnico de entidades do terceiro setor

Publicado em 03/11/2018 às 04h23 · Atualizado em 19/09/2026 às 05h39
Turismo comunitário no Rio Negro é uma iniciativa dos próprios ribeirinhos
Foto: Yan Boechat

Nas Terras Indígenas, os territórios são compartilhados e a gestão deles também. Um discurso corrente entre os comunitários da região coberta pela Associação das Comunidades Indígenas e Ribeirinhas do Rio Negro (Acir) é o de que não dá para esperar muito que o poder público se mobilize para fazer algo em prol da melhoria de vida deles.

Por isso mesmo, eles tomam iniciativas e correm atrás de apoios em entidades que abraçam suas causas. As coisas por lá são assim desde antes da Constituinte de 1988, cujos direitos foram assegurados aos indígenas graças à pressão de povos organizados, entre eles os do Alto e Médio Rio Negro.

Para desenvolver o projeto das “Serras Guerreiras”, as 13 comunidades envolvidas tiveram que decidir e a maioria aprovou a ideia, como contou a presidente da Acir, Cleocimara Reis Gomes, da comunidade Cartucho, a maior da região.


A organização é forte nas comunidades. Eles se reúnem várias vezes para avaliar e preparar as expedições (Foto: Paula Arantes)

“Queríamos desenvolver alguma atividade que gerasse renda, mas depois que tivemos algumas experiências ruins de pesca esportiva por aqui, em votação, a maioria das 13 comunidades escolheu experimentar o turismo”, disse.

“Então, depois que ficou decidido pela maioria, fomos articulando, atrás de parcerias e de conhecer trabalhos para construir esse projeto. Tivemos apoio da Foirn, da Funai e do ISA, que apresentou para a gente a Garupa”, completou.

A coordenadora da Garupa, Paula Arantes, explicou que todas as decisões foram dos comunitários e que as ONGs apenas deram suporte técnico para realizar a atividade.

“Toda decisão foi tomada por eles, primeiro de ter o turismo, depois o que fazer com o turista, o que eles não querem que o turista faça, quais são os limites, as atividades que eles gostariam de mostrar, os lugares que eles não querem mostrar, as datas que eles querem ou não receber”.

A antropóloga Camila Barra, do ISA, ressaltou que esse tipo de turismo já é um desafio por si e que desenvolvê-lo na Amazônia é mais difícil por conta do custo logístico e, dentro de Terras Indígenas, é ainda mais desafiador.

“Primeiro é preciso fazer um projeto que se sustente, que se pague. Já a logística faz com que se tenha um roteiro caro. Para além disso, há a gestão financeira para criar condições para que essa iniciativa econômica esteja sob a governança das comunidades”.

Na concepção do projeto, comunitários e os representantes das entidades envolvidas tiveram a preocupação de não deixar as comunidades dependentes dos recursos advindos das visitas, nem que elas acabassem por alterar significativamente a rotina dos ribeirinhos.

As próprias comunidades decidem como dividir o dinheiro recebido pelas expedições: ou dividem entre aqueles comunitários envolvidos diretamente ou vira um recurso que custeará algo coletivo.

De qualquer forma, a maior parte do valor arrecadado acaba sendo aplicada em algo que beneficiará todos, como geradores de energia, refrigeradores, motores, entre outras coisas.

Serras Guerreiras de Tapuruquara

Esta reportagem faz parte de uma série publicada na edição impressa do jornal A Crítica do dia 24 de junho de 2018.

Confira as outras reportagem da série:

1 – Turismo comunitário revela lado pouco conhecido da Amazônia no Rio Negro

2 – Projeto turístico em Terras Indígenas pioneiro estimula o resgate cultural

3 – Turismo comunitário no Rio Negro é uma iniciativa dos próprios ribeirinhos

4 – Expedição a comunidades do Rio Negro é uma experiência humana profunda

5 – Seleção para participar das viagens do projeto de turismo comunitário é criteriosa