Proposta para o projeto partiu dos comunitários, que buscaram auxílio técnico de entidades do terceiro setor
(Turistas e comunitários se despedem após breves, mas intensos dias de convívio. Foto: Yan Boechat)
Nas Terras Indígenas, os territórios são compartilhados e a gestão deles também. Um discurso corrente entre os comunitários da região coberta pela Associação das Comunidades Indígenas e Ribeirinhas do Rio Negro (Acir) é de que não dá para esperar muito que o poder público se mobilize para fazer algo em prol da melhoria de vida deles.
Por isso mesmo eles tomam iniciativas e correm atrás de apoios em entidades que abraçam suas causas. As coisas por lá são assim desde antes da Constituinte de 1988, cujos direitos aos indígenas foram assegurados graças à pressão de povos organizados, entre eles os do Alto e Médio Rio Negro.
Para desenvolver o projeto das “Serras Guerreiras”, as 13 comunidades envolvidas tiveram que decidir e a maioria aprovou a ideia, como contou a presidente da Acir, Cleocimara Reis Gomes, da comunidade Cartucho, a maior da região.
A organização é forte nas comunidades. Eles se reúnem várias vezes para avaliar e preparar as expedições. Foto: Paula Arantes
“Queríamos desenvolver alguma atividade que gerasse renda por aqui, mas depois que tivemos algumas experiências ruins de pesca esportiva por aqui, em votação, a maioria das 13 comunidades escolheu experimentar o turismo”, disse.
“Então, depois que ficou decidido pela maioria, fomos articulando, atrás de parcerias e de conhecer trabalhos para construir esse projeto. Tivemos apoio da Foirn, da Funai e do ISA, que apresentou para a gente a Garupa”, completou.
A coordenadora da Garupa, Paula Arantes, explicou que todas as decisões foram dos comunitários e que as ONGs apenas deram suporte técnico para realizar a atividade. “Toda decisão foi tomada por eles, primeiro de ter o turismo, depois o que fazer com o turista, o que eles não querem que o turista faça, quais são os limites, as atividades que eles gostariam de mostrar, os lugares que eles não querem mostrar, as datas que eles querem ou não receber”.
A antropóloga Camila Barra, do ISA, ressaltou que esse tipo de turismo já é um desafio por si e que desenvolvê-lo na Amazônia é mais difícil por conta do custo logístico, e dentro de Terras Indígenas é ainda mais desafiador. “Primeiro é preciso fazer um projeto que se sustente, que se pague. Já a logística faz com que se tenha um público para um roteiro caro. Para além disso, há a gestão financeira disso, criar condições para que essa iniciativa econômica esteja sob a governança das comunidades”.
Na concepção do projeto, comunitários e os representantes das entidades envolvidas tiveram a preocupação de não deixar as comunidades dependentes dos recursos advindos das visitas, nem que elas acabassem por alterar significativamente a rotina dos ribeirinhos.
As próprias comunidades decidem como dividir o dinheiro recebido pelas expedições: ou dividem entre aqueles comunitários envolvidos diretamente ou este vira um recurso que custeará algo coletivo. De qualquer forma, a maior parte do valor arrecadado acaba sendo aplicada em algo que beneficiará todos, como geradores de energia, refrigeradores, motores, entre outras coisas.
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Confira as outras reportagem da série:
1 - Projeto de turismo comunitário mostra a Amazônia sob um outro aspecto: https://www.acritica.com/channels/governo/news/projeto-de-turismo-comunitario-mostra-a-amazonia-sobre-um-outro-aspecto
2 - Projeto turístico em Terras Indígenas pioneiro estimula o resgate cultural dos povos: https://www.acritica.com/channels/governo/news/projeto-turistico-em-terras-indigenas-pioneiro-estimula-o-resgate-cultural-dos-povos
3 - Turismo comunitário no Rio Negro é uma iniciativa dos próprios ribeirinhos: https://www.acritica.com/channels/governo/news/turismo-comunitario-no-rio-negro-e-uma-iniciativa-dos-proprios-ribeirinhos
4 - Expedição a comunidades do Rio Negro é uma experiência humana profunda: https://www.acritica.com/channels/governo/news/expedicao-a-comunidades-do-rio-negro-e-uma-experiencia-humana-profunda
5 - Seleção para participar das viagens do projeto de turismo comunitário é criteriosa: https://www.acritica.com/channels/governo/news/selecao-para-participar-das-viagens-do-projeto-de-turismo-comunitario-e-criteriosa