Manaus dom, 18 out
A Crítica
Opinião

O país da caipirinha

A cultura popular fez da ‘vacina com álcool’ a versão contemporânea do ‘leite com manga’, mas nenhuma das duas combinações faz mal

Publicado em 27/06/2021 às 14h40 · Atualizado em 24/03/2022 às 22h50
O país da caipirinha

A terrível pandemia que nos pegou a todos de surpresa mudou hábitos, rotinas, e nossa saúde mental. Da noite para o dia, vimo-nos obrigados à clausura, cercados por toda sorte de dramas familiares. Abalados e sem a perspectiva de um fim, a ansiedade que vivemos foi inédita para a humanidade.

Aos poucos, fomos acolhidos pela tecnologia, que facilitou reuniões à distância, trabalho em casa, e pequenas confraternizações on-line, com familiares e amigos de todo o planeta. Habitualmente me reúno com um amigo suíço que mora em Melbourne. Pela diferença do fuso horário, eu costumo tomar vinho e ele café, enquanto conversamos sobre como a Austrália conseguiu controlar radicalmente a entrada do vírus. A gravação de um podcast, às segundas-feiras, reunia amigos, sempre regados a boas doses de um bom scotch.

Conversando com um amigo que mora no Flamengo, ele me perguntou como eu conseguia lidar com tantas dificuldades durante o pico da pandemia, em Manaus. Eu respondi que só com uma dose de um bom brandy, no fim da noite. Em consultas domiciliares aos pacientes, muitos deles, mais aliviados, presenteavam o médico com uma garrafa de Merlot que sobrou da ceia do Natal. Com a alta da moeda americana, as bebidas nacionais ganharam destaque e começaram a ser mais apreciadas no mercado interno.

E assim fomos assistindo ao aumento lento e gradual do consumo de álcool. A bebida alcoólica fez o papel de maior ansiolítico da pandemia. Deliveries foram abertos, com sucesso, bastando um clique no aparelho celular para que as nossas bebidas preferidas chegassem em casa, em tempo recorde, ainda que nosso olfato danificado nos tenha deixado menos seletivos. Tratou-se de um dos segmentos econômicos de maior crescimento no último ano, em oposição à falência de tantos outros.

Não foi apenas a necessidade crescente do álcool em gel para assepsia das mãos que fez crescer a economia canavieira, mas também o consumo de aguardente, entre a população mais humilde. Com a baixa mobilidade, pais e mães de família, em visível sofrimento, passaram a ingerir mais álcool, como forma de tolerar o cenário surrealista. Crianças fora da escola viram suas famílias se embebedarem dentro de casa. 

A Organização Mundial da Saúde fez um apelo para que as pessoas evitassem o excesso de consumo alcóolico, durante a pandemia. Existe grande preocupação com uma onda de doenças mentais após o fim disto tudo, em especial ansiedade e alcoolismo.

O ano era 1918, a gripe espanhola chegou ao Rio de Janeiro. A população aflita morria em casa, sem acesso a hospitais. Não havia medicações ou vacinas. Famílias inteiras eram dizimadas. O presidente da República morria da gripe, na capital do país.

Evitando aglomerações, muitos fugiram para sítios e fazendas ao redor da Guanabara. Lá, isolados, os caipiras preparavam o elixir preventivo da gripe: limão espremido, açúcar e uma dose de cachaça. Tiro e queda, quem tomava não pegava a gripe. Nascia a tradicional caipirinha.

Cem anos depois, a caipirinha foi trocada por drogas usadas para tratar malária e vermes. Chegaram algumas vacinas, em tempo recorde, meses depois. Eram poucas as doses disponíveis. Não havia como vacinar todos. Foi preciso uma estratégia para evitar filas de pessoas desesperadas querendo ser imunizadas. Uma notícia falsa se espalhou rapidamente, sobre os potenciais efeitos da vacina russa entre os bebedores de Vodka. Logo o assunto estava entre os mais comentados nas redes sociais: ‘Se for vacinar, não beba’.

Após muito esforço, chegaram mais vacinas, e agora é a hora de vacinar em massa a população acima de 18 anos de idade. Encontrei na porta de um posto de vacinação um homem, acompanhando a esposa que foi se vacinar. Perguntei dele se já havia sido imunizado. Ele balançou a cabeça e me disse: ‘Eu não, doutor, amanhã é sábado, tenho uma cerveja marcada lá na casa do meu compadre, e se eu vacinar, não posso beber por 30 dias.’

Apesar de nenhum estudo apontar interações entre as vacinas e a ingestão aguda de álcool, a cultura popular fez da ‘vacina com álcool’ a versão contemporânea do ‘leite com manga’. Seria importante ferramenta de controle do alcoolismo, se a população não fizesse sempre a escolha pela birita. Brindemos, pois, às vacinas!