Manaus dom, 1 nov
A Crítica
Opinião

“Anti” por quê?

O movimento antivacina foi listado em 2019 como uma das dez ameaças à saúde mundial. Sem vacina não haverá saúde, seja ela física, emocional ou econômica.

Publicado em 23/01/2021 às 22h30 · Atualizado em 24/03/2022 às 22h58
“Anti” por quê?

Semana se arrastou pesada, triste, trágica. Curva do número de contágios subindo assustadoramente: registramos 5 mil novos casos em um só dia, 3 mil em outro, 2 mil em outro… A de mortes também, quase sempre acima da casa dos 50 óbitos diários. Devemos ter fechado a pior semana desde o início da pandemia, em março de 2020.

Enquanto não baixar a curva de contágios, nada acontecerá. E ela só reduzirá com o cumprimento dos protocolos de biossegurança: usar máscara, higienizar as mãos, manter o distanciamento físico. Mas ouço relatos de que isso não está acontecendo em toda a cidade. Até quando nos veremos envolvidos em tanta dor?

Em meio a tudo isso, inevitável o estresse emocional, a tristeza, a ansiedade por falta de melhores horizontes. A falta de oxigênio, a falta de vacina, a falta de leitos. Os olhos de Brasil sobre nós, manchetes sobre Manaus na mídia internacional. Parece um redemoinho, triturando tudo. Sucessivas crises: políticas, econômicas, de credibilidade. Mas precisamos manter o equilíbrio para seguir em frente. Está difícil. 

Há uma semana assistimos em rede nacional a aprovação das vacinas, os primeiros vacinados, e nos acendeu uma esperança. Não demorou muito para sabermos que a quantidade disponível de imunizantes é insuficiente e não cobrirá, de imediato, grande parte dos profissionais de saúde envolvidos na linha de frente do combate ao coronavírus, nem os idosos, sejam eles maiores de 80 anos, ou maiores de sessenta.

Em meio a tudo isso, me deparo com um declaração ouvida por um conhecido em uma fila de supermercado: “Prefiro morrer a tomar essa vacina”! Desesperador. Não foi o único relato antivacina que tomei conhecimento, foram centenas. Mas foi o mais absurdo. Por que isso?

Mas a memória de quem vai fazer 55 não me trai. Lembrei quando prestei o serviço militar, em 1983, e recebi uma vacina em teste para leishmaniose. Até hoje não sei se lançaram ou não a tal vacina. Mas não tive leishmaniose. Recordei da minha infância quando fui para fila gigantesca da vacina contra a meningite – eu sabia que estava ali para não adoecer e morrer. Havia propaganda na televisão e no rádio. 

Também me veio à mente quando, no ensino médio, fui muitas vezes voluntário para ajudar nas campanhas de vacinação na cidade. A gente ia fardado e saia de lá, ao final do dia, com um sentimento indescritível de dever cumprido, de ter feito a parte que nos cabia enquanto cidadão.

Eu cresci aprendendo que a vacina é uma medida de saúde coletiva preventiva fundamental. De onde vem tanto ódio à vacina? Estamos brigando para nos mantermos vivos e queremos jogar fora a maior chance de fazê-lo? E pior, vacina só funciona quando cobre um percentual significativo da população, pelos menos uns 60%.

O movimento antivacina foi listado em 2019 como uma das dez ameaças à saúde mundial. E nós estamos embarcando nessa? Ignorância? Crueldade? Suicídio? Com certeza, seja qual for a resposta, é desumano! Sem vacina não haverá saúde, seja ela física, emocional ou econômica. #Pensa