Informalmente 2
Sabe aquele termo que você ouviu em algum momento da sua vida mas não deu a menor atenção? “Precarização das relações de trabalho”? Pois é...
Essa semana, frente a tantas crises, me detive em refletir sobre as nossas relações de trabalho. Um amigo formado em técnico em radiologia, algo equivalente a um curso superior, voltou ao interior porque não conseguia emprego em Manaus. Lá, na cidade onde parte da família mora, seria mais fácil conseguir trabalho. Fiquei imaginando que diante da crise sanitária que estamos vivendo talvez não fosse tão complicado assim! Para resumir a história do meu amigo técnico: ele está ocupado, sendo voluntário no hospital da cidade, na esperança (sem promessa) de ser contratado.
Em dez anos, evoluímos da quase exclusividade dos termos “empregado” e “desempregado” para um novo vocabulário: ocupado, desocupado, e todas as novas “desinências número-pessoais e modo-temporais” advindas da informalidade. Imagine se, há uma década, alguém lhe dissesse que haveria agências de emprego que não seriam fiscalizadas pelo Ministério do Trabalho, que não teriam qualquer vínculo, nem com os agenciados, nem com os contratantes dos agenciados, que não dariam garantias aos trabalhadores e que nem pagariam impostos!!!
Já imaginou? Impensável, né? Mas se a gente observar bem, isso já acontece. Veja o exemplo do transporte por aplicativo – é praticamente esse sistema. Você se cadastra em um aplicativo, paga um percentual de todo o seu faturamento bruto à administradora do app, além de arcar com as despesas de abastecimento e manutenção do veículo.
Isso se você tem um carro. Porque se você não é proprietário de um veículo, você ainda paga aluguel a uma locadora – em um ano você ainda não pagou o carro, mas talvez já tenha deixado lá quase o valor dele. Bem, você não tem capital, nem crédito, para comprar o seu na loja, então se submete a isso. Na hora de reclamar, você reclama pra quem? E se você adoecer, ou sofrer algum acidente, que assistência você tem? Da atividade, nenhuma. Tem que ter grana para bancar seus perrengues, ou então correr para os serviços públicos de saúde e assistência, financiados pelos impostos que me parecem não serem devidos pelos aplicativos.
Sabe aquele termo que você ouviu em algum momento da sua vida mas não deu a menor atenção? “Precarização das relações de trabalho”? Pois é, define tudo. A mesma regra se aplica aos aplicativos de entrega – e não é só entrega de restaurante não, tem um que entrega supermercado, comida pronta e outros itens que você queira. Hoje, há apps que permitem você pedir patinete, ônibus e até tuk-tuk. Sempre naquele estilo: prestamos o serviço, cobramos por ele e ficamos com uma parte do faturamento bruto do trabalhador, não importa as despesas que ele tenha para prestar o serviço. Sim, há corridas mais baratas que o valor do combustível consumido. O aplicativo não tem nada a ver com isso – o trabalhador, o associado, o ocupado (nem sei que termo usar) que se vire.
“Mas Orlando, é a evolução proporcionada da internet. É assim aqui e em qualquer lugar do mundo. Ou você vai querer lutar contra a evolução e o futuro?” Bem, esse papo que é assim é QUALQUER canto do planeta é meio que lorota – há países que impõem suas regras. E não me refiro a Essuatíni (antiga Suazilândia). Falo de países do G20. E assim, pode até ser que seja o futuro proporcionado pela tecnologia, etc&tal, mas não consigo achar que não se assemelha a um trabalho semiescravo. Não dá para aceitar tudo. É necessário impor nossos termos também. #Pensa