Manaus seg, 2 nov
A Crítica
Opinião

Sexo dos anjos

Publicado em 13/02/2018 às 08h00 · Atualizado em 13/03/2022 às 22h38
Sexo dos anjos

O Estado brasileiro costuma ser visto como excessivamente grande e pessimamente gerido tanto por seus homens públicos quanto pelos tecnocratas de plantão. No mundo real, onde as pessoas e empresas existem, há sempre uma impressão de que o Estado está na contramão do interesse coletivo, quase sempre defendendo interesses de corporações que pouco ou quase nada agregam na vida de quem está no mundo real.

Pois nessa atual temporada estamos nós, do Amazonas,  diante de um destes momentos em que o debate na esfera pública está completamente desconectado das necessidades dos que habitam o mundo real.

O caso está na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), onde um projeto de lei muda o nome da Superintendência da Zona Franca de Manaus para Superintendência das Zonas Francas da Amazônia. Autor do projeto, o senador Randolphe Rodrigues (PSOL/AP) alega que a Suframa há muito não cuida apenas do Polo Industrial de Manaus, mas de várias outras áreas incentivadas na região. Ele considera que a mudança de nome vai fortalecer a autarquia porque mobilizará forças políticas de todos os Estados da Amazônia onde existam áreas incentivadas. Ponto.

Em Manaus, os representantes da autarquia são contra a mudança, pois consideram que há grandes diferenças entre o modelo existente na capital amazonense e as áreas incentivadas, como a existente em Macapá (AP) e Tabatinga (AM). Consideram que o conceito de Zona Franca é bem restrito e só aplicável ao que existe em Manaus.

Entre os interessados do mundo real, contudo, este debate é sobre o “sexo dos anjos”, pois pouco ou quase nada ajuda na resolução de problemas verdadeiros que travam o modelo de negócios local.

Os representantes das empresas pensam que o debate neste momento poderia ser outro e com muito mais profundidade. Um dos pontos citados diz respeito à desburocratização dos processos e as formas de tornar a autarquia mais eficiente. Liberar recursos contingenciados também seria algo a ser feito imediatamente, mas estes debates são feitos apenas lateralmente e não chegam a bom termo. Enquanto isso, como mostrou A CRÍTICA ontem, as empresas sofrem com a falta de logística para tirar o Estado da crise vendendo mais nos seus mercados consumidores.

Opinião

Sexo dos Anjos

Artigos de Domingo, 13 de Novembro de 2016

Publicado em 13/11/2016 às 03h00 · Atualizado em 24/03/2022 às 23h35
Sexo dos Anjos

Uma das polêmicas da semana foi a retirada, ou melhor dizendo, a “arrancada” da marquise da Loja Marisa, que fica na Eduardo Ribeiro com a Henrique Martins. O imóvel de época, restaurado em sua fachada há anos, num belo projeto do arquiteto Roger Abrahim, sofreu uma violência, uma amputação em sua fachada. Ficou feio e toda a cidade se incomodou. Foi pauta do parlamento, e nós, que por anos alimentamos uma saga modernizadora, que destruiu inúmeros prédios históricos em bom estado de conservação, agora corremos atrás do prejuízo.

Como a cidade agora reclama de suas feridas, o Implurb, aparelho municipal responsável pelo planejamento urbano, publicou uma nota de esclarecimento, informando que embargou e multou a obra. Apesar da loja ter pedido autorização daquele instituto para a manutenção da marquise, não o fez junto ao Iphan, de quem também é necessária a licença. Mas além de relatar o processo legal, a nota avança na informação e esclarece que “a marquise em questão, apesar de estar em imóvel de área de tombamento federal, não aparece em registros históricos datados de 1901-1902, a fachada sim”.

Mais adiante, o documento do Implurb fala que “a marquise, segundo registros fotográficos pesquisados, teria tido instalação a partir do início da década de 10”. E que “pelas fotos localizadas, a marquise tinha apenas a metade do comprimento que tem a atual, ou seja, pode-se entender que 50% da estrutura é um ‘falso histórico’ sem aprovação, conforme registros fotográficos do período e fotos mais atuais”. E eu acabo rindo ao constatar que, a despeito do esforço pela valorização do patrimônio histórico, ainda se faz de tudo para justificar a destruição.

Fiquei me perguntando o que seria “um falso histórico”!? Minha memória de quem acabou de completar cinquentinha me fez recordar que o Teatro Amazonas foi, por muitos anos, cinza, assim como a quase totalidade dos prédios públicos. A Praça do Congresso era dividida em quatro pedaços, passando carros no meio. O Rodway era flutuante mesmo, com os pisos das pontes que levavam até o cais em metal. E os bancos da Praça, hoje Largo, de São Sebastião eram outros. Dá para concluir que “verdadeiro histórico” ou “falso histórico” são uma questão de referência e de ponto de vista cronológico.

Apesar da nota do Implurb tentar, de alguma forma, desqualificar a marquise, ela era bonita, além de útil, numa cidade que registra, ou sol intenso, ou chuvas torrenciais. A marquise completa era até uma questão de conforto ambiental, de utilidade pública. E vamos e convenhamos: discutir essas filigranas, debater o sexo dos anjos, serve pra que mesmo? Não resolve o problema do patrimônio histórico de Manaus, mas ajuda a deslocar a atenção. E postergar uma conversa que tínhamos que ter tido há muito. Desburocratizar a área é urgente. Fazer processos mais ágeis e interativos é uma urgência. A loja pediu pra retirar a marquise para fazer manutenção, apresentou laudo que havia risco de desabamento. Entrou com pedido na Prefeitura. Mas esqueceu do Iphan. Quem está errado? A loja? Ou a burocracia? Pena que a burocracia não trate com o mesmo vigor outros casos bem piores! #Pensa