A luta da população amazonense por um ‘Natal sem fome’
Mais da metade da população brasileira sofre com a falta de alimentos. Quem ganha um salário mínimo, é preciso trabalhar 120 horas para garantir os alimentos básicos como arroz e feijão, de acordo com o Dieese.
Comida é sustento, mas também é desejo e dignidade. Na época das festas de fim de ano, como o Natal e Ano Novo, grande parte dos brasileiros se voltam ao preço de panetones, carnes típicas da época, e mesmo com os altos preços, alguns conseguem driblar este desafio sem deixar de levar comidas especiais para a mesa da ceia familiar.
Mas para famílias em vulnerabilidade social e econômica, conseguir acesso ao mais básico pode ser um desafio quase impossível. Muitas vezes essa realidade só é reduzida graças a doações do poder público, organizações não-governamentais (ONGs) e sociedade civil. Já satisfazer ou mesmo nutrir desejos de comer um biscoito de manhã, uma ceia farta ou até uma fruta seca, é algo muito distante.
Foto: Junio Matos
Mais da metade da população brasileira sofre algum grau de falta de alimentos. Realidade que fica ainda pior por conta da inflação acima de 10% neste ano. Desde antes da pandemia até agora, parece que o ato de comprar todos os alimentos necessários para garantir ao menos três refeições, se torna cada vez mais difícil.
Quem ganha um salário mínimo de R$ 1.100 precisa trabalhar trabalhar por quase 120 horas para comprar os alimentos básicos como arroz, feijão e proteínas, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). E para as pessoas que não possuem renda, será necessário contar com a solidariedade das ruas, para não passar um “Natal com fome”.
Fazendo a diferença
E é nesse contexto de solidariedade que se destaca o trabalho realizado por diversas organizações e entidades como a Arquidiocese de Manaus, por meio da Cáritas Arquidiocesana e Pastorais Sociais. Segundo o secretário-executivo da Cáritas, diácono Afonso Brito, a entidade tem grande preocupação com o aumento da fome e segurança alimentar na capital amazonense, principalmente no período natalino.
“É um período muito propício para ser solidário, há muitas pessoas necessitando. No Brasil e principalmente na capital amazonense, o número de pessoas em situação de vulnerabilidade passando fome, aumentou muito. Temos recebido muita procura em busca de alimento aqui na Cáritas. Tentamos, junto com parceiros, ajudar a minimizar a fome dessas pessoas, entregando mais de 100 cestas básicas para que na Noite de Natal pelo menos se tenha garantido o arroz, feijão e macarrão na mesa de famílias manauaras”, relata o diácono.
Afono Brito reforça a situação econômica preocupante que o Amazonas e o resto do pais está passando e como a sociedade pode ajudar a reduzir essa realidade.
“A Arquidiocese tem feito muito com o pouco que tem, mas é bom que a sociedade amazonense possa ajudar e apoiar porque é um momento muito difícil que estamos vivendo. Muita gente desempregada, muita gente que não tem mais um teto para se abrigar porque não consegue pagar aluguel. É uma situação difícil mas que a gente tenta fazer o melhor. [Esperamos] que a Luz do menino Jesus possa trazer esperança renovada para cada um de nós e que a gente possa ser solidário e ajudar aqueles que precisam de apoio neste período”, acrescentou o secretário da Arquidiocese de Manaus.
A luta contra a fome
Outra entidade que enfrenta de perto a luta contra a fome é o Abrigo Moacyr Alves, localizada no Centro de Manaus. A instituição sem fins lucrativos exerce um papel de fundamental importância na sociedade, realizando a inclusão social de 64 crianças e adolescentes com deficiência por meio de atividades sociais, culturais e educacionais.
No último dia 14 de dezembro, a entidade que se mantém também com a ajuda da sociedade civil, passou por dificuldades de itens usados com maior frequência pelos acolhidos, tendo o estoque zerado de leite em pó integral – utilizado na maioria das refeições. Para tentar suprir esta necessidade, o Abrigo Moacyr Alves realizou campanha de arrecadação que foi bem-sucedidade.
Agora, no período das festas de fim de ano, a realidade é outra. Segundo a assistente social Maria do Socorro Bezerra, o abrigo está com baixo estoque de proteínas (carnes, ovos, frango, e etc), além de utensílios de limpeza e higiene.
“O abrigo atua há mais de 30 anos com a missão de inclusão social. É realizado todos os anos campanhas de arrecadação. As doações que mais necessitamos são de alimentos perecíveis, as proteínas, como carnes, ovos e frangos. Além disso, precisamos de fraldas geriátricas e kits de higiene. Devido a pandemia e isolamento, os doadores não tiveram como vir ao abrigo e isso dificultou o recebimento de doações”, relata Bezerra.
Outra ação que está sendo realizada pelo Abrigo Moacyr Alves é a campanha “Adote um acolhido e seja o Papai Noel neste Natal”. Segundo a assistente social, os interessados podem realizar o pedido de presente da Natal feito por um acolhido do abrigo.
“A pessoa vem até a instituição, procura o serviço social ou a coordenação que a gente leva a pessoa até a árvore onde fica as cartinhas om os pedidos dos acolhidos. A pessoa pega a cartinha e em outro momento vem deixar o presente, ou entrega pessoalmente. Também é possível solicitar a cartinha de forma virtual. Estamos realizando essa campanha para realizar a grande ceia de Natal e entrega dos presentes aos acolhidos”, descreve a assistente social.
Socorro Bezerra aproveita o momento para ressaltar a importância de ser solidário nesta época, principalmente com aqueles que mais necessitados.
“O abrigo presta serviço de alta complexidade com acolhimento de crianças e adolescentes com múltiplas deficiências físicas e neurológicas. Há também acolhidos adultos aqui, pois não tem para onde ir. A mensagem que queremos deixar é que a vida vale a pena e por ela devemos lutar com todas as forças, todas as nossas forças. Essa é a nossa reflexão”, finaliza a assistente social.