Avanço da misoginia nas redes preocupa ativistas
Termos como “red pill” e “incel” fomentam uma cultura perigosa de orgulho masculino baseado no ódio às mulheres
No Dia Internacional da Mulher, celebrado neste domingo, além da luta histórica por direitos, cresce também uma nova preocupação: a violência digital. Ativistas alertam sobre avanço de conteúdos misóginos nas plataformas e em fóruns online, atingindo cada vez mais crianças e adolescentes com mensagens de ódio contra mulheres.
Dados da Nexus, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência, mostram que 8,8 milhões de brasileiras sofreram violência digital no último ano.
Os dados apontam que 10% da população feminina de 16 anos ou mais sofreram algum tipo de violência digital em 2025. Entre as violências mais relatadas, está o envio de mensagens ofensivas e ameaçadoras de forma recorrente, realidade para 5% da população, cerca de 4,8 milhões de mulheres.
Em seguida aparecem invasão de contas e dispositivos pessoais (4%) e espalhar mentiras sobre a vítima em redes sociais (4%), compondo um cenário de assédio que se espalha pelos principais ambientes digitais utilizados pelas brasileiras.
Também são registrados montagens com as fotos e divulgação de vídeos íntimos para constranger. Esses comportamentos acendem um alerta para o avanço da violência contra a mulher, que se organiza virtualmente, mas se manifesta de forma brutal no mundo real.
A coordenadora do Fórum Permanente de Mulheres de Manaus, Marília Freire, explica que muitos desses crimes passam a ser organizados nesses espaços digitais, contribuindo para o fortalecimento do machismo, especialmente entre os mais jovens.
“A gente tem um fortalecimento da violência acontecendo nessas redes paralelas, no submundo das redes sociais e da internet também. Há fóruns organizados, com discurso de ódio pronto. Nesses ambientes digitais eles estão comemorando as mortes das mulheres, enaltecendo os homens que se suicidam depois de feminicídio, como se fossem mártires. Então você que é um buraco mais fundo, que vai além de apenas disseminação de ódio nas redes sociais”.
Crimes ganham força
Ela afirma que com o anonimato e a possibilidade de encontros virtuais feitos de qualquer lugar, os crimes contra as mulheres ganham força.
“O que acontece nas redes sociais é que isso amplificou muito. Antes esses homens tinham que se encontrar pessoalmente para fazer isso, hoje eles se encontram em fóruns virtuais, se conectando mundialmente com esse discurso que é de misoginia e de ódio às mulheres”, informou.
A ativista ressalta que a amplificação e naturalização de discursos misóginos tem fortalecido e encorajado homens a cometerem crimes contra a mulher.
“A gente está vendo uma crescente, não só dos dados, mas uma crescente da crueldade. Eu acho que esse é um reflexo do que está acontecendo nas redes sociais. A realidade está sendo impactada por esses movimentos dentro das redes sociais. E isso está com a sensação de aumento, ainda piorado por conta da divulgação das violências através das redes sociais. Essa semana passada um homem matou uma mulher, ela implorando para ele não matá-la, enquanto ele fazia vídeo chamada com a irmã”.
Marília Freire afirmou que casos recentes, como o de jovens que cometeram diversas crueldades contra um cachorro, o estupro coletivo de uma adolescente e o crescimento das divulgações desses crimes aliado à sensação de impunidade, estão entre os problemas enfrentados atualmente.
Mas segundo ela, a principal forma de enfrentamento passa pelo maior controle das redes sociais por parte dos pais e pela necessidade de uma educação escolar que trabalhe questões de gênero.
“Uma coisa importante é a gente falar das crianças e dos adolescentes que estão acessando esses conteúdos indiscriminadamente. Os pais precisam se responsabilizar por isso. A gente já tem mecanismos tecnológicos que permitem o monitoramento do que está sendo consumido ou não de conteúdo pelas crianças e pelos adolescentes, acho que esse é um ponto”, disse.
“Não consigo ver uma mudança para a nossa geração e nem para a próxima, mas talvez para a outra, se a gente olhar para a infância agora. Uma coisa que é certa e cientificamente comprovada são realmente trabalhos na escola ou por programas de saúde na escola, por profissionais de saúde ou por professores de educação em gênero. Porque isso permite que a gente se desconecte dos estereótipos de gênero”.
Grupos Online
Atualmente, termos como “Red Pill”, que se refere à ideia de que homens precisam “acordar para a verdade” sobre feminismo e relacionamentos, e “incel” (abreviação de involuntary celibate ou celibatário involuntário), usada para designar homens que dizem não conseguir ter relacionamentos afetivos ou sexuais apesar de desejarem, passaram a ganhar maior visibilidade nas redes sociais.
Antes frequentemente utilizados como ofensa, esses termos vêm sendo ressignificados e até assumidos por alguns grupos online. Em plataformas como X, Telegram, Discord e TikTok, comunidades masculinas passaram a adotar essas identidades e a difundir conteúdos que criticam mulheres e a ampliação de seus direitos e liberdades.
Conteúdos afetam o comportamento
A professora Joemes de Lima Simas, da faculdade de tecnologia da Universidade Federal do Amazonas, avalia que conteúdos violentos ou misóginos podem impactar a forma como os jovens se relacionam e se comportam no cotidiano.
“Hoje a gente tem tido várias notícias nesse sentido da violência. Hoje mesmo, se você abrir qualquer portal de notícia, aconteceu alguma violência com alguém. É uma realidade preocupante”, afirmou.
Como forma de enfrentar esse cenário, Joemes Simas defende o fortalecimento de redes de apoio que possam identificar e acolher possíveis vítimas de violência.
“Eu acho que, acima de tudo, a rede de apoio, a rede de apoio é muito importante. Tanto na família quanto no estilo que ela frequenta, seja pública, seja particular. Eu acho que a rede de apoio é de extrema importância até para fazer esse tipo de identificação de violência”, afirmou.
A professora também destacou a importância de discutir o tema da violência contra a mulher e do uso responsável das redes sociais desde cedo, tanto no ambiente escolar quanto no familiar.
“Eu acho que além da educação básica, é dentro da própria família, controlar o uso das redes sociais. A escola também deve ter esse trabalho de conversar com meninos e meninas, falando desse conceito da importância do respeito entre ambos”, disse.